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“A Uber quer ser vista como parceira dos governos”, diz diretor global de mobilidade da empresa

Pradeep Parameswaran, responsável pela operação de transporte da companhia, analisa o papel do país na estratégia global e as tendências para o setor

Por Redação VEJA Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 7 abr 2026, 07h00
“A Uber quer ser vista como parceira dos governos”, diz diretor global de mobilidade da empresa Priorizar nos meus resultados Google

O avanço da mobilidade urbana em grandes cidades e o papel das plataformas digitais no transporte têm ganhado centralidade no debate sobre infraestrutura, inovação e eficiência econômica. Em mercados emergentes como o Brasil, o desafio passa por conciliar crescimento, congestionamento e acesso a serviços em centros urbanos cada vez mais pressionados.

Responsável pela operação de mobilidade da Uber em mais de 70 países, Pradeep Parameswaran acompanha de perto essas transformações e a evolução do setor em escala global. Em entrevista a VEJA, o executivo analisa o papel do Brasil na estratégia da empresa e as tendências que devem moldar o futuro da mobilidade nos próximos anos.

Qual é o maior desafio da mobilidade em cidades emergentes como o Brasil?

Eu cresci na Índia, em cidades muito grandes, como Mumbai, e vivi muitos anos em Délhi. E o que vejo é que esse é um problema comum a várias cidades do mundo, como São Paulo, Cidade do México, cidades na Indonésia. O principal desafio é o congestionamento. Está cada vez mais difícil se deslocar, e isso tem impacto direto na produtividade e nos custos das cidades. As pessoas passam muito tempo no trânsito, e isso afeta a economia como um todo. Paralelamente, conforme a renda cresce, mais pessoas querem comprar carros, e cada novo carro só aumenta esse problema. Por isso, a mobilidade compartilhada precisa ser parte central da solução, junto com o transporte público.

Como a Uber se insere nesse cenário?

Hoje somos uma parte relevante do ecossistema de transporte e queremos contribuir para tornar a mobilidade mais fácil, acessível e confiável. Em mercados emergentes, isso passa por ampliar a infraestrutura de transporte compartilhado e, principalmente, por nos tornarmos parceiros mais fortes do transporte público. Muitas vezes, o transporte público não cobre toda a cidade, e chegar até uma estação pode ser difícil. Se ela está a dois ou três quilômetros de distância, caminhar nem sempre é uma opção. Então, nosso papel também é ajudar nesse primeiro e último trecho, permitindo que mais pessoas utilizem o sistema como um todo.

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O que torna o Brasil um mercado tão estratégico para a Uber?

O Brasil continua sendo o maior mercado da Uber no mundo em volume, o que é significativo considerando o tamanho global da empresa. São Paulo, por exemplo, é uma das cidades mais importantes para nós, mas há várias outras no país com grande relevância. Além disso, o Brasil se tornou um polo de inovação dentro da companhia. Muitas soluções que hoje fazem parte da nossa operação global surgiram aqui, o que mostra como o país não é apenas um mercado consumidor, mas também um gerador de ideias.

Que tipo de inovação nasceu no Brasil?

Um exemplo claro é o Uber Moto. O Brasil não foi o primeiro país a lançar esse produto, isso aconteceu em Bangladesh, mas foi o mercado que mais rapidamente adotou e escalou o modelo. Isso tem muito a ver com as características locais, como o trânsito intenso e a busca por soluções mais acessíveis. Eu mesmo usei o serviço recentemente no Rio e a experiência é muito eficiente: é mais barato e, em muitos casos, mais rápido. Outro exemplo é o crescimento das soluções de logística local, que ganharam força especialmente depois da pandemia, quando surgiu a necessidade de transportar itens de um ponto a outro sem deslocamento físico das pessoas.

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O Brasil também ganha relevância em tecnologia?

Sim. Estamos ampliando nossa presença tecnológica no país. Já temos centros técnicos em São Paulo e anunciamos recentemente a abertura de um novo no Rio de Janeiro. Isso mostra que o Brasil passou a ser também uma fonte de talento e inovação tecnológica para a empresa, e não apenas um mercado de operação.

Onde está o principal vetor de crescimento da Uber hoje?

O crescimento está na diversificação. A Uber começou como um único produto, como o UberX, mas hoje estamos caminhando para um portfólio mais amplo de soluções. Em alguns países, já integramos ônibus, trens e outros modais dentro da plataforma. A ideia é oferecer diferentes opções e permitir que o usuário combine essas alternativas em uma única jornada. O nosso diferencial está na capacidade de conectar essas redes, aumentar a eficiência e, com isso, reduzir custos para o usuário.

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O preço ainda é um fator limitante para o acesso?

O preço é sempre um tema sensível, especialmente em um serviço de massa como o nosso. Houve recentemente discussões sobre aumento de preços, mas os nossos dados mostram que eles cresceram abaixo da inflação. É importante lembrar que, se o serviço deixa de ser acessível, a demanda cai, e isso também impacta a renda dos motoristas. Existe um equilíbrio importante entre preço, utilização e sustentabilidade do modelo.

Qual é o papel da inteligência artificial nesse cenário?

A aplicação mais visível da inteligência artificial será na autonomia, com veículos autônomos, que representam uma das maiores transformações no mundo físico. Mas, na prática, a Uber já utiliza IA há muito tempo. Nós realizamos cerca de 10 bilhões de viagens por ano globalmente, e operar nessa escala exige sistemas altamente sofisticados de otimização. Com o avanço da inteligência artificial generativa, estamos conseguindo aplicar essas tecnologias de forma ainda mais abrangente.

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Onde mais a IA deve avançar?

Um dos principais avanços deve ocorrer no atendimento ao cliente. Trata-se de uma área complexa, que envolve alto volume e múltiplas situações. Estamos investindo para tornar esse processo mais eficiente e escalável, utilizando tecnologia para melhorar a experiência do usuário.

Como você vê o futuro da mobilidade?

Vejo uma combinação de tendências. Eletrificação, autonomia e modelos compartilhados devem avançar juntos. Há também uma mudança geracional importante, uma vez que as pessoas mais jovens estão menos interessadas em possuir um carro e mais abertas a usar serviços sob demanda. Existe uma frase interessante de um ex-prefeito de Barcelona (na Espanha), que dizia que um país desenvolvido não é aquele onde todos têm carro, mas onde até os mais ricos usam transporte público. Acho que isso resume bem a direção.

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E como a Uber vê o debate sobre regulação do trabalho no Brasil?

A economia de plataformas cresceu muito nos últimos anos e criou oportunidades para pessoas que antes não tinham acesso a esse tipo de renda. Ao mesmo tempo, ela é diferente do trabalho tradicional, porque oferece flexibilidade e isso é algo que os trabalhadores valorizam. A regulação é importante, pois traz previsibilidade e proteção, mas precisa ser construída levando em conta essas diferenças. Existem exemplos em outros países que buscam equilibrar proteção social com flexibilidade, e acreditamos que esse é o caminho.

Qual mensagem a empresa quer passar ao governo brasileiro?

Queremos ser vistos como parceiros. Acreditamos que a tecnologia pode contribuir para melhorar o sistema de transporte como um todo, tornando-o mais seguro, acessível e eficiente. Estamos dispostos a colaborar, compartilhar conhecimento e investir para que isso aconteça.

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