Um dia para nunca mais ser esquecido
A história embaralhada do New York Knicks, da seleção brasileira e – sim – O.J. Simpson
Foi um dia histórico, como há muito Nova York não via. Foi uma noite de festa que eclodiu em torno de 23h30, varou a madrugada e cujos ecos ainda agora podem ser percebidos nas emissoras de televisão, nos programas de rádio, nas conversas do café da manhã. A celebração atravessou o rio Hudson e foi dar até nas pacatas cidades de Morristown e Basking Ridge – ali onde a seleção de Carlo Ancelotti dorme e treina para os jogos da Copa do Mundo. Pelas ruas, carros desfilavam buzinando; de bares lotados saíam jovens de celular em mãos revendo os lances finais da partida que, insista-se, durante muito tempo ficará guardada na memória – e não, talvez nem seja preciso necessário reforçar, a essa altura do texto, não se trata do insosso empate em 1 a 1 da seleção com o Marrocos.
A história se fez em San Antonio, no Texas, a quatro horas de voo de Nova York, com a vitória do Knicks contra o Spurs por 94 a 90, fechando a série de finais da NBA em 4 a 1 e definindo o campeão da temporada de 2025 e 2026 – ou, como se costuma dizer no basquete americano, com a altivez e arrogância de quem montou a espetacular liga, os Knicks foram “campeões do mundo”. Venceram pela primeira vez em 53 anos. Para muitos, é a maior – e haja superlativos – equipe de esportes novaiorquina desde sempre. Mais do que os Yankees de 1927, o grupo de beisebol de Lou Gehrig. Mais do que o Giants do quarterback Eli Manning, vencedor do Super Bowl de 2008. O Knicks de Jalen Brunson será para sempre uma lembrança de uma jornada épica – e convém registrar a fenomenal partida número quatro, que terminou em 107 a 106 para os novaiorquinos, depois de virarem no intervalo perdendo por uma diferença de 29 pontos.
Numa esquina de Manhattan
É extraordinário, e tem um quê de ironia, saber que o 13 de junho de 2026, um dia para não se esquecer em Nova York e nas cercanias, tenha sido palco simultâneo da aventura do Knicks e da desventura do Brasil no início da Copa. Há quem goste de futebol e não de basquete, há também o avesso. Mas quem aprecia esporte haverá de ficar empolgado com o troféu do Knicks e as ondas de festejos que deflagrou, como se a NBA ofuscasse o campeonato montado pelo italiano Gianni Infantino, o presidente da Fifa.
O fotógrafo Alexandre Battibugli, que trabalha com VEJA na Copa, saiu do New Jersey New York Stadium, o novo nome de batismo do Met Life Stadium, e seguiu para Manhattan. Desceu na Penn Station e foi caminhando na direção do Madison Square Garden, onde telões exibiram a partida. As pessoas corriam de um lado para outro, “como em 1977, quando o Corinthians foi campeão”, diz Batti. Uma das fotos, para emoldurar e pôr na parede, força o uso do batido jargão: uma fotografia vale por mil palavras. Há um menino com a camisa brasileira empoleirado num poste entre a Ninth Avenue e a West 34th St., no coração do chamado Midtown West. Abaixo dele, a multidão. Num único clique, o futebol e o basquete, o esporte, um dia para não se esquecer. Como no samba gravado por Jackson do Pandeiro, só que não: “Chiclete eu misturo com banana, e o meu samba vai ficar assim/ Tururururururi-bebop-bebop/ Eu quero ver a confusão”.
Nos agradáveis passeios que a história entrega, e a memória é o que nos faz ir em frente, é bom lembrar da outra Copa do Mundo nos Estados Unidos, em 1994; de um outro