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Um dia para nunca mais ser esquecido

A história embaralhada do New York Knicks, da seleção brasileira e – sim – O.J. Simpson

Por Fábio Altman, da Morristown (Nova Jersey) 14 jun 2026, 11h30 | Atualizado em 14 jun 2026, 12h05
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Foi um dia histórico, como há muito Nova York não via. Foi uma noite de festa que eclodiu em torno de 23h30, varou a madrugada e cujos ecos ainda agora podem ser percebidos nas emissoras de televisão, nos programas de rádio, nas conversas do café da manhã. A celebração atravessou o rio Hudson e foi dar até nas pacatas cidades de Morristown e Basking Ridge – ali onde a seleção de Carlo Ancelotti dorme e treina para os jogos da Copa do Mundo. Pelas ruas, carros desfilavam buzinando; de bares lotados saíam jovens de celular em mãos revendo os lances finais da partida que, insista-se, durante muito tempo ficará guardada na memória – e não, talvez nem seja preciso necessário reforçar, a essa altura do texto, não se trata do insosso empate em 1 a 1 da seleção com o Marrocos.

A história se fez em San Antonio, no Texas, a quatro horas de voo de Nova York, com a vitória do Knicks contra o Spurs por 94 a 90, fechando a série de finais da NBA em 4 a 1 e definindo o campeão da temporada de 2025 e 2026 – ou, como se costuma dizer no basquete americano, com a altivez e arrogância de quem montou a espetacular liga, os Knicks foram “campeões do mundo”. Venceram pela primeira vez em 53 anos. Para muitos, é a maior – e haja superlativos – equipe de esportes novaiorquina desde sempre. Mais do que os Yankees de 1927, o grupo de beisebol de Lou Gehrig. Mais do que o Giants do quarterback Eli Manning, vencedor do Super Bowl de 2008. O Knicks de Jalen Brunson será para sempre uma lembrança de uma jornada épica – e convém registrar a fenomenal partida número quatro, que terminou em 107 a 106 para os novaiorquinos, depois de virarem no intervalo perdendo por uma diferença de 29 pontos.

Jogadores de basquete em quadra. Um atleta de camisa azul com o número 11 salta para arremessar a bola, enquanto um adversário de camisa branca tenta bloqueá-lo. Outros jogadores e a torcida são visíveis ao fundo.
A vitória do Knicks contra o Spurs, por 4 a 1: o maior time da história novaiorquina (Eric Gay - Pool/Getty Images/Getty Images)

Numa esquina de Manhattan

É extraordinário, e tem um quê de ironia, saber que o 13 de junho de 2026, um dia para não se esquecer em Nova York e nas cercanias, tenha sido palco simultâneo da aventura do Knicks e da desventura do Brasil no início da Copa. Há quem goste de futebol e não de basquete, há também o avesso. Mas quem aprecia esporte haverá de ficar empolgado com o troféu do Knicks e as ondas de festejos que deflagrou, como se a NBA ofuscasse o campeonato montado pelo italiano Gianni Infantino, o presidente da Fifa.

O fotógrafo Alexandre Battibugli, que trabalha com VEJA na Copa, saiu do New Jersey New York Stadium,  o novo nome de batismo do Met Life Stadium, e seguiu para Manhattan. Desceu na Penn Station e foi caminhando na direção do Madison Square Garden, onde telões exibiram a partida. As pessoas corriam de um lado para outro, “como em 1977, quando o Corinthians foi campeão”, diz Batti. Uma das fotos, para emoldurar e pôr na parede, força o uso do batido jargão: uma fotografia vale por mil palavras. Há um menino com a camisa brasileira empoleirado num poste entre a Ninth Avenue e a West 34th St., no coração do chamado Midtown West.  Abaixo dele, a multidão. Num único clique, o futebol e o basquete, o esporte, um dia para não se esquecer. Como no samba gravado por Jackson do Pandeiro, só que não: “Chiclete eu misturo com banana, e o meu samba vai ficar assim/ Tururururururi-bebop-bebop/ Eu quero ver a confusão”.

