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APURAÇÃO DAS ELEIÇÕES 2026

Como a Copa do Mundo está matando um aspecto da ciência do esporte

Como Lionel Messi, aos 39 anos, decreta o fim de um inútil blá-blá-blá no futebol

Por Fábio Altman Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 1 jul 2026, 15h47 | Atualizado em 2 jul 2026, 13h32
Como a Copa do Mundo está matando um aspecto da ciência do esporte Priorize VEJA no Google

Pelé impressionava quem dele se aproximava por um aspecto, digamos assim, menor: o rei tinha apenas 1m73 de altura, e até hoje nos perguntamos como ele pôde vencer na cabeça o zagueiro italiano Tarcisio Burgnich para abrir o placar da final de 1970.  Depois do 4 a 1, depois daquele gol, Burgnich exclamaria, espantado: “Antes do jogo eu dizia que ele é feito de carne e osso, como todos nós. Estava errado”. O camisa 10 parecia voar, crescia, e então virava o totem que todo mundo imaginava ser, apesar da estatura mediana. Maradona, que com a ajuda da mão de Deus foi um pouquinho mais ao céu, tinha 1m65. Messi, a “pulga” de Rosário, conta 1m70. Romário, o “baixinho”, tem 1m69.

Mas por que, afinal, esse rol de centímetros aborrecidos? Para dizer que o futebol é o túmulo da estatística. Nada contra a ciência do esporte, nada contra o controle no detalhe do que acontece durante os 90 minutos, porque é levantamento que ajuda treinadores e auxiliares. Mas ninguém, ninguém mesmo, morreria na praia se a métrica fosse eliminada do tal esporte bretão. Bem-vindo à modalidade esportiva que autoriza corpos menos avantajados.

A estatística, no futebol, nem sempre conta a verdade. Um levantamento feito pelo site OptaJoe, da Stats Perform, neste site iluminado pelo repórter Ígor Resende, mostra que o gênio canhoto argentino, entre 618 jogadores analisados, foi o que menos se movimentou no gramado, com 8,1 quilômetros percorridos – e, no entanto, Messi, aos 39 anos,  já fez seis gols em três jogos, deixando todo mundo de boca aberta. O site oficial da Fifa caminha no mesmo tom de informação. Messi aparece na posição de número 497, com 17 quilômetros percorridos, a uma média de velocidade de 4,97 quilômetros por hora, sempre que se deslocou. O líder do ranking é o paraguaio Andrés Cubas, com 49 quilômetros atravessados a uma média de 6,67 quilômetros por hora. A diferença, a favor do paraguaio, é abissal, e fica a pergunta que não quer calar: no par ou ímpar da escola, você ficaria com Cubas ou Messi?

Pelé no jogo contra a Itália, a grande final da Copa do Mundo de 1970
O voo de Pelé para cima do zagueiro italiano Burgnich, em 1970: 1m73 de altura, como um pássaro a voar (Sebastião Marinho/VEJA)
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Cabe então uma coroa de flores para a estatística no futebol. É interessante, dá o que falar e tudo o mais, mas tem pouco serviço real. O treinador Carlo Ancelotti assinaria essa constatação. Em um livro autobiográfico recém lançado, Liderança Tranquila, ele anota assim: “No Real Madrid, usávamos estatísticas principalmente para os aspectos físicos dos jogadores. Para mim, seu uso mais importante é controlar os elementos físicos do treino – cansaço, fadiga – para que uma possível lesão de um jogador possa ser evitada. É isso que os dados do GPS fazem. Sei que os clubes também usam os números para fins de recrutamento, mas não me envolvo tanto nisso e não uso tanto para o trabalho em campo. Para ser sincero, mesmo que recebamos análises e dados mostrando que o time está deficiente em algum aspecto, ainda não as usamos tão bem quanto poderíamos. Isso é culpa minha tanto quanto de qualquer outro, porque não estou convencido de que os números referentes a dados técnicos – isto é, o que o jogador faz com a bola; chutes, cruzamentos, cabeceios, passes – tenham tanto valor quanto se afirma”. Deixemos a estatística com o vôlei, o basquete e o futebol americano.

Sport. Football. 1986 Football World Cup, Mexico. Quarter Final, Argentina 2 v England 1. 22nd June, 1986. Argentina's Diego Maradona scores 1st goal with his Hand of God, past England goalkeeper Peter Shilton.
Diego Maradona marcando gol com a “Mão de Deus”: um pouquinho mais para cima (SipaSport/.)
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