Os problemas da Bracell nos Estados Unidos
Gigante da celulose enfrenta investigações por dumping e subsídios que podem encarecer suas exportações ao mercado americano
Uma das maiores produtoras mundiais de celulose solúvel, a Bracell enfrenta uma disputa comercial nos Estados Unidos que pode afetar a competitividade de suas exportações. A companhia, controlada pelo grupo Royal Golden Eagle (RGE), é alvo de duas investigações conduzidas pelo Departamento de Comércio americano, relacionadas à venda de produtos por preços considerados inferiores ao valor justo e ao possível recebimento de subsídios compensáveis.
A dimensão da empresa ajuda a explicar a importância do caso. Com operações industriais na Bahia e em São Paulo, a Bracell produziu 3,46 milhões de toneladas de celulose em 2025, considerando suas linhas de celulose solúvel e kraft. Desse volume, 3 milhões de toneladas vieram da unidade de Lençóis Paulista, em São Paulo, e 460 mil toneladas da fábrica de Camaçari, na Bahia.
A celulose solúvel é uma matéria-prima de maior grau de pureza, empregada na fabricação de fibras têxteis, produtos farmacêuticos e outras aplicações industriais especializadas. A Bracell abastece mercados na América do Norte, na Europa e na Ásia. A companhia não divulga seu faturamento consolidado, alegando razões de confidencialidade.
Na investigação antidumping, o Departamento de Comércio calculou preliminarmente uma margem de 7,2% para a Bracell Bahia Specialty Cellulose e a Bracell SP Celulose, tratadas conjuntamente para fins da apuração. A taxa ajustada de depósito sobre as importações abrangidas foi fixada em 6,09%.
Em um procedimento paralelo, destinado a investigar possíveis subsídios compensáveis, as autoridades americanas estabeleceram uma taxa preliminar de 3,67% para a Bracell Bahia Specialty Cellulose. Os dois procedimentos têm fundamentos distintos e seus percentuais não devem ser simplesmente somados para estimar o impacto financeiro sobre a empresa.
Um dos pontos da investigação está na metodologia aplicada pelas autoridades americanas. No processo antidumping, o Departamento de Comércio recorreu parcialmente a informações disponíveis e a inferências desfavoráveis à Bracell. Na apuração sobre subsídios, o órgão também utilizou inferências adversas ao examinar determinadas informações fornecidas pelo governo brasileiro. São procedimentos previstos na legislação comercial americana e não equivalem, por si só, à comprovação de fraude pela companhia.
As medidas atingem a celulose solúvel de alta pureza enquadrada nas definições das investigações, e não toda a produção da Bracell. Seu possível impacto econômico está na exigência de depósitos aduaneiros, na pressão sobre os preços de exportação e na necessidade de renegociar condições comerciais, dependendo da evolução dos processos e de quem assume os custos nos contratos de venda.
O mercado em disputa é relevante. Em 2024, as importações americanas provenientes do Brasil nas classificações aduaneiras utilizadas pelas autoridades na investigação somaram aproximadamente 207,8 milhões de dólares. O valor não corresponde necessariamente às vendas da Bracell, pois as categorias estatísticas podem incluir produtos não abrangidos pelos procedimentos.
A disputa avançou na quinta-feira, 8 de outubro, com uma audiência da Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos (USITC), responsável por analisar se as importações investigadas provocam ou ameaçam provocar danos à indústria americana. Entre os requerentes dos processos estão a fabricante Rayonier Advanced Materials e o sindicato United Steelworkers.
As investigações foram iniciadas em 2025 e as determinações comerciais preliminares foram divulgadas ao longo de 2026. A conclusão sobre as medidas definitivas depende das etapas próprias de cada procedimento. Os percentuais já anunciados não constituem uma condenação judicial da companhia por prática ilegal.






