TSMC: como a fabricante de chips de Taiwan se tornou peça-chave da IA
Com um modelo de negócio revolucionário e fábricas ultrassofisticadas, empresa está na base da indústria global
Ela não aparece nas vitrines, não estampa sua marca nos aparelhos que chegam às mãos dos consumidores e raramente é lembrada fora dos círculos especializados. Ainda assim, poucas empresas exercem tanta influência sobre o futuro da economia mundial quanto a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, a TSMC. É em suas fábricas ultrassofisticadas que nascem alguns dos chips mais avançados do planeta, componentes minúsculos que alimentam desde smartphones e carros elétricos até a revolução da inteligência artificial. A empresa taiwanesa tornou-se o alicerce invisível da nova corrida tecnológica. Enquanto gigantes americanos como Apple, Nvidia e AMD concebem os dispositivos e sistemas que prometem transformar a sociedade, é a TSMC que os converte em realidade. Em um cenário em que a inteligência artificial passou a definir uma disputa por poder econômico, científico e geopolítico, conhecer a trajetória dessa fabricante é também compreender quem dominará a infraestrutura sobre a qual será construída a próxima geração de riqueza, inovação e influência global.
VEJA NEGÓCIOS esteve em Taiwan durante a Computex, realizada em Taipé, a maior feira de economia digital da Ásia, onde ficou evidente que a disputa pela inteligência artificial começa muito antes dos algoritmos. Ela nasce nas empresas capazes de produzir a infraestrutura física dessa revolução. Ao circular pela ilha e conversar com executivos, pesquisadores e autoridades, fica claro que a TSMC ultrapassou os limites de uma companhia privada e passou a integrar a própria identidade econômica de Taiwan. Em um território de apenas 36 000 quilômetros quadrados — menor que o estado do Rio de Janeiro — e com cerca de 23 milhões de habitantes, a empresa se converteu na espinha dorsal de um dos ecossistemas tecnológicos mais sofisticados do planeta. “O modelo de fabricação sob encomenda da indústria de semicondutores tem uma barreira de entrada extremamente alta, e Taiwan é o único lugar que possui essa capacidade de manufatura”, afirma Cheng-Wen Wu, ministro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (NSTC), órgão responsável por coordenar a política científica do governo taiwanês.
A fórmula que converteu a TSMC em sustentáculo da economia digital surgiu de uma decisão simples e revolucionária. Ela não cria os chips que vende, apenas fabrica os semicondutores projetados por outras empresas. É a função conhecida como foundry. Por ela, empresas como Nvidia, Apple e AMD desenham os chips, enquanto a taiwanesa assume a etapa mais complexa do processo: fabricar os semicondutores em escala industrial. Para isso, a TSMC construiu uma cadeia de precisão imbatível, com cerca de 150 fornecedores especializados em equipamentos, materiais e processos químicos.
A fabricação de um único chip envolve centenas de etapas, da preparação das lâminas de silício (chamadas de wafers) aos testes finais. Com mais de vinte unidades manufatureiras espalhadas pelo mundo, a TSMC combina atributos como engenharia de ponta, ciência aplicada e escala. Sua maior diferenciação, porém, não está nas máquinas, mas num modelo de negócio único, que permite fabricar chips para empresas concorrentes sem competir com seus próprios clientes. “Produzir um semicondutor avançado está entre os processos mais complexos já realizados pelos seres humanos”, diz o americano Chris Miller, professor da Universidade Tufts, em Massachusetts, e autor de A Guerra dos Chips: A Batalha pela Tecnologia que Move o Mundo.
A vantagem dos taiwaneses começa num processo invisível a olho nu. Os chips mais avançados utilizam sistemas de fabricação medidos em poucos nanômetros — 1 nanômetro equivale à bilionésima parte de 1 metro. Quanto menor essa dimensão, maior a quantidade de transistores que pode ser concentrada em um único chip, aumentando a capacidade de processamento e reduzindo o consumo de energia, combinação essencial para a inteligência artificial. Chegar a esse nível de tecnologia exige décadas de pesquisa, uma cadeia altamente especializada de fornecedores e um fluxo permanente de profissionais com habilitação especial.
É por isso que a TSMC mantém uma relação cada vez mais estreita com universidades e centros de estudo, financiando pesquisas, desenvolvendo laboratórios conjuntos e participando ativamente da formação dos alunos, atraindo os melhores para os seus quadros de profissionais. “A inteligência artificial não depende apenas de algoritmos, mas é resultado da combinação entre capacidade computacional, semicondutores, dados e talentos”, afirma Ethan Tu, fundador e diretor do Taiwan AI Labs, principal centro independente de pesquisa em inteligência artificial da ilha.
A dimensão econômica da TSMC revela uma companhia que transcende o papel de fabricante de chips e passou a exercer influência sobre mercados, governos e cadeias produtivas nos quatro cantos do globo. Avaliada em mais de 2 trilhões de dólares, figura entre as empresas mais bem cotadas do planeta. O salto aparece nos balanços. Em 2025, a companhia registrou faturamento de 122 bilhões de dólares e lucro líquido de 55 bilhões de dólares, números impulsionados pela explosão da inteligência artificial. Em apenas cinco anos, a receita mais que dobrou, enquanto o lucro praticamente quadruplicou. A lucratividade das vendas impressiona: é superior a 45%, um índice excepcional para uma indústria que exige investimentos bilionários e renovação tecnológica constante. O peso da TSMC é tão extraordinário que alterou a própria dimensão financeira de Taiwan. A empresa responde por cerca de 40% do valor das companhias listadas na bolsa da ilha, que alcançou 4,1 trilhões de dólares em capitalização e está entre os sete maiores mercados acionários do mundo, acima da bolsa de Londres. “A TSMC é o exemplo de como uma política industrial bem executada pode transformar um país”, afirma Kerry Brown, professor de Estudos Chineses do King’s College London.
