A seleção de Marrocos é como o Brasil de 1962
Tal qual a canarinho depois do título de 1958, os Leões do Atlas já não representam surpresa - mas são perigosos e querem repetir a dose do Catar
Foi épico, em 2022. Bélgica, Espanha e Portugal ficaram para trás, derrotados pelo Marrocos. Por obra do sorteio e do destino, os Leões do Atlas, como são conhecidos, enfileiraram meia Europa em sua inesquecível aventura pela Catar.
Foi como se aqueles dias de inverno de quatro anos atrás iluminassem o fascínio pelo país do Norte da África, separado do Velho Continente pelo Estreito de Gibraltar. Mas há um outro modo de enxergar as sucessivas vitórias, até o combate, chamemos assim, contra a França de Mbappé e Griezmann, que enfim chegaria à final contra a Argentina: as partidas de futebol ecoavam pelas ruas de Doha, entre torcedores com as bandeiras vermelhas e uma estrela verde ao centro, uma palpável sensação de resposta do colonizado contra o colonizador.
Uma metáfora possível, e um tanto óbvia, seria imaginar o Davi contra uma porção de Golias. O treinador Walid Regragui foi numa trilha mais pop. “Somos o Rocky Balboa deste Mundial”, disse, em alusão ao personagem perdidão de Sylvester Stallone que transforma esperança em socos, símbolo de perseverança, como se nota, de do Ocidente ao Oriente.
Talvez tenha sido mais do que isso, traduzido por celebrações infindáveis em pelo menos quatro cantos para lá e para cá de Gibraltar: na Espanha, em Portugal, na França, no Catar e, evidentemente, no Marrocos. Foram festas com mensagens diferentes, atalho para compreender o significado do feito marroquino.
As distinções das algazarras de um país para o outro ajudaram a enriquecer o olhar geopolítico para a surpresa liderada pelo lateral Achraf Hakimi, do PSG, e o volante Sofyam Amrabat, hoje no Betis, da Espanha. Com um detalhe fundamental: Hakimi nasceu em Madri e chegou a ser namorado pela seleção espanhola. Amrabat nasceu na Holanda e por pouco não jogou pelo time laranja. Ambos relataram ter feito a escolha “com o coração” – ambos enfrentam o Brasil hoje, 13 de junho, a partir das 18 horas em Nova Jersey, 19 horas no Brasil.
Mas o que, enfim, aqueles gritos populares, geograficamente espalhados, revelavam? Nas capitais europeias, imigrantes e filhos de imigrantes marroquinos foram às ruas celebrar como se estivessem a caminho de uma semifinal de Copa do Mundo – opa, e era isso mesmo. Não por acaso, na confirmação da estupidez xenófoba, um dos líderes da extrema-direita francesa, Éric Zemmour foi à televisão para cuspir uma barbaridade: “Como reagiriam os marroquinos se milhares de franceses celebrassem uma vitória nas ruas de Marrakech?”
O Marrocos já não é uma surpresa, e, portanto, diminuíram também as reações políticas. Não seria exagerado dizer que os marroquinos de agora são como os brasileiros de 1962, que em 1958 tinham espantado o mundo do futebol. Os marroquinos não foram campeões no Catar, mas e daí? Viraram heróis ao retornarem para casa e uma força futebolística poderosa. Como o Brasil de 1958, reafirme-se. Quatro anos depois, não se pode dizer que chegam na sombra, desconhecidos. Não mais. Tal cal a seleção que levaria o bicampeonato no Chile.
O Marrocos pode voltar a voar alto, embora seja improvável. Mas é, sem dúvida alguma, uma pedra no caminho da turma de Ancelotti. Com modéstia, eles seguem na toada discreta que tiveram na Copa anterior, embora já não possam ser vistos com ingenuidade. Ontem, na coletiva de imprensa que antecipa o duelo, Sofyam Amrabat foi genuíno: “O que eu espero? O Brasil, eu acho, desde que nasci, sempre foi a seleção com grandes estrelas, jogadores incríveis. Eles têm uma seleção fantástica, então, temos muito respeito por eles. Mas estaremos prontos, vamos dar tudo de nós. E sim, vamos tentar, é claro, vencê-los, porque temos que ter muita confiança em nós mesmos e na nossa qualidade.”
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