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Carta ao Leitor: A pátria sem chuteiras

O entusiasmo no Brasil com o início da Copa vem se esvanecendo, na esteira da descrença na possibilidade de uma nova vitória canarinho

Por Redação VEJA Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 24 abr 2026, 06h00 | Atualizado em 24 abr 2026, 10h14

Na época em que o futebol nacional encantou o mundo conquistando o tricampeonato, Nelson Rodrigues cunhou a expressão “pátria de chuteiras” para definir o estado de união do país em torno da seleção em tempos de Copa. Para o escritor, o escrete representava mais que um time. Na época de um Mundial, defendia ele, a nação encarnava nos jogadores e não havia nada mais importante aqui e no mundo do que a bola correndo no gramado. Esse espírito cívico esportivo ganhava ares de festa mesmo antes de a bola rolar, na forma de bandeiras e decorações em verde e amarelo enfeitando as ruas nos mais variados cantos do território.

Nos últimos anos, no entanto, o entusiasmo por aqui com o início do evento vem se esvanecendo, na esteira da descrença na possibilidade de uma nova vitória canarinho. Os sentimentos de indiferença e descrédito chegaram ao ponto máximo agora, a pouco mais de um mês da estreia do torneio nos Estados Unidos, México e Canadá. Segundo pesquisa recente do Datafolha, há um recorde de desinteresse pela Copa, com 54% dos brasileiros sem vontade de acompanhar os jogos. Pudera: de acordo com o mesmo levantamento, apenas um terço dos entrevistados aposta no título. Pode-se explicar a má fase canarinho por questões geracionais, comparando a safra atual de craques com os vitoriosos elencos que a antecederam. Há bons nomes no time de hoje, mas nenhum do nível de estrelas como Romário e os dois Ronaldos, o Fenômeno e o Gaúcho. A globalização do futebol também diminuiu a distância entre a escola brasileira e as demais, tornando as partidas bem mais equilibradas. Não dá para desprezar também a capacidade de estragos que a bagunça na gestão do futebol nacional é capaz de produzir. Somente no ciclo para a Copa de 2026, o escrete foi comandado por quatro técnicos diferentes. Caberá ao italiano Carlo Ancelotti, o primeiro estrangeiro a dirigir a seleção em um Mundial, a dura tarefa de levar um time desacreditado à conquista do hexacampeonato.

O longo processo que culminou na perda do brilho da seleção ganha uma análise detalhada em reportagem da edição. Ela é assinada pelo redator-chefe Fábio Altman, pelo editor-executivo Amauri Segalla e pela repórter Natalia Tiemi Hanada. Altman é veterano em cobertura de Copas, com presença em sete delas: 1990, 1994, 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022. Em sua estreia jornalística nesse campo, ocorrida na Itália, Altman trabalhou com o fotógrafo Orlando Brito (1950-2022). A dupla havia preparado um perfil especial do atacante Careca, destaque na equipe brasileira da época, mas a reportagem acabou não sendo publicada em razão da eliminação precoce do time nas oitavas de final. Altman chefiará a cobertura de VEJA neste ano, que publicará conteúdos na edição impressa, no site e na TV VEJA+. Ele é cauteloso quanto às chances de conquista do hexa, mas sabe também da força do Sobrenatural de Almeida, outra figura de linguagem criada por Nelson Rodrigues. Aquela lufada de sorte capaz de mudar destinos de forma inexplicável pode soprar a favor do Brasil, fazendo a seleção dar a volta por cima.

Publicado em VEJA de 24 de abril de 2026, edição nº 2992

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