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A força tranquila da seleção: Ancelotti mistura rigor com ironia e convence o torcedor

Mas dará para despachar a Noruega de Haaland e os companheiros remadores?

Por Fábio Altman, de Nova York 3 jul 2026, 06h00 | Atualizado em 3 jul 2026, 14h57
A força tranquila da seleção: Ancelotti mistura rigor com ironia e convence o torcedor Priorizar nos meus resultados Google

Seria bom alguém contar ao treinador Carlo Ancelotti que um dos filmes que ele mais aprecia derrotou, por assim dizer, o lindo Central do Brasil, de 1998, dirigido por Walter Salles, na disputa pelo Oscar de produção internacional. O italiano conta do apreço por A Vida é Bela, de Roberto Benigni, no livro Liderança Tranquila (Editora Planeta): “A situação é terrível, mas a solução é genial. O que eu gosto é da ideia de que um homem é capaz de transformar uma situação ruim por meio da ironia, permanecendo dentro dela. Ele torna a situação suportável para o filho, enquanto lida com a realidade por conta própria. Isso é sacrifício”. Em A Vida É Bela, Benigni, diretor e ator, usa a imaginação para fazer parecer ao menino que o campo de concentração para o qual foram empurrados é uma brincadeira.

ADMIRAÇÃO MÚTUO - Gabriel Martinelli, autor do gol da virada: “Ele é surreal”
ADMIRAÇÃO MÚTUO – Gabriel Martinelli, autor do gol da virada: “Ele é surreal” (Michael Regan/FIFA/Getty Images)

A ironia — sinônimo de inteligência — talvez seja a mais interessante ferramenta de trabalho e existência de Ancelotti, o primeiro estrangeiro a treinar a amarelinha em Copas. É ironia embebida de calma. No intervalo da partida contra o Japão, com o placar favorável aos orientais por 1 a 0, ele esperou alguns minutos, deixou que os atletas conversassem entre lamúrias e baixou a bola. “Ele é surreal”, diria Gabriel Martinelli, que entraria no lugar de Matheus Cunha para marcar o gol da virada. “Ele passa tranquilidade, e não é apenas falando, é a body language”, completou o atacante do Arsenal, usando expressão em inglês para linguagem corporal. Depois do 3 a 0 contra a Escócia, Ancelotti já tinha dado a deixa, como mantra de um estilo: “Calma, calma”. No vestiário, que considera um “santuário para os jogadores e espaço de trabalho”, disse o que tinha de dizer, com palavras de incentivo e a orientação para que fossem alçadas mais bolas altas para a área do adversário. Saiu um tantinho de lado e foi trocar um dedo de prosa com o braço direito, o inglês Paul Clement, que o acompanha há duas décadas como analista tático. Manteve Casemiro, apesar do cartão amarelo e do primeiro tempo muito ruim, porque o considera um soldado. “Esse tipo de jogador tem a personalidade que eu mais valorizo, porque, quando eu jogava, tinha mais ou menos a mesma habilidade, a mesma capacidade. Os soldados dão o coração pelo time, então não preciso gastar muito tempo com esse tipo de atleta”, anotou em Liderança Tranquila. “Eles são membros de baixo custo de manutenção, permitem que se dedique tempo aos de alto custo. Eles se automotivam 100% do tempo.”

Casemiro ficou, empatou a partida e lá vai o Brasil pela Copa. Uma cena chamou a atenção, e pode mostrar como Ancelotti é diferente de boa parte dos que vieram antes dele. O gol nos acréscimos deixou o grupo alucinado, em comemoração mercurial e merecida. Ancelotti fazia sinal com as mãos pedindo tranquilidade, como se o Brasil tivesse levado um gol. Já que o Santo Graal é a França, o time a ser batido, é possível atrelar a postura de Ancelotti à de um político e a uma divisa que dão as mãos a seu comportamento. Em 1981, o então candidato a presidente da França, François Mitterrand, subiu nas pesquisas — para vencer — com um lema preciso: “A força tranquila”, o retrato de um líder ponderado e seguro, capaz de anunciar mudanças, mas sem radicalismos.

AUTORIDADE - Neymar no banco, contra o Japão: obedece quem tem juízo
AUTORIDADE - Neymar no banco, contra o Japão: obedece quem tem juízo (Masashi Hara/Getty Images)
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Quem, a não ser Ancelotti, teria a autoridade, a essa altura do campeonato, para deixar Neymar no banco — sem que ao camisa 10 do Santos sobre espaço para reclamar? E ai dele se der um pio. Vale lembrar de um episódio que o próprio técnico gosta de citar, na lida com as estrelas. Certa vez, no comando do Milan, ele pôs Rivaldo na reserva. “Tentei explicar que ele jogaria três dias depois, mas ele disse: ‘Rivaldo nunca ficou no banco’. Eu disse a ele: ‘Tudo bem, sempre existe uma primeira vez, e agora é o momento certo de ser a primeira’.” O brasileiro retrucou, insistiu, pegou sua mala e foi para casa — e adeus, Milan, sem que Ancelotti tenha piscado.

