Uefa, Concacaf e AFC assinam carta criticando liderança de Gianni Infantino
Confederações escrevem sobre 'quebra de confiança' e criticam liderança do mandatário; Conmebol, CAF e OFC não assinaram
O presidente da Fifa, Gianni Infantino, voltou a ser criticado nesta segunda-feira, 10, com a publicação de uma carta conjunta de três confederações continentais, Uefa, Concacaf e AFC, que enfatizam que o futebol “não pertence a nenhum indivíduo”, no mais recente capítulo da grande crise na entidade. Sem mencionar o nome do mandatário, o texto coloca as evoluções do futebol na última década como fruto do trabalho coletivo e que a atual liderança da entidade máxima do futebol não possui as qualidades para ocupar o cargo.
“A liderança no futebol não é uma posse. Não se trata de deter — nem de exigir — o poder para si próprio”, afirmam as três confederações na carta.
“Quando a confiança é quebrada por meio do engano, quando um indivíduo se coloca acima do coletivo que lhe confiou autoridade, esse dever foi abandonado”, acrescentam as três confederações em uma “carta aberta à família do futebol”.
Confederações divididas
O texto não é assinado pelos dois grandes apoios que Infantino mantém: a CAF (África), que tem 54 federações nacionais, a influente Conmebol, com dez federações, entre elas Brasil e Argentina, nem a modesta OFC da Oceania, com 13 países associados.
Até o momento único candidato declarado, Infantino precisa obter a maioria dos 211 votos dos membros da entidade para ser reeleito em março, para um novo mandato de quatro anos. Ele comanda a Fifa desde 2016.
A crise no mundo do futebol começou com a revelação, no fim de julho, do controverso projeto de Infantino, posteriormente abandonado, de abrir a Fifa para investidores privados.
Na quarta-feira, o ítalo-suíço organizou uma reunião de crise no Marrocos que terminou com “total apoio” da direção da Fifa ao seu presidente e “pedidos de desculpas pelos erros” relacionados à tomada de decisões no projeto de privatização.
“Não foi nossa intenção que o Conselho nem as associações-membro se sentissem excluídos do processo, que deveria ter sido conduzido de outra maneira”, afirmou a instituição em um comunicado divulgado ao fim do encontro.
Uefa, Concacaf e AFC criticaram a ausência de representantes da Federações-Membro na reunião, que “apenas reforça estas preocupações e representa uma continuação do próprio padrão de conduta que nos trouxe até este momento”.
Boicote à Copa
A Uefa, que lidera as críticas a Infantino, mantém a ameaça de boicotar as Copas do Mundo, por considerar insuficiente a simples retirada do projeto polêmico e os “pedidos de desculpas” apresentados pela Fifa.
A carta enviada pela entidade mundial às 211 federações que integram a Fifa “apresenta isso como uma falha de comunicação, quando o que o futebol testemunhou foi uma falha de discernimento”, uma “quebra fundamental da confiança das próprias instituições que a FIFA existe para servir”, lamentam Uefa, Concacaf e AFC em sua carta conjunta.
Confira a carta conjunta na íntegra:
“Carta aberta à família do futebol
Querida Família do Futebol,
O futebol é a maior paixão partilhada do mundo. Não pertence a nenhum indivíduo nem a nenhuma instituição.
Pertence aos jogadores, aos adeptos, aos clubes, às Federações-Membro e a todas as instituições encarregadas de salvaguardar o seu futuro.
É nesse espírito, na qualidade de confederações que representam os seus membros, que hoje nos pronunciamos colectivamente.
O crescimento registado na última década foi real. Mas esse progresso nunca foi obra de uma única pessoa. Foi o resultado do trabalho da FIFA, das Confederações, das Federações-Membro e dos milhares de pessoas que dedicam as suas vidas ao futebol.
A ampliação dos torneios, a atribuição dos Campeonatos do Mundo da FIFA de 2030 e 2034, a distribuição de recursos às federações. Estas foram conquistas partilhadas, acordadas em conjunto e concretizadas em conjunto.
