Pessimismo do consumidor nos EUA atinge pior nível em 70 anos
Já o mercado acionário opera perto dos patamares da bolha da internet nos anos 2000
Por Ernesto Neves
As ações americanas vivem um momento raro de euforia.
O índice S&P 500 acumula semanas consecutivas de alta, o Dow Jones renovou recordes e as avaliações do mercado se aproximam de níveis vistos pela última vez na bolha das empresas de internet, no início dos anos 2000.
Ao mesmo tempo, os consumidores americanos atravessam um dos momentos de maior desalento já registrados.
Dados divulgados pela Universidade de Michigan mostram que o índice de sentimento do consumidor caiu ao menor patamar desde o início da série histórica, iniciada nos anos 1950.
O recuo aprofundou uma tendência de pessimismo já observada antes, intensificada pela alta dos combustíveis, pela inflação persistente, pelo enfraquecimento do mercado de trabalho e pelo ambiente geopolítico mais instável.
A dissociação entre Wall Street e o humor das famílias desafia um padrão histórico da economia americana, no qual bolsas fortes costumam caminhar junto com consumidores confiantes, crescimento econômico robusto e perspectivas positivas para renda e emprego.
Consumidor pessimista em meio a inflação, guerra e emprego mais fraco
O Índice de Sentimento do Consumidor da Universidade de Michigan é uma das medidas mais acompanhadas do humor econômico nos Estados Unidos.
Construído a partir de entrevistas mensais com famílias americanas, ele procura captar percepções sobre finanças pessoais, condições econômicas atuais e expectativas futuras.
Segundo a leitura mais recente, a confiança caiu abaixo do piso observado em junho de 2022, período marcado pela inflação mais elevada em décadas nos EUA.
Joanne Hsu, diretora das pesquisas de consumidores da Universidade de Michigan, afirmou ao Wall Street Journal que a deterioração reflete a combinação de preços ainda altos, piora nas condições do mercado de trabalho e o impacto do conflito envolvendo o Irã sobre combustíveis e expectativas econômicas.
Mesmo com a desaceleração da inflação em relação aos picos pós-pandemia, muitos americanos continuam convivendo com um custo de vida significativamente maior do que o observado antes de 2020.
Estudos do Federal Reserve mostram que a percepção pública sobre inflação costuma responder mais aos preços do cotidiano, como gasolina, alimentos e aluguel, do que a indicadores macroeconômicos agregados.
Mercado opera perto de níveis associados à bolha da internet
Se o sentimento popular aponta para cautela, o mercado financeiro transmite a mensagem oposta.
O principal indicador citado por analistas é o chamado CAPE ratio (cyclically adjusted price-to-earnings ratio), desenvolvido pelo economista Robert Shiller, da Universidade Yale, vencedor do Nobel de Economia de 2013.
O indicador ajusta o preço das ações pelos lucros médios das empresas ao longo de dez anos, corrigidos pela inflação, e é amplamente usado para avaliar se o mercado está caro ou barato em termos históricos.
Segundo os dados compilados por Shiller, o CAPE do S&P 500 ultrapassou 40, nível alcançado apenas durante a fase mais extrema da bolha “dotcom”, entre o fim dos anos 1990 e o começo de 2000.
Naquele período, porém, o pano de fundo econômico era distinto.
Os Estados Unidos exibiam crescimento forte, desemprego baixo, inflação moderada, expansão tecnológica associada à internet e um clima geopolítico relativamente mais otimista após o fim da Guerra Fria. A confiança do consumidor, então, estava entre as maiores da série histórica.
Agora, o quadro é quase inverso: mercados em máxima convivem com um público profundamente pessimista.
Inteligência artificial ajuda a explicar desconexão
Economistas vêm oferecendo interpretações diferentes para o descompasso.
Uma hipótese é que o mercado esteja excessivamente otimista e precificando ganhos futuros que podem não se materializar, deixando espaço para correções importantes caso crescimento econômico, lucros corporativos ou juros decepcionem.
Outra leitura sustenta que investidores estão antecipando uma melhora futura ainda não incorporada pelas famílias, com possível redução das pressões inflacionárias, acomodação do conflito geopolítico e recuperação econômica.
Há ainda uma terceira explicação que ganhou força nos últimos dois anos: o papel da inteligência artificial.
O entusiasmo em torno da IA tornou-se um dos motores centrais das bolsas americanas, especialmente entre empresas de tecnologia, semicondutores, computação em nuvem e infraestrutura digital. Companhias associadas à corrida da IA passaram a concentrar parcela crescente dos ganhos do mercado.
Mas a mesma tecnologia que impulsiona ações também alimenta ansiedade social.
Pesquisas recentes do centro de estudos Pew Research Center mostram que trabalhadores americanos tendem a enxergar a inteligência artificial com mais preocupação do que executivos e especialistas em tecnologia, sobretudo em temas ligados à automação, substituição de empregos e concentração econômica.
Para investidores, sistemas capazes de elevar produtividade, reduzir custos de mão de obra e ampliar margens de lucro podem justificar avaliações elevadas. Para trabalhadores, o mesmo cenário pode significar insegurança profissional.
Ganhos da bolsa não chegam da mesma forma às famílias
A estrutura patrimonial americana também ajuda a entender a divergência.
Embora dezenas de milhões de americanos tenham alguma exposição ao mercado financeiro por meio de fundos de aposentadoria ou investimentos indiretos, a posse de ações permanece concentrada entre famílias de renda mais alta.
Dados do Federal Reserve indicam que os estratos mais ricos concentram parcela desproporcional dos ativos financeiros nos EUA.
Na prática, isso significa que uma bolsa em forte valorização não produz necessariamente melhora equivalente no sentimento médio da população.
Pesquisas da própria Universidade de Michigan apontam que consumidores com grandes carteiras de investimentos costumam reportar humor econômico mais favorável do que grupos menos expostos ao mercado acionário.
Ainda assim, mesmo entre investidores, os níveis recentes de confiança permanecem abaixo dos observados em ciclos anteriores de forte valorização bursátil.
O que o descompasso pode indicar
Historicamente, divergências prolongadas entre mercados financeiros e percepção econômica costumam despertar atenção de economistas e formuladores de política monetária.
Nem sempre elas sinalizam uma bolha prestes a estourar. Em alguns momentos, investidores efetivamente antecipam mudanças positivas antes de elas aparecerem nos indicadores tradicionais.
Em outros episódios, porém, mercados superestimam tendências tecnológicas, crescimento futuro ou capacidade de expansão dos lucros corporativos.
O atual momento americano reúne elementos das duas interpretações.
De um lado, empresas seguem reportando ganhos robustos em setores ligados à inteligência artificial e tecnologia. De outro, consumidores continuam pressionados por custos elevados, insegurança econômica e incerteza internacional.
A combinação ajuda a explicar um quadro incomum na história econômica recente dos Estados Unidos: um mercado acionário operando próximo da euforia enquanto o humor da população se aproxima do fundo do poço.






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