SUADO EMPATE - Casemiro, de cabeça: admiração pelos jogadores “soldados”
SUADO EMPATE - Casemiro, de cabeça: admiração pelos jogadores “soldados” (Leslie P. Johnson/Icon Sportswire/Getty Images)

Ele tem um quê de Luiz Felipe Scolari, o Felipão, pela capacidade de montar uma “família”, e um quê de Carlos Alberto Parreira, no rigor tático. Não é um nem outro, mas, da união de características tão diferentes, virou o “antídoto para o caos”, na definição do The New York Times. Chegou a experimentar um esquema de jogo com quatro atacantes, antes da Copa, mas era só ensaio — gosta mesmo é de um clássico 4-4-2. É celebrado por lapidar promessas com calma, e por isso demorou a se convencer por Endrick e Rayan. “Ancelotti é o melhor nome que o Brasil poderia ter na Copa”, disse a VEJA o ex-volante e treinador da seleção, Paulo Roberto Falcão, o genial camisa 5 que atuou com Ancelotti no Roma, nos tempos de jogador do italiano. Falcão comenta o Mundial para uma emissora italiana e, como a Azzurra está fora da competição, Ancelotti é tema central. “Ele tem duas imensas habilidades, a capacidade de gerir uma equipe, com todas as diferenças de estilos e humores, e enxergar o jogo, de modo a mudar estratégias”, elogia Falcão. Nem sempre dá certo, é claro, mas cada vez mais brota uma certeza: Ancelotti sabe o que faz.

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PARCEIROS - Falcão ao lado de Ancelotti, no Roma, no início dos anos 1980: “Ele é muito inteligente”
PARCEIROS - Falcão ao lado de Ancelotti, no Roma, no início dos anos 1980: “Ele é muito inteligente” (./Reprodução)

O “mister”, como o chamam no Brasil, reproduzindo a forma com que os técnicos são tratados na Europa, sabe que precisa mergulhar na cultura do país onde trabalha para sobreviver. Fez assim na Inglaterra e na Espanha. Tão logo desembarcou no Rio de Janeiro, há pouco mais de um ano, tratou de descobrir onde poderia comer uma boa carne, e virou freguês do restaurante Mocellin, na Barra da Tijuca. Nada que o impeça de cozinhar em casa — é mister no assunto — e tomar safras aplaudidas de vinho Lambrusco, acompanhado de culatello, prosciutto crudo e parmigiano. Neste ano esteve no Carnaval, ensaiou passos de samba e até virou falso meme ao lado de duas ou três sambistas. Sugeriram que fizesse aulas de português, e aceitou na hora.

SAMBA NO PÉ - No Carnaval carioca deste ano, feliz da vida: apreço especial por viver a cultura dos países em que trabalha
SAMBA NO PÉ – No Carnaval carioca deste ano, feliz da vida: apreço especial por viver a cultura dos países em que trabalha (./Reprodução)
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Chegou a reservar quatro dias por semana para conversar on-line com o professor Roberto Piantino, que preparou um curso intensivo com expressões de futebol, sim, mas também do cotidiano. Bom e metódico aluno (orgulha-se de ter o armário sempre muito bem organizado, separando camisas e ternos por cores), quis logo saber como dizer em português coltello, forchetta e cucchiao — faca, garfo e colher. Não demorou para pedir que Piantino traduzisse para o português uma frase — irônica, é natural — que Ancelotti saberia precisar usar um dia, porque tudo é sempre pensado e planejado. Queria a carta guardada na manga. Vai que… E então, instado pelos jornalistas a dizer se chamaria Neymar caso soubesse da contusão dele, em maio, lembrou das aulas e disparou: “Se minha avó tivesse rodas, seria um carro”. Riu, ergueu a indefectível sobrancelha esquerda, marca registrada, e pediu as próximas perguntas. “Ancelotti é muito inteligente, parece sisudo, mas tem um extraordinário humor”, diz Falcão. Dará para despachar a Noruega de Haaland e os companheiros remadores? Como saber, se as avós não têm rodas?

Hora de remar contra Haaland e cia.

O COMETA - O atacante, cinco gols até agora na Copa: estilo rompedor
O COMETA - O atacante, cinco gols até agora na Copa: estilo rompedor (Ulrik Pedersen/NurPhoto/Getty Images)

Toda freguesia no futebol um dia acaba, mas é bom lembrar disso, por inconveniente que seja: o Brasil nunca venceu a Noruega. Foram quatro jogos, com duas vitórias norueguesas e dois empates. Na terceira partida da fase de grupos da Copa da França, em 1998, com as duas equipes já classificadas, os europeus venceram o escrete de Ronaldo e Rivaldo de virada, por 2 a 1. No domingo, no Estádio Nova York/Nova Jersey, pelas oitavas de final, a história pode ser reescrita.

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A Noruega, que despachou a Costa do Marfim na fase de 16 avos, é um time bem organizado, de jogadores grandalhões, não exatamente habilidosos. Tem uma estrela, Martin Odegaard, do Arsenal, que aos 17 anos foi treinado por Ancelotti no Real Madrid, que não chegou a aproveitá-lo. E tem uma superestrela, um cometa, um dos personagens mais interessantes do mundo da bola hoje, adorado pelas crianças: o artilheiro Erling Haaland, do Manchester City (cinco gols nesta Copa), rompedor, um tanque de 1,95 metro. “Vai ser difícil enfrentar o Brasil, as possibilidades serão pequenas”, disse, com um misto de realismo e falsa modéstia destinada a pôr o peso nos ombros do favorito.

Os noruegueses são um capítulo simpático do verão americano de 2026. Por onde passam promovem o “ro”, aquela remada impetuosa ao ritmo de tambor e vigor nórdico. Fazem a brincadeira nas ruas, em plena Times Square de Manhattan, nas escadas rolantes de shoppings e até nos estádios — acompanhados, entre risos, pela turma da pesada de Haaland. Um alerta cultural, a bem da precisão: Haaland se pronuncia “hô-lan”, com o “h” aspirado, som de “ô” fechado e o “d” mudo no final. É preciso ter atenção com os vikings.

Publicado em VEJA de 3 de julho de 2026, edição nº 3002

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