PIB per capita cresce 3% em 2024, ‘zera’ década perdida e bate recorde
Medida que indica o nível de renda do país passou dos R$ 55 mil e ultrapassou, pela primeira vez, o pico que havia sido perdido em 2013

A mistura de um crescimento forte da economia no ano passado com um avanço cada vez menor da população ajudou o Brasil a realizar, em 2024, um feito longamente aguardado: o PIB per capita do país finalmente conseguiu retomar — e superar — o nível de renda que havia perdido em 2013. A partir dali, viria uma sucessão de anos de recessão e crescimento baixo que fizeram com que a renda média do brasileiro andasse para trás e consolidaram os anos de 2010 como a “segunda década perdida” da história nacional, ao lado dos turbulentos anos de 1980.
Em 2024, enquanto a população do Brasil cresceu 0,4%, o PIB cresceu 3,4%. Como resultado, o PIB per capita cresceu 3%, chegando a 55.966 reais no ano passado. Com isso, o valor superou o pico que havia sido registrado em 2013, de 54.050 reais, e se tornou o maior já alcançado na história do país, o que significa que, pela primeira vez em mais de uma década, o Brasil voltou de fato a ficar um pouco mais rico do que já tinha sido no passado. As contas já consideram valores corrigidos pela inflação e foram feitas, a pedido de VEJA, pela economista Silvia Matos, pesquisadora e coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).
O PIB per capita é uma conta tão simples quanto dividir todo o produto interno bruto, que é a riqueza total do país, por cada pessoa. Não é uma medida perfeita de bem-estar, já que não considera, por exemplo, a distribuição e quando cada um tem de fato, mas é o principal indicador do nível de renda de uma economia e do quanto a sua capacidade de gerar riqueza para a população está crescendo ou não.
Na década de 2010, que compreende os anos de 2011 a 2020, o crescimento médio do PIB do país foi de apenas 0,3%. Como a população cresce mais do que isso, o PIB per capita regrediu: ele caiu a uma média de 0,4% ao ano. A série feita pela FGV reconstrói a evolução do PIB brasileiro desde 1900: nos 120 anos de lá para cá, a década de 1980 tinha sido a única em que o PIB per capita regrediu, também a uma taxa negativa de 0,4% ao ano.
O tombo dos anos 2010 acaba sendo prejudicado pelo desempenho de 2020, ano em que a pandemia estourou no mundo e o PIB brasileiro caiu mais de 3% de uma só vez. Mas, mesmo se ele é retirado da conta, a década continua perdida: considerada apenas a média de 2011 a 2019, o PIB per capita cresceu zero. Isso acontece por conta da profunda recessão por que o país passou nos anos de 2015 e 2016, quando, no governo de Dilma Rousseff, o PIB recuou 7% no biênio, e pela recuperação muito fraca que veio depois, em uma sequência de anos em que o país cresceu pouco mais de 1% nas gestões tanto de Michel Temer quanto, a partir de 2019, de Jair Bolsonaro.