A história da TSMC começa com Morris Chang, um engenheiro que se tornou um dos maiores estrategistas da indústria de semicondutores. Nascido na China continental, em 1931, ele migrou para os Estados Unidos ainda jovem, estudou nas renomadas escolas MIT e Stanford e passou 25 anos na Texas Instruments, onde chegou a comandar a divisão de semicondutores. Aos 55 anos, quando já era um executivo consagrado, Chang foi convidado pelo governo de Taiwan para liderar um projeto que mudaria para sempre a ilha: criar uma empresa capaz de fabricar chips para todo o planeta. Fundada em 1987, a TSMC rompeu com o modelo dominante da época. Enquanto gigantes como Intel controlavam todas as etapas da produção, do projeto à fabricação, a taiwanesa criou um modelo independente, dedicado exclusivamente a produzir para terceiros. A estratégia permitiu que concorrentes compartilhassem a mesma fábrica sem ameaçar seus segredos. “O sucesso da TSMC é resultado de um ecossistema em que governo, universidades e indústria aprenderam a inovar juntos”, diz Chi-Hung Lin, reitor da National Yang Ming Chiao Tung University, uma das principais formadoras de engenheiros para a indústria de semicondutores.
A ascensão dos semicondutores ajudou a projetar Taiwan ao topo da economia digital. Integrante dos Tigres Asiáticos, a ilha deixou de depender de manufaturas de baixo valor agregado para construir um ambiente baseado em inovação, pesquisa e tecnologia de ponta. A recente explosão da inteligência artificial intensificou ainda mais esse processo. Após crescer 8,7% em 2025, o produto interno bruto de Taiwan subiu mais 15% nos três primeiros meses deste ano, o ritmo mais acelerado em quatro décadas. Segundo projeções do Fundo Monetário Internacional, o PIB per capita deve superar os 40 000 dólares em 2026, ultrapassando o do Japão. “Os jovens de hoje têm uma grande oportunidade: a tecnologia está criando novos caminhos”, diz a recém-formada Michele Chau, da empresa de chips Silicon Power. A prosperidade se esparrama por toda a ilha. Em metrópoles como Kaohsiung, multiplicam-se novos arranha-céus, parques científicos e centros empresariais. “Depois de estudar e trabalhar no Vale do Silício, percebi que Taiwan havia criado um ambiente capaz de competir com os principais ecossistemas tecnológicos do mundo”, diz Kai-Chiang Wu, consultor e professor de ciências da computação.
Mas a mesma indústria que enriqueceu Taiwan também elevou sua vulnerabilidade. Pequim considera a ilha parte do território chinês e nunca descartou o uso da força para promover a reunificação. À medida que a TSMC se consolidou, a empresa passou a ser vista como um ativo estratégico para toda a economia mundial. Daí surgiu a expressão silicon shield — ou escudo de silício. A ideia é que a dependência global dos chips produzidos no país desestimule uma eventual invasão chinesa. Isso porque qualquer conflito colocaria em risco suprimentos dos quais dependem indústrias inteiras, da inteligência artificial à defesa, da computação em nuvem aos automóveis, setores fundamentais da economia. O argumento, porém, divide especialistas. Se para alguns a força da TSMC aumenta o custo de uma ofensiva militar, para outros ela também a transforma em um dos alvos mais valiosos do planeta. “Os semicondutores deixaram de ser apenas fonte de competitividade”, diz Tsung-Han Wu, do Institute for National Defense and Security Research, centro de estudos vinculado ao Ministério da Defesa de Taiwan. “Hoje, são a base da segurança nacional, da resiliência das cadeias globais e do desenvolvimento militar.” A dependência americana dos semicondutores taiwaneses transformou a TSMC em peça central da disputa tecnológica entre Washington e Pequim. Desde o primeiro mandato de Donald Trump, os Estados Unidos pressionam Taiwan a levar parte da produção para o território americano. O movimento resultou na construção de uma fábrica da empresa em Phoenix, no Arizona, com investimentos de 165 bilhões de dólares. Mas a tentativa trumpista de “repatriar” a indústria revelou seus limites: fabricar um chip depende de uma corrente complexa de fornecedores, equipamentos e especialistas, construída por Taiwan. Mesmo os chips produzidos no Arizona ainda dependem de etapas críticas realizadas na ilha. A disputa mostra uma contradição: Washington quer reduzir sua dependência de Taiwan, mas continua precisando dela para liderar a inteligência artificial, a defesa e a economia digital. Pequena em território, a ilha se tornou um gigante. No século XXI, o poder não está apenas em quem controla recursos, mas em quem domina o conhecimento que move o mundo.
Publicado em VEJA, julho de 2026, edição VEJA Negócios nº 28










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