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Pode custar caro, mas e daí? O tsunâmi do álbum de figurinhas da Copa já começou

Os segredos de um cativante fenômeno

Por Natalia Tiemi Hanada Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 2 Maio 2026, 08h00

Levante a mão quem está entusiasmado em ligar a televisão para ver Cabo Verde e Arábia Saudita, na fase de grupos da Copa do Mundo. Ah, tem também Irã e Nova Zelândia. Poucos admitirão prazer em acompanhar partidas tão sem graça no maior dos Mundiais, com 48 seleções. Agora, fica uma outra pergunta: quem é que correrá atrás das figurinhas dessas quatro seleções, no álbum que começou a circular no Brasil na quinta-feira 30? Uma multidão. A Panini, editora do livreto de 112 páginas, estima vender 140 milhões de cromos, distribuídos em pacotes de sete unidades.

O preço da brincadeira: 7 reais o embrulho. Em eventual milagre, caso fosse possível ir comprando sem nenhuma repetição, o custo para colar as 980 figuras iria a algo em torno de 1 004 reais (51% a mais do que em 2022, tempo em que havia 670 espaços a serem preenchidos). Leve-se em conta, porém, um fenômeno social que produz economias: as feiras de trocas, cada vez mais numerosas, cada vez mais populosas. É febre que já começou — e não há heresia em dizer que a coleção produzirá mais comoção do que a própria seleção.

Ninguém em sã consciência vai comprando os pacotes mediante cálculos financeiros ou porque pensa nos mecanismos cerebrais do colecionismo, mas convém saber o que corre por trás do fenômeno. Do ponto de vista da chamada Teoria das Probabilidades, a primeira figurinha é, por óbvio, uma que se precisa. A segunda tem enormes chances de não ser repetida. O tempo vai passando e as coisas, piorando. Lá no fim da brincadeira, há uma chance em 980 de abrir um sorriso depois de rasgar o invólucro. Salve, portanto, a colaboração. Estabelecer parcerias facilita o jogo. Ter um único companheiro de troca reduz em 30% a quantidade necessária de envelopes a serem comprados. Dar as mãos a outras duas pessoas faz cair a 46%. Uma equipe de dez indivíduos precisa de 68% menos envelopes para preencher seus álbuns. Na ponta do lápis, para facilitar as contas: viver numa bolha, sozinho, pode levar o custo final a mais de 7 000 reais. Ter dois parceiros de toma lá dá cá fará bater em pouco mais de 4 600 reais. Dividir a empreitada com uma dezena de colegas de farra faz o teto baixar para 2 500 reais, mais ou menos. E dá-lhe a festança, alegria de quem vai ocupando os espaços vazios e dos donos de bancas, que ficam com 2 reais por envelope vendido (o preço do pacotinho é de 7 reais).

TSUNÂMI - Espaços de troca em 2022: é bom já se preparar para 2030
TSUNÂMI – Espaços de troca em 2022: é bom já se preparar para 2030 (Rubens Cavallari/Folhapress/.)
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A onda só tem graça, afinal, pelo que carrega de genuína e entusiasmada interação social. Um que ajuda o outro, que ajuda o seguinte, em infinita ciranda, hoje alimentada por mensagens nas redes sociais, numa busca — digamos assim — insana. Há também o aspecto histórico, porque a aventura não vem de hoje (no Brasil há notícia de um livreto colecionável em 1934, tempo de Leônidas da Silva). O escritor e jornalista Marcelo Duarte, criador do Guia dos Curiosos, acaba de lançar O Álbum dos Álbuns de Figurinhas das Copas (Panda Books). Bisbilhoteiro que só ele, descobriu joias. Uma delas: o Balas Futebol 1950, lançado por uma empresa de doces, saiu depois da disputa encerrada. “Foi distribuído quando todo mundo já sabia do Maracanazo, da derrota do Brasil para o Uruguai, e mesmo assim foi um sucesso”, diz Duarte. “Seria inimaginável pensar numa coleção posta à venda, por exemplo, depois do 7 a 1 de 2014, contra a Alemanha.” A publicação antecipada, é natural, impõe erros — ou, digamos assim, chutes.

A não ser que alguém tenha passado uma temporada em Marte, sem comunicação com a Terra, já sabe que Neymar não está na lista do álbum do Brasil — e que Rodrygo, do Real Madrid, está, apesar de ter sofrido uma contusão que o levou a cirurgia, impossibilitado de ser chamado. Mas fica o alerta: a editora Panini põe nas bancas depois da Copa um kit com correções, vendendo craques que não aparecem na versão original. O que importa: o pontapé inicial foi dado, é certeza de afã multiplicado, em tsunâmi incontrolável. Até tudo terminar em julho, com o fim da Copa do Mundo, para renascer em 2030. É febre carimbada.

HISTÓRIA VIVA - Joias reveladas pelo Álbum dos Álbuns (acima): a coleção de 1934 e a de 1950 (abaixo)
HISTÓRIA VIVA - Joias reveladas pelo Álbum dos Álbuns (acima): a coleção de 1934 e a de 1950 (abaixo) (./.)
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Não por acaso, em 14 de maio estreia o longa-metragem O Gênio do Crime, dirigido por Lipe Binder, baseado no clássico infantojuvenil de João Carlos Marinho, de 1969. No livro, toda a trama nasce a partir de uma figurinha de Rivellino, então no Corinthians. No filme, o craque do passado dá lugar a Vinicius Jr. Os tempos mudaram, mas o fascínio pelos álbuns, não, parece eterno.

Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993

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