Isto não tem a ver com dinheiro. As Confederações já apelaram a uma distribuição responsável das vastas reservas existentes da FIFA, com vista a reforçar ainda mais o investimento no desenvolvimento das Federações-Membro.
Também não se trata de nenhuma Federação-Membro perder o apoio que conquistou, apesar do alarmismo dirigido aos nossos membros para sugerir o contrário. Nem se trata de rever a expansão das competições, a atribuição de vagas para o Campeonato do Mundo ou quaisquer outras decisões tomadas colectivamente. Essas decisões foram tomadas em conjunto e devem ser mantidas.
Trata-se de algo mais fundamental: a integridade do jogo e a integridade daqueles que foram eleitos para o liderar.
A liderança no futebol não é uma posse. Não se trata de deter — nem de exigir — o poder para si próprio. É um dever de serviço para com a família do futebol que a confia.
Quando a confiança é quebrada por meio do engano, quando um indivíduo se coloca acima do colectivo que lhe confiou autoridade, esse dever foi abandonado.
A recente carta da FIFA aos seus vice-presidentes e às 211 federações-membro reconhece que foram cometidos erros ao longo do processo. A carta aborda esta situação como uma falha de comunicação, quando o que o futebol testemunhou foi uma falha de discernimento. Uma proposta apresentada num prazo apertado, sem uma consulta significativa e levada a cabo antes de as federações-membro poderem analisar devidamente os seus termos, não é fruto de um descuido — é o resultado de uma estratégia destinada a limitar o escrutínio.
Não reconheceu que a proposta em si era intrinsecamente errada. Continua a não haver qualquer reconhecimento de que a tentativa de vender uma participação no Campeonato do Mundo da FIFA constituiu um grave erro de avaliação — não apenas um deslize processual, mas uma quebra fundamental da confiança das próprias instituições que a FIFA existe para servir.
A FIFA comprometeu-se também a apresentar um relatório completo sobre estes acontecimentos ao Conselho da FIFA, deixando mais uma vez de reconhecer que uma governação adequada, face a uma falta de discernimento tão grave, exigiria que tal análise fosse conduzida por uma entidade terceira totalmente independente e não pela própria FIFA, pelo seu pessoal ou por qualquer parte interessada do mundo do futebol. A administração da FIFA não deve desempenhar qualquer papel na condução dessa análise.
Conforme correspondência anterior, todos os documentos e registos relevantes devem ser conservados em conformidade com a comunicação da UEFA sobre a conservação de documentos.
A própria carta da FIFA confirma também que apenas um dirigente eleito esteve presente na reunião de liderança em Marrocos. Nenhum membro do Conselho da FIFA nem das Federações-Membro foi convidado a participar. Apenas o comitê de gestão, composto por quadros superiores ao serviço da FIFA, esteve presente.
Esta recente reunião, em que um número restrito de membros do Comitê de Gestão da FIFA — e não o Comitê na sua totalidade — foi convocado no estrangeiro, em vez de os dirigentes se deslocarem a Zurique para se dirigirem ao coração da FIFA, apenas reforça estas preocupações e representa uma continuação do próprio padrão de conduta que nos trouxe até este momento. Não é a conduta de um guardião do futebol, mas sim de alguém que acredita que o futebol lhe deve prestar contas.
Há silêncio onde deveria haver responsabilização, e distância onde deveria haver abertura.
Estas não são as qualidades que o futebol merece na sua liderança. É por isso que assumimos esta posição: não de ânimo leve nem sozinhos, mas em conjunto, e por um sentido de dever para com o desporto que servimos.
A força do futebol sempre residiu na sua unidade. Apelamos a que essa unidade seja agora respeitada e a que haja uma liderança que sirva o futebol, em vez de procurar dominá-lo.
Atentamente,
SALMAN BIN IBRAHIM AL KHALIFA (Presidente da AFC)
VICTOR MONTAGLIANI (Presidente da Concacaf)
ALEKSANDER ČEFERIN (Presidente da UEFA)
DATUK SERI WINDSOR JOHN (Secretário-Geral da AFC)
PHILIPPE MOGGIO (Secretário-Geral da Concacaf)
THEODORE THEODORIDIS (Secretário-Geral da UEFA)”







