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Tarifaço eleva custos de empresas médias e encarece o bolso do consumidor

Estudos identificam os setores e elos mais atingidos pela política comercial de Donald Trump e indicam que o maior ônus recai sobre a própria economia americana

Por Luana Zanobia Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 19 fev 2026, 11h24 | Atualizado em 19 fev 2026, 11h40
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Em teoria, tarifas punem estrangeiros. Na prática, funcionam como um tributo recolhido no próprio território.

Dois estudos recentes – um do JPMorgan Chase Institute e outro do Kiel Institute for the World Economy – oferecem um retrato do impacto do tarifaço adotado pelos Estados Unidos em 2025. O primeiro trata da vulnerabilidade das empresas de médio porte; o segundo demonstra que, no fim da cadeia, a fatura chega às famílias.

O pano de fundo é a retomada agressiva da política tarifária sob o governo de Donald Trump, que elevou alíquotas sobre parceiros comerciais estratégicos, com destaque para a China. Após anúncios em abril, tarifas chegaram a níveis proibitivos – 145% no caso chinês – antes de serem parcialmente recuadas para 55%. Ainda assim, permanecem acima das taxas impostas a qualquer outro grande parceiro comercial.

O estudo do JPMorgan Chase Institute concentra-se no chamado “middle market”: empresas com faturamento anual entre US$ 10 milhões e US$ 1 bilhão. Longe de serem marginais, elas respondem por cerca de um terço da receita e do emprego do setor privado americano. Quase metade importa bens. Em 2022, 20,9% das importações dessas empresas vieram da China, proporção superior à média das empresas americanas como um todo (17,7%).

Já México e Canadá, alvos de tarifas de 25%, têm peso relativamente menor na pauta do middle market. O resultado é uma assimetria: as médias empresas foram desproporcionalmente atingidas pelas tarifas mais elevadas, concentradas na Ásia.

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Além das médias estarem mais expostas aos impactos no parceiro asiático, há também maior volatilidade regulatória. Desde o início de 2025, alíquotas foram anunciadas, suspensas e renegociadas com rapidez incomum. Para empresas que operam com contratos de fornecimento e margens estreitas, a incerteza regulatória é quase tão onerosa quanto a tarifa em si.

Além disso, muitas atuam como fornecedoras de bens intermediários – peças, componentes, insumos – integrados a cadeias maiores. Uma tarifa que eleva o custo de um elo, reverbera por toda a estrutura. Em teoria, tarifas poderiam fortalecer fornecedores domésticos. Na prática, se esses mesmos fornecedores dependem de insumos importados mais caros, o ganho competitivo evapora.

Os setores mais expostos são comércio atacadista e varejista, segmentos conhecidos por margens comprimidas. Isso limita a capacidade de absorver custos adicionais, aumentando a probabilidade de repasse.

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É aqui que entra o segundo estudo, conduzido pelo Kiel Institute for the World Economy. Analisando mais de 25 milhões de registros de remessas, cerca de US$ 4 trilhões em importações, o instituto conclui que praticamente todo o custo das tarifas foi pago por consumidores americanos.

A mecânica é previsível. O importador paga a tarifa na alfândega. O custo entra no balanço. Diante de margens limitadas, a empresa decide: absorver o impacto ou repassar. Evidências das rodadas tarifárias de 2018 e 2019 indicam que o repasse foi a fórmula utilizada, e se repete agora.

Para o instituto, o problema não é apenas o imposto em si, mas os efeitos colaterais que ele desencadeia. Com preços mais altos, consumidores deixam de comprar o que preferem e migram para opções menos atraentes. Empresas, por sua vez, gastam tempo e recursos reorganizando fornecedores e rotas de produção. Esses ajustes não geram riqueza nova; apenas mitigam o dano causado pela tarifa. É essa ineficiência – a perda que não se transforma em arrecadação nem em lucro – que os economistas chamam de “perda de peso morto”.

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Se o impacto não é absorvido pelas empresas americanas, mas repassado adiante, tampouco há evidência de que exportadores estrangeiros estejam dispostos ou aptos a internalizar o custo das tarifas. A própria lógica de mercado os incentiva a buscar alternativas mais vantajosas, redirecionando vendas para outros destinos em vez de reduzir preços de forma significativa para preservar participação nos Estados Unidos. O Kiel aponta três fatores que explicam esse comportamento: a existência de mercados alternativos relevantes, a inviabilidade econômica de compensar tarifas elevadas apenas com descontos e a expectativa de que as medidas possam ser temporárias ou renegociadas.

Em outras palavras, a barganha tarifária tem limites quando o mercado global oferece opções.

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