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‘Excedemos todas as expectativas’, diz Tiago Splitter sobre campanha do Blazers

Em entrevista, treinador brasileiro detalha a ida do Portland Trail Blazers aos playoffs, o pioneirismo na NBA e sua visão do basquete nacional

Por Flávio Monteiro 26 Maio 2026, 10h58 | Atualizado em 26 Maio 2026, 11h15
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Primeiro técnico brasileiro na história da NBA, Tiago Splitter fala sobre a ida inesperada dos Blazers aos playoffs, as chances de efetivação em Portland, o pioneirismo na liga e o que falta para o Brasil ser mais competitivo no basquete.

Como foi levar os Blazers aos playoffs após quatro temporadas fora da pós-temporada? Acho que é difícil falar do resultado final. Temos que pensar como foi essa jornada a temporada inteira. No começo da temporada, teve todo esse barulho com a saída do head coach, que era o Chauncey Billups, e eu acabei assumindo o time. Para mim foi um grande desafio, e foi muito bom poder liderar esse time a temporada inteira. Acho que aprendi muito como técnico, como líder. A gente tratou jogo a jogo de uma forma muito profissional e, no final, conseguimos um resultado que acho que ninguém esperava, que era classificar para os playoffs. O objetivo do time era, sim, fazer uma campanha melhor do que a da temporada anterior. E acabamos excedendo todas as expectativas. Então estou muito orgulhoso de poder fazer esse trabalho e liderar esse time para os playoffs.

Ser latino dificultou de alguma forma a sua relação com o elenco? Não, nunca senti isso. É claro que existe uma diferença de idioma, pelo inglês não ser a minha primeira língua, minha língua-mãe. Mas em nenhum momento isso foi um impedimento, até porque muitos dos jogadores que estão no nosso time são internacionais. Atletas como Deni Avdija, Toumani Camara, entre outros, não são americanos. A NBA é cada vez mais uma liga globalizada e não existe nenhum tipo de preconceito por eu ser brasileiro ou latino.

Foi difícil lidar com os jogadores e o ambiente em meio à instabilidade causada pela prisão do ex-técnico Chauncey Billups? Acho que é uma situação que ninguém quer ter, né? Ter que lidar com isso. Mas às vezes a vida é assim, o esporte é assim. Você tem que lidar com coisas inesperadas. No começo, a solução era tentar manter nosso foco dentro da quadra, manter o foco no basquete, nas coisas que a gente podia controlar. Esse foi o meu objetivo no começo da temporada. É claro que, depois de um certo tempo, as coisas se acalmaram um pouco em relação ao extra quadra e a gente pôde focar só no basquete, manter nossa atenção em como melhorar o time, lidar com as lesões, etc. E, um tempo depois, tudo acabou se normalizando um pouco mais.

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Como se sente sendo o primeiro brasileiro campeão da NBA, o primeiro técnico brasileiro na liga e o primeiro técnico latino a levar uma equipe aos playoffs? Fico feliz de poder ser o pioneiro em muitas coisas, mas espero que seja o primeiro de muitos. Eu acho que a gente tem um grande talento aqui na América Latina, no Brasil, que às vezes é visto um pouco de lado. Mas existem grandes mentes do basquete no Brasil, grandes jogadores que às vezes precisam de um empurrãozinho. Às vezes precisam de uma liga mais forte, mais estruturada, mais competitiva para poder florescer. Não é à toa que os brasileiros que vão para a Europa, para a NBA, em ligas mais competitivas, continuam crescendo. É por causa da competição, da pressão que elas geram sobre os atletas. Isso faz com que tanto os jogadores quanto os técnicos acabem melhorando. É tudo uma questão de competitividade.

O que sentiu ao voltar a San Antonio, onde fez parte de um time histórico dos Spurs, na posição de rival? Foi um pouco estranho, não vou mentir. Existe muito carinho das pessoas comigo nas ruas, no próprio jogo. Quando meu nome foi anunciado na arena, todo mundo bateu palmas. Então, realmente, eu tenho um carinho especial por San Antonio, e eles têm um carinho especial comigo. Mas, no fim das contas, eu estou lá para ganhar deles, estou lá para competir. A gente acabou perdendo a série, 4×1, mas faz parte. Eles são um dos favoritos a ganhar o título, e nós somos um time ainda aspirante, que chegou aos playoffs, mas que está em um momento diferente. Mas isso não tira o mérito que é estarmos lá jogando nos playoffs contra eles.

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Você ainda está como interino no comando do Blazers. Há perspectivas de efetivação? Tem sim, estamos em conversas nesse momento. O Blazers deixou claro para mim que vão olhar o mercado, ver quem está disponível e que sou um dos finalistas entre as opções para assumir o time.

Acredita que já teria sido efetivado caso fosse americano? Não, acho que não tem nada a ver. Jamais vou utilizar isso como uma desculpa. Não tem nada a ver com ser ou não americano. O que é verdade é que existe um novo dono, uma pessoa que acabou de comprar o time e quer tomar a melhor decisão. E ele está certo. Eu faria a mesma coisa se tivesse comprado um time.

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Caso você não fique no cargo, quais serão seus próximos passos? Vou ter que ver qual vai ser a decisão do time, até porque tenho um contrato como assistente para o ano que vem. Tem que ver qual será a definição aqui e, a partir daí, ver se existem outras opções.

Você voltaria para a posição de assistente com tranquilidade? Acho que não tem nenhum problema. Não é meu primeiro objetivo. Obviamente, meu objetivo é ser o head coach. Mas acho que tudo tem que ser conversado e pautado. Isso é questão de conversar.

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Se enxerga treinando a Seleção Brasileira no futuro? Sim. Acho que em algum momento vai acontecer, não sei quando. Já existem conversas com a CBB (Confederação Brasileira de Basquete), mas o meu calendário hoje em dia é bem complicado, até pelo calendário FIBA que tem durante o ano. É um calendário complicado para quem está na NBA, e isso acaba tirando a possibilidade de estar constantemente nessas janelas e no Brasil treinando jogadores.

Como você vê a atual seleção? Levaria algum dos jogadores para trabalhar com você em Portland? Eu acho que a gente tem ótimos jogadores no Brasil, melhores do que pensa a opinião geral. Continuamos brigando contra os maiores times da elite mundial do basquete, jogamos a última Olimpíada, e eu acho que isso é pouco valorizado. Temos grandes jogadores. Yago (Matheus) e (Bruno) Caboclo jogando na EuroLiga, Gui (Santos) na NBA. Acredito que esses três são os pilares da Seleção Brasileira no momento, e sempre vêm novos garotos aí pela frente. Temos o Mathias (Alessanco) que está surgindo agora, e uma geração boa de 17, 18 anos que está vindo também. O Brasil sempre teve jogadores de qualidade. Claro, a gente sempre quer mais. E é por isso que falei do esporte e do basquete nas escolas. A gente sempre quer mais porque sabe do tamanho do nosso país, do material humano que existe no Brasil. Só que a gente acaba perdendo muito talento porque não é incentivado desde cedo. Quando a gente vê esses talentos, já é muito tarde.

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E como conseguir isso? Se não houver algo mais estruturado dentro das escolas, das aulas de educação física, é muito difícil, porque você acaba perdendo (esses jogadores). A qualidade vem da quantidade de atletas que você tem, e não o contrário. Eu acho que o grande futuro, não só do basquete, mas do esporte em geral, é a educação. Temos que usar o esporte como educação desde cedo. O esporte te dá educação em várias formas: disciplina, superação, motivação diária. Ele te dá isso na vida, não só para nós termos grandes seleções de basquete, futebol e handebol, mas para termos uma sociedade melhor. Eu acho que o basquete é uma forma de você melhorar a sociedade. E começa na escola desde cedo.

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