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Gol em Dino Zoff, doping, surra e adeus precoce: a única Copa do Haiti

Antes de voltar ao Mundial, o Haiti protagonizou uma campanha marcada por heroísmo em campo e terror fora dele

Por Amauri Segalla Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 18 jun 2026, 17h23
Gol em Dino Zoff, doping, surra e adeus precoce: a única Copa do Haiti Priorizar nos meus resultados Google

A seleção do Haiti disputa apenas a sua segunda Copa do Mundo. A primeira foi em 1974, na então Alemanha Ocidental, e a história parece ter sido escrita por um roteirista com gosto por tragédias.

Na estreia, o Haiti chocou o mundo. Emmanuel Sanon escapou da defesa italiana e fez 1 a 0, encerrando uma sequência de 1.143 minutos sem que o lendário goleiro Dino Zoff sofresse gols. Foi o maior momento da história do futebol haitiano, mas durou pouco. A Itália reagiu, virou o jogo para 3 a 1 e seguiu seu caminho no Mundial.

Depois da partida, o zagueiro Ernst Jean-Joseph foi sorteado para o antidoping. O exame apontou o uso de um estimulante. Ele alegou que tomava remédios para asma, mas o médico da própria seleção tratou de demolir a versão.

A partir daí, a Copa virou um filme de terror. Agentes ligados ao regime do ditador haitiano Jean-Claude Duvalier, o temido Baby Doc, arrancaram Jean-Joseph aos gritos da concentração, espancaram o jogador e o colocaram à força em um carro. No dia seguinte, ele foi despachado de volta ao Haiti.

Os companheiros entraram em pânico. O zagueiro Fritz Plantin lembraria anos depois: “Passamos a noite sem dormir antes do jogo contra a Polônia. Eu só pensava no Ernst.” Em campo, não deu outra: o Haiti levou 7 a 0 dos poloneses.

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O medo era tão grande que, antes da última rodada, Baby Doc mandou Jean-Joseph telefonar para a delegação apenas para provar que continuava vivo. O Haiti perdeu por 4 a 1 para a Argentina e se despediu da Copa.

O episódio virou uma das histórias mais absurdas já registradas em uma Copa do Mundo. Enquanto outras seleções discutiam esquemas táticos, preparação física e premiações, os jogadores haitianos entravam em campo preocupados com algo muito mais básico: voltar vivos para casa. O adversário já não era apenas a Polônia ou a Argentina. Era o próprio regime que representavam.

Nem tudo, porém, foi tragédia. Apesar das três derrotas, o Haiti deixou sua marca naquele Mundial. Emmanuel Sanon marcou contra Itália e Argentina e permaneceu, por mais de meio século, como o único haitiano a balançar as redes em uma Copa do Mundo. Em um torneio que terminou em desastre para a seleção, foi ele quem garantiu ao país um lugar permanente na memória do futebol.

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Para se ter uma ideia do tamanho da espera, quando o Haiti disputou sua primeira Copa, Richard Nixon era o presidente dos Estados Unidos, o Muro de Berlim ainda estava de pé e Pelé havia se aposentado da seleção brasileira. Gerações inteiras de haitianos cresceram sem ver a seleção voltar ao principal palco do futebol.

Cinquenta e dois anos depois, os haitianos estão de volta ao Mundial. Desta vez, ao menos, sem um ditador pressionando a seleção.

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Estádio de futebol lotado com bandeira do Brasil e bola no campo, e um jogador de camisa amarela comemorando. À direita, capas de revistas Veja, Super, Viagem e Quatro Rodas flutuando sobre fundo verde escuroTorcedor de costas, vestindo camisa amarela, comemora com os braços erguidos em um estádio de futebol lotado, sob um céu verde-azulado. Uma bola de futebol com a bandeira do Brasil está no campo. À direita, um fundo verde escuro com um pequeno ícone de árvore branca no canto inferior direito
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