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E se Pelé pudesse ressuscitar?

Saiba qual é o grande erro da adesiva série Brasil 70 – A Saga do Tri, da Netflix

Por Fábio Altman, da Basking Ridge (Nova Jersey) 11 jun 2026, 09h00 | Atualizado em 11 jun 2026, 15h48
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A Copa do Mundo de 2026 será a primeira desde que, em um certo 23 de outubro de 1943 nasceu Edson Arantes do Nascimento. Será a primeira sem Pelé, e essa triste condição nos leva a pensar no tamanho monumental do maior jogador de futebol da história. O fato de a abertura acontecer no Estádio Azteca, na Cidade do México, palco da vitória canarinho contra a Itália por 4 x 1, para muitos a maior exibição de bola de todos os tempos, é atalho para tratar da série Brasil 70 – A Saga do Tri, exibido pela Netflix decidi rever no voo a caminho dos Estados Unidos. É trabalho muito bom, rara e bem sucedida tentativa de levar ficção para o mais popular dos esportes. Tem um quê de adorável e comovente nostalgia, especialmente para os brasileiros com mais de 60 anos. Faz chorar, apesar de diálogos muitas vezes inverossímeis e um certo tom de artificialidade. Mas é difícil começar a maratonar Brasil 70 e largar no meio.

NOSTALGIA VERDE-AMARELA - Lucas Agrícola como Pelé: atores da produção também são atletas
O Pelé da série Brasil 70 – A Saga do Tri, interpretado por Lucas Agrícola: fragilizado (Alexandre Schneider/Netflix)

As qualidades são imensas, em ideia muito bem pensada por Naná Xavier e Rafael Dornelas, dirigida por Paulo Morelli, Pedro Morelli e Quico Meirelles. Há, contudo, um aspecto que merece ser iluminado, sobretudo hoje, na porta do início da Copa na arena – é assim que a chamamos, hoje, não é? – que serviu de palco para a última dança do rei. O Pelé da série (o ator Lucas Agrícola, idêntico fisicamente) desponta com personalidade insegura, um tanto perdido, um tanto sem voz. Pelé nunca foi assim – ainda que do ponto de vista dramático haja alguma coerência em torná-lo fraco para enfim chegar à glória –, e soa esquisito tanta fragilidade. Tostão, em sua coluna na Folha de S. Paulo, iluminou o desconforto – e, por óbvios motivos, tem lugar de fala para escrever o que escreveu: De Tostão: “A pressão feita por Pelé e outros jogadores para Zagallo me escalar não foi explicita como mostra a série. Se houve pressão, foi silenciosa, pelo olhar, nas entrelinhas e nas conversas ao pé do ouvido. Gerson, que jogava no Botafogo sob o comando de Zagallo, conversava muito com o técnico. Eu não fui até Zagallo para dizer que eu tinha de ser o titular, como mostra a série. Diferentemente do que é mostrado, Pelé era um atleta consciente, equilibrado, bem-humorado e muito forte emocionalmente. Por isso e pelas condições físicas e técnicas era o Pelé, o maior da história.” Não se trata, clara, de exigir que a ficção – ainda que baseada em fatos reais – seja fidedigna a tudo e a todos. Não. Nem tudo deve ser levado ao pé da letra – mas Pelé, o Pelé brasileiro, o Pelé da Cidade do México, o Pelé do mundo, não poder ser mostrado como um super-homem atingido por kriptonita. Vale a pena ver Brasil 70 – A Saga do Tri, pelo que tem de excelente, mas também pelas tintas equivocadas impressas ao eterno camisa 10. E quem há de esquecê-lo quando a bola rolar entre México e África do Sul, a partir das 16 horas, de Brasília.

Há um antídoto, para quem estiver no México: visitar o quarto (intacto) onde Pelé ficou hospedado na véspera da finalíssima de 1970, agora dentro da sede da Conferência Interamericana Social, no sul da metrópole, que antes foi um hotel. É homenagem comovente – comoção que existe também em Brasil 70 – A Saga do Tri, mas que errou a mão ao desenhar o mito alquebrado como nunca foi.

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