Entrevista Paco Pigalle: do Marrocos ao Brasil
Francês nascido no Marrocos mora em BH há quase quatro décadas e revelou torcida na Copa
“Será um dos jogos mais emocionantes, especialmente para mim”. A declaração é do empresário e produtor cultural Paco Pigalle, de 62 anos. Cidadão francês, nascido no Marrocos e que mora há quase 40 anos no Brasil. Radicado em Belo Horizonte, é proprietário do bar que leva seu nome, um dos mais icônicos da cidade e que tem como lema “A noite dos quatro cantos do planeta”.
No clima do duelo entre Brasil e Marrocos, na estreia de ambas na Copa do Mundo de 2026, neste sábado, 13, Paco conversou com a VEJA sobre futebol, cultura e a expectativa para o torneio.
O produtor disse que aprendeu a gostar de futebol no Brasil e que seu time veio de “filho para pai”. Também conta como fica o coração durante a Copa, qual o palpite para a estreia e como foi a viagem para assistir um Mundial de Clubes no Marrocos. Veja a entrevista completa abaixo.
De onde vem a sua relação com Marrocos?
Sou francês, filho de imigrante marroquino. Meu pai era do Marrocos, emigrou para a França e conheceu a minha mãe, que era de origem espanhola. Quando engravidaram, meu pai fez questão que eu nascesse no mesmo lugar que ele, então nasci no Marrocos.
Você sempre acompanhou futebol?
Não, na França não acompanhava futebol. Nos anos 1980, na Europa, futebol era coisa de “titio” e só depois, nos anos 1990, que voltou a ser uma coisa de jovem.
E aí quando cheguei no Brasil me apaixonei por tudo: o clima, a convivência, o povo, a comida, a música. Adotei todas as paixões brasileiras, menos o futebol.
E isso mudou com o tempo?
Aprendi a gostar de futebol para me adaptar à cultura, pois sou pai de um brasileiro. Nos anos 1990, meu filho Fred, como toda criança, foi levado ao estádio e ensinado a paixão. Tentei cumprir meu papel de pai e levava meu filho e os coleguinhas dele para o campo. Lá, vi que a paixão é contagiante e também entrava na febre, torcia, gritava, xingava o árbitro, mas era só no estádio.
Você tem um time no Brasil?
Sim, gosto do Galo. Mas, em vez de eu passar minha torcida para meu filho, foi meu filho que me passou. Ele torce para o Galo e eu, para estar com ele, comecei a torcer também. Tenho uma relação, digamos que gosto do Atlético, mas se me perguntar o nome de quatro jogadores, não saberei dizer.
Você foi ao Mundial de Clubes no Marrocos?
Fui. A vida fez com que eu me tornasse amigo do Reinaldo Lima, o “Rei”, que frequentava o meu bar. Em 2013, quando o Atlético foi disputar o Mundial em Marrakech, eu estava junto no famoso jogo em que perdeu lá. Ele sugeriu que eu acompanhasse a galera para ser tradutor e produtor. Foi uma bela experiência.
Existem semelhanças culturais entre Marrocos e Brasil?
Sim, há muitas diferenças e muitas semelhanças. O Brasil é um país profundamente cristão católico e Marrocos é muçulmano, o que gera muitas diferenças no jeito de vida. Mas, a nível cultural, os dois são povos muito acolhedores, calorosos e festivos.
Vejo muita semelhança na importância do acolhimento, na maneira de receber o estrangeiro e de abrir as portas de casa, muito mais do que entre França e Marrocos, ou França e Brasil. O povo aqui é mais acolhedor, festivo, barulhento, colorido e empolgado.
Como fica sua torcida em época de Copa?
Fica muito legal, porque não sou fanático a ponto de ficar doente emocionalmente. Geralmente, até agora, torço essencialmente para Marrocos, porque era o time mais fraquinho, com menos recursos e história no futebol, um pouco como Davi contra Golias.
Agora Marrocos não é mais um time tão pequeno, mas continuo torcendo, querendo ou não, é a terra que me viu nascer. Em segundo lugar, torço para o Brasil, porque o fator alegria aqui é muito mais importante. Essa Copa é muito mais importante para o povo brasileiro do que para o povo francês.
Imagino que menos de 50% da população francesa vai acompanhar a Copa e, se a França ganhar, menos de 20% vão comemorar. No Brasil, os fatores são outros. Se o Brasil ganhar, é muito mais importante para o povo brasileiro, será uma semana de festa. Moro aqui e poderei curtir essa alegria.
Então, torço primeiro para Marrocos, segundo para o Brasil, terceiro para a França, porque sou da França. A Espanha também tem seu lugar no meu coração, amo a Espanha, a família da minha mãe é de origem espanhola e passei uma parte da minha infância lá. A Espanha também está entre os meus “três mosqueteiros”, que na realidade eram quatro.
Qual o seu palpite para o jogo deste sábado entre Brasil e Marrocos?
Para mim, será um jogo extremamente emocionante, porque estamos no Brasil, é o primeiro jogo e estarei rodeado de brasileiros apaixonados. Vou torcer por Marrocos, obviamente, a terra que me viu nascer. Tenho pouca torcida aqui, então essa torcida tem que ser barulhenta. Vou tentar ser o mais barulhento que puder.
O resultado, realmente não sei, não entendo nada de futebol. Mas, analisando o fato de que nem o próprio torcedor brasileiro está pondo muita fé nessa seleção, e Marrocos acaba de disputar uma Copa da África, onde obteve bons resultados, chegando à final e, entre aspas, ganhando essa copa, não sei. Mas o Brasil continua sendo Brasil no futebol. É complexo. Sei que será um dos jogos mais emocionantes, especialmente para mim porque moro no Brasil e nasci em Marrocos.
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