O fantasma que assombra os ingleses na Cidade do México
A partida das oitavas de final contra os donos da casa seria difícil - mas há um aspecto nostálgico que torna tudo ainda mais dramático
Na Cidade do México a expectativa pesa como chumbo no ar para a partida de oitavas de final, no domingo, entre os donos da casa e a Inglaterra – e do duelo pode despontar o adversário da seleção brasileira nas quartas de final, caso a canarinho vença a Noruega. Com o fuso horário, o jogo terá início à uma da madrugada no horário londrino, já na segunda-feira de trabalho normal. O demissionário primeiro-ministro Keir Starmer, que briga na política e se enrosca na economia, como não é bobo nem nada, tratou de assinar um decreto autorizando os pubs a funcionarem na madrugada.
A ansiedade tem motivo. Não é um encontro qualquer contra o México. Haverá três ou quatro rivais em campo: o sólido escrete tricolor, com apoio de uma torcida mercurial; a altitude de 2 240 metros de altura da capital e os fantasmas do Azteca. Eis o que mais assombra a turma da pesada de Harry Kane. Os inventores do futebol retornam ao Azteca depois de 40 anos, quatro décadas da derrota para a Argentina de Diego Armando Maradona pelas quartas de final do torneio. Foi a tarde em que Maradona fez o gol com “la mano de Diós”. Sabendo da travessura, das críticas que receberia, ele tratou de marcar um segundo na vitória por 2 a 1, o mais bonito da história de todas as Copas, um gol de Deus.
É tema inescapável. Logo depois de despachar o Congo, com dois gols de Kane, os ingleses responderam a uma ou duas perguntas do que passara nos 90 minutos – e então foram transportados ao passado. Declan Rice, o volante de 27 anos do Arsenal – nascido, portanto, em 1999 – foi levado a entrar no túnel do tempo, como quem revisita a rainha Vitória. “Sim, sempre ouvi falar daquela partida, do estádio Azteca, do ambiente que vamos encontrar”, disse. “Será espetacular”. Anthony Gordon, de 25 anos, que acaba de trocar o Newcastle pelo Barcelona, também teve de olhar para trás. “Imagino uma atmosfera que nunca vivi em toda a minha vida”, afirmou.
Há momentos mágicos da bola, e aquela tarde de 22 de junho de 1986 está entre elas. Ingleses e argentinos, fora de campo lidavam com as memórias de 1982, da Guerra das Malvinas, de acordo com a denominação da ditadura de Leopoldo Galtieri, ou Guerra das Falklands, ao modo de Margareth Thatcher. No gramado, o clima era bélico, embora esportivo. Ao menos até o apito final. Depois, havia uma fila de jogadores da Inglaterra implorando pela camisa 10 de Maradona. Sabiam todos o que havia ocorrido, e fora magistral.
Quem conseguiu o troféu foi o meio-campista Steve Hodge. A camisa seria depois leiloada por 8,5 milhões de dólares. Hodge escreveria um livro autobiográfico cujo título é… “O homem com a camisa de Maradona”. No volume, ele lembra do encontro de três ingleses – Terry Butcher, Gary Stevens e Kenny Sansom – na sala de controle anti-doping. Ali encontraram com Maradona. Como nenhum deles falava espanhol e o argentino, nada de inglês, por meio de gestos tentaram se entender. “Mão ou cabeça?”, perguntou Butcher. “Cabeça”, respondeu Maradona. El Diez estará de olho no jogo deste domingo, 5.
EM UM SÓ LUGAR






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