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O que uma atriz de Hollywood tem a ver com Neymar?

Carlo Ancelotti já fez sua escolha de Sofia, e não há mais como recuar

Por Fábio Altman, de Basking Ridge (Nova Jersey) 11 jun 2026, 08h00
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É sempre passeio de deliciosa imaginação saber onde nasceram e cresceram os muito famosos – é exercício que pode não servir para muita coisa, mas ao menos diverte. Pois bem: a premiadíssima atriz americana Meryl Streep, dona de três estatuetas do Oscar e 21 indicações, passou a infância e início da adolescência em Basking Ridge, a pequena cidade do estado de Nova Jersey em que a seleção brasileira estará hospedada durante a Copa do Mundo.

O lugar é de cinema, mas não esses barulhentos e explosivos, de super-heróis e supercarros. É calmo, quieto e repleto de pinheiros. À exceção das cercanias do hotel da turma de Ancelotti – o The Ridge –, onde há alguma algazarra de curiosidade, a vida como na poesia de Carlos Drummond de Andrade: “Um homem vai devagar/Um cachorro vai devagar/Um burro vai devagar/Devagar… as janelas olham/ Êta vida besta, meu Deus”. É assim agora, e sempre foi – mesmo quando as tropas lideradas por George Washington, logo depois da Declaração de Independência, em 1776, marchavam a caminho de Nova York e da Filadélfia. No fim dos anos 1950 e início dos 1960, o lugar era ainda mais pacato, êta vida besta, com o que ela tem de bom e melhor.

Meryl Streep fez suas primeiras apresentações artísticas em um concerto de Natal promovido pela escola onde estudava – a Oak Street Junior High School – com uma versão em francês de um clássico celebrado nos Estados Unidos, “O, Holy Night”. Tinha 11 anos. Depois, aos 13, virou sucesso local com a peça The Family Upstairs. O resto é história. Mas, enfim, qual a conexão da atriz com a canarinho, além da coincidência da vida familiar no fim do mundo, chamemos assim, com algum preconceito.

Três homens sorridentes posam em um restaurante. À esquerda, um homem de terno azul marinho e camisa branca. No centro, Neymar Jr. com boné preto, óculos, camiseta branca estampada e bermuda de couro. À direita, outro homem de terno cinza e gravata vinho.
Neymar numa churrascaria em Nova York: sempre na ribalta (@roccosteakhouse/Divulgação)

Como um ponto puxa outro, é inevitável pensar no primeiro Oscar de Meryl Streep como melhor atriz, com A Escolha de Sofia, em 1983. O filme, dirigido por Alan J. Pakula, baseado em livro de William Styron, trata do drama de Sofia, uma mãe polonesa, filha de pai antissemita, presa em um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Ela é forçada por um soldado nazista a fazer uma dolorosa escolha que lhe afetaria para o resto da vida – e é bom não dizer mais, por risco de spoiler.

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Então vamos lá: qual a escolha de Sofia de Carlo Ancelotti? Neymar, é claro. Levá-lo ou não levá-lo para a Copa, foi a primeira decisão fundamental, cuja resposta sabemos. Tê-lo ou não tê-lo em campo? Na estreia, contra o Marrocos, no sábado, 13, não, por impossibilidade física, com a panturrilha ainda em recuperação. E depois, ah, Sofia: Neymar vira titular ou não vira? É um problema que Ancelotti levou para os Estados Unidos, à guisa de solução. Aos 34 anos, depois de sucessivas contusões, o camisa 10 não tem a mesma velocidade e mesma capacidade de deslocamento. Ainda que tivesse, em que posição entrar? Naturalmente, como já indicou Ancelotti, na vaga de Raphinha – mas é improvável que Raphinha, de excelente temporada no Barcelona, vá para o banco.

Os dirigentes da CBF e o próprio Ancelotti gostam de dizer que Neymar é bom de grupo, que faz bem aos companheiros, mesmo que não jogue. É possível. Mas Neymar, é preciso sempre reforçar, tem dimensão grande demais para ser contido, é maior que Ancelotti, maior que todos os outros 25 atletas. Faz barulho, e é natural que fizesse, dado o tamanho da celebridade.

Não por acaso, Neymar pai, onipresente e onisciente, alugou uma mansão com 16 quartos e 20 banheiros, com capacidade para 36 pessoas, em Orlando. Sim, longe de Basking Ridge – mas e quando a seleção pousar em Miami, para o terceiro jogo, contra a Escócia? Hotel de Copa não é prisão, claro, mas não custa lembrar que, em recente folga da turma, Neymar visitou uma churrascaria em Nova York, em visita registrada pelos funcionários e pelo próprio restaurante.

Tudo bem, não chega a ser um desastre, longe disso, mas é do que Neymar gosta, da ribalta. Ele não é apenas mais um, no grupo. Mas Ancelotti, “mamma mia!”, para ficar com o nome de um outro filme estrelado por Meryl Streep, fez sua escolha de Sofia – e parece não haver recuo. Tenta-se, como sempre, fazer parecer que Neymar não incomoda – mas a presença dele, e não poderia ser diferente, é o avesso da tranquilidade de Basking Ridge.

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