Por que Neymar, que Ancelotti diz ser bom problema, pode resultar em enrosco
O Brasil chega aos Estados Unidos com um nome que rouba todas as atenções, esteja ou não na equipe
Os risos fizeram supor uma resposta engraçada, pronta para tirar o peso de chumbo do ar, mas não. O treinador Carlo Ancelotti foi malcriado, tentando ser brincalhão, ao responder à pergunta de um jornalista que queria saber o que o país inteiro tinha como dúvida: ele levaria Neymar para a Copa se soubesse da contusão na panturrilha da perna direita do atacante do Santos antes da convocação? Assim, com ironia: “Sabe como se diz na Itália? Se minha avó tivesse rodas, ela seria um carro”. Foi um tantinho grosseiro e contraditório. O técnico, desde que desembarcou no Rio há um ano, contratado pela CBF, e sem ter listado o craque de 34 anos uma única vez, sempre usou o “se”, a conjunção subordinativa condicional, para tratar do atleta, indo direto ao ponto: ele só estaria no time com 100% de condições físicas.
Não é o caso, e em hipótese otimista Neymar estaria pronto para entrar em campo apenas na partida contra o Haiti, a segunda, marcada para 19 de junho, na Filadélfia. Ele sentiu a musculatura em 17 de maio, contra o Coritiba. Há tempo, sem dúvida — mas é estranho que Ancelotti tenha no grupo um jogador sem condições de entrar no gramado nem mesmo para treinos. E dá-se, de modo inapelável, se não o pior dos mundos, um mundo estranho. Neymar é como um bode na sala, difícil de ser tirado. É assunto obrigatório, esteja em campo, esteja fora dele. E dá-lhe outra postura torta de Ancelotti, que bateu bumbo na defesa de um grupo sem estrelas e cedeu ao rei sol. Sim, Neymar é querido pelos companheiros, é admirado por boa parte da torcida e pela unanimidade dos adversários — e não se deve desdenhar o que houve no domingo 31, no Maracanã, na vitória de 6 a 2 contra o fraquíssimo Panamá. Neymar esteve ao lado dos brasileiros que entraram na partida e dos que estavam no banco de reservas, como se fosse amigo de infância da turma toda. Neymar foi aplaudido pela arquibancada. Neymar tirou foto com todos — todos! — os panamenhos. Tudo muito simpático, tudo muito bacana, no lugar certo. Mas basta? Talvez não, porque recuperado o camisa 10 vai querer brigar por posição, e sai da frente.
Na Granja Comary e no Maracanã, antes da viagem para a América do Norte, tudo o que poderia soar positivo foi celebrado com ênfase — e tudo o que trazia o momento para a dureza da realidade era rechaçado em um tom acima do desejado. Tome-se como exemplo a reação irônica do veterano volante Casemiro ao ouvir de um repórter — ah, esse pessoal que faz indagações — um pedido para comentar as dificuldades do parceiro contundido: “Ter que falar do Neymar, Neymar, Neymar. Neymar é como outro jogador dentro do grupo”. Não é exatamente assim, e mesmo Ancelotti mal dissimula o tamanho do problema que tem em mãos, embora o apresente como solução. Depois do bom desempenho dos atacantes reservas contra o Panamá (Rayan, Igor Thiago e Endrick) e da performance mediana dos titulares, ele tentou imaginar qual seria o espaço de Neymar no 11 titular. “É por dentro do campo, não pode jogar por fora. Ele não vai jogar como extremo, vai jogar por dentro do campo, como ponta ou meia-ponta. É a posição que hoje jogaram o Vinicius e o Raphinha.” Até que possa calçar as chuteiras, contudo, Neymar será como uma ausência que marca presença, o que não é bom. Lembre-se do ridículo episódio de 2014, antes do 7 a 1 diante da Alemanha, em Belo Horizonte. A canarinho entrou em campo exibindo a camisa de Neymar, que tinha se machucado nas quartas, contra a Colômbia, agredido pelo meio-campista Zúñiga. Era para ser uma homenagem, como se houvesse um décimo segundo jogador. Foi bobagem que desandou. Não se deve, é claro, pôr a culpa da humilhação naquela decisão, mas ela ajudou a levar pelo ralo a moral da equipe goleada para a história. E, passados doze anos, eis Neymar em forma de incômodo paradoxo: dentro e fora ao mesmo tempo.
A bem da verdade, embora tenha sido pego na contradição ao escolher Neymar, Ancelotti silenciosamente desenhava o caminho que tomou. Um livro autobiográfico, escrito em parceria com o jornalista britânico Chris Brady, O Sonho — Quebrando o Recorde de Vitórias da Champions League, dá pistas do desfecho anunciado. Em certo trecho, ele narra seu retorno ao Milan, da Itália, em 1987. Ancelotti, esforçado volante, tinha então 28 anos. Do livro: “Depois de tantas lesões, meus joelhos já não eram os mesmos, e eles temiam estar comprando alguém bichado. O médico do clube que me examinou também estava preocupado. Sacchi (o treinador do Milan) foi convincente. Lembro de Berlusconi (presidente do clube e futuro primeiro-ministro da Itália) dizendo: ‘Não dá para contratar Ancelotti. O médico disse que depois da operação no joelho ele ficou com 20% menos de mobilidade. Ele teve um problema no menisco e foi operado muitas vezes’. Sacchi respondeu como só ele saberia responder: ‘Se eu contratar Ancelotti, vamos ganhar o campeonato. Não me importo se ele tem 20% menos mobilidade no corpo. Só me preocuparia se ele tivesse 20% menos mobilidade na inteligência’. Isso pareceu resolver a questão”. Como Neymar tem a inteligência futebolística intacta, embarcou no voo fretado.
Já não é possível, contudo, vê-lo como o supercraque que vai resolver todos os problemas. Um passeio nostálgico ajuda a deixar as coisas do tamanho que devem ter. Em 1978, Rivellino levou uma pancada no tornozelo direito contra a Suécia, na estreia — não foi cortado, entrou pouquíssimos minutos em três jogos, sendo um deles a disputa pelo terceiro lugar, contra a Itália. Rivellino tinha 32 anos, mas era o cérebro daquele escrete de Cláudio Coutinho, o “campeão moral” da Copa vencida pela Argentina. Valia a pena tê-lo como carta na manga. Em 1986 foi Zico, com o joelho direito em pandarecos. Mas o Galinho, então com 33 anos, era fundamental. Entrou contra a França, nas quartas de final, no segundo tempo, e muito bem, mas perdeu o pênalti — erro histórico que o marcaria de modo injusto — que poderia representar a vitória da seleção brasileira, eliminada nas penalidades após a prorrogação. O próprio Zico diria anos mais tarde: “Me arrependo de ter ido à Copa de 1986, tinha uma lesão grave que não me dava condições de fazer o que gostaria de ter feito”. A contusão de Neymar não é tão grave e não é correto exigir dele o comportamento de Zico — até porque se as avós tivessem rodas, seriam carros. Só o tempo dirá se a manutenção de Neymar é o primeiro percalço de uma triste passagem ou um obstáculo menor diante da conquista do hexa, esperado há mais de vinte anos. As Copas costumam demolir certezas absolutas e pavimentar retomadas heroicas. Quem sabe Neymar surpreenda e queime a língua de quem o critica. A ver.
Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998
EM UM SÓ LUGAR






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