Renault renova o portfólio, ganha escala e avança
A união estratégica entre Renault e a chinesa Geely impulsiona a montadora no concorrido setor automotivo
A Renault passa por uma transformação relevante no Brasil. Depois de um período em que sua atuação no país esteve concentrada nos segmentos de entrada, a montadora francesa avançou em categorias superiores, renovou o portfólio e, desde novembro de 2025, tem a chinesa Geely como sócia minoritária, com 26,4% do capital da operação brasileira. Em 2025, registrou receita líquida de 18 bilhões de reais e lucro líquido de 471 milhões, desempenho que a levou ao primeiro lugar do setor de veículos e autopeças no ranking TOP30. Para Ariel Montenegro, presidente da Renault Geely do Brasil, o casamento colocou a operação brasileira em posição estratégica para os dois grupos. Com o acordo, o desenvolvimento, a produção e a comercialização das duas marcas passaram a ser conduzidos pela estrutura local. “Temos a oportunidade de unir a experiência de um grupo de quase 130 anos à agilidade de outro, com 40 anos e tecnologias eletrificadas muito competitivas, para trazer mais inovação e competitividade ao Brasil”, afirma Montenegro.
As sinergias começam pela estrutura que a Renault construiu desde o início da produção no país, em 1998, e que abrange administração, logística, distribuição, pós-venda e relacionamento com as concessionárias. A Geely, por sua vez, oferece acesso a uma plataforma desenvolvida para veículos eletrificados, que poderá servir de base a futuros modelos da marca francesa. Montenegro prevê ganhos de escala e eficiência, com redução de custos, além da incorporação de novos recursos tecnológicos no médio prazo. A estratégia, contudo, preserva a identidade de cada fabricante. Embora possam disputar espaço em alguns segmentos, a Geely concentra seu posicionamento em eletrificação e inovação, enquanto a Renault explora atributos como design, praticidade e soluções voltadas ao usuário.
É nesse contexto que se insere o novo ciclo de investimentos de 3,8 bilhões de reais do grupo, anunciado em 2025, com a formalização da parceria. Boa parte dos recursos está sendo direcionada ao Complexo Ayrton Senna, em São José dos Pinhais (PR), para produzir dois novos modelos Geely e receber uma plataforma eletrificada da Renault, além da renovação de outros produtos. “A Renault quer crescer no Brasil em volume e em rentabilidade, enquanto a Geely pretende ser um ator relevante no país”, diz Montenegro.
Na avaliação de Milad Kalume Neto, da consultoria K.Lume, a associação atende a necessidades complementares. “É um ganha-ganha para as duas montadoras”, afirma. Na prática, a união encurta caminhos para as duas empresas: a Geely desembarca no Brasil apoiada por uma operação madura, enquanto a Renault acelera a renovação tecnológica. Com novos modelos, uma plataforma eletrificada e uma fábrica preparada para atender às duas marcas, o país deixa de ser apenas um mercado relevante e passa a ocupar papel central nos planos globais dos dois grupos.
Publicado em VEJA, agosto de 2026, edição VEJA Negócios nº 29