Nos agradáveis passeios que a história entrega, e a memória é o que nos faz ir em frente, é bom lembrar da outra Copa do Mundo nos Estados Unidos, em 1994; de um outro Knicks, também de 1994; e de um episódio que, especialmente para os americanos, ofuscou o tetra da turma de Romário, Bebeto e cia. e deixou em segundo plano até o Knicks de Patrick Ewing, que nas finais seria derrotado pelos Rockets, de Houston. Eu estava aqui, e com as falhas impostas por lembranças já esmaecidas pelo tempo, posso contar um pouquinho do clima de 32 anos atrás – e que em muitos aspectos tem relação com o que houve ontem, em sucessão de acontecimentos que se atropelam a ponto de embaralhar o momento, como numa comédia – ou uma tragédia – de erros.

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O corre do Ford Bronco

Vamos lá, e segue o textão. Era 17 de junho de 1994, uma sexta-feira. Em Chicago, Alemanha e Bolívia faziam o jogo inaugural da Copa, 16h e calor de rachar. As emissoras de TV começavam a soltar pequenas entradas ao vivo em torno de O.J. Simpson, o ex-jogador de futebol americano e ator acusado de matar a ex-companheira.  Os repórteres entravam em cena, cortando os lances do jogo, sem nenhum pudor dos diretores de imagem. Quando Espanha e Coreia do Sul puseram os pés no gramado, às 18h, em Dallas, as notícias sobre Simpson aumentavam em frequência. E então começou a cobertura da fuga dentro de um Ford Bronco pelas estradas da Califórnia. A Copa do Mundo dos Estados Unidos, ao menos para os telespectadores americanos, saiu do ar para nunca mais.  O corre espetacular de O.J. atrairia mais de 96 milhões de pessoas.

Rodovia movimentada ao entardecer, com vários carros em três pistas, alguns com faróis acesos. Um letreiro verde indica Santa Monica Blvd e Olympic Blvd.
O.J. Simpson e perseguição pelas ruas da Califórnia, em 1994: que futebol, que basquete, que nada (Vinnie Zuffante/Getty Images)

Futebol? Copa? O quinto jogo da NBA, entre Knicks e Rockets, naquele mesmo dia 17? Adeus, adeus, era difícil saber quem transmitiria, e se transmitiria, as disputas esportivas. Era O.J. – e mais ninguém. Nós, jornalistas brasileiros que acompanhávamos a seleção, logo vimos, nos dias seguintes, o que significava o torneio de futebol. Era um fiapo – menos do que agora, em tempo de redes sociais etc. Embora, não se deve ser ingênuo, a Copa do Mundo nos Estados Unidos de 2026 desaparece em um piscar de olhos, e haja dificuldade para encontrar as partidas na televisão.

Naquele 1994, voltemos para lá, em um restaurante, logo depois da partida entre Brasil e Suécia, em Detroit, empate em 1 a 1, na primeira fase, dois jovens americanos se aproximaram da mesa de brasileiros em algazarra. A dupla estava curiosa.

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– Por que vocês estão tão animados?, perguntou um deles.

– Deve ser algo muito legal, completou o outro.

Um dos torcedores de verde-e-amarelo, no inglês possível, deu a informação:

– Copa do Mundo, Copa do Mundo de Futebol.

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– O quê? Aqui nos Estados Unidos, não estava nem sabendo? E qual foi o jogo que vocês viram?

– Brasil e Suécia.

– Que legal, e quem ganhou?, indagou o americano.

– Empate de 1 a 1.

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– Como assim, o jogo terminou e ninguém saiu ganhando? Pode isso?

Pode, mas não precisa ser chato como o 1 a 1 contra o Marrocos, soterrado pelo 94 a 90 do Knicks contra o Spurs – e por isso o menino brasileiro subiu no poste em Manhattan, desta vez sem um O.J. Simpson para estragar a festa, embora a presença de Donald Trump seja sempre um desmancha-prazeres. Salve a beleza do esporte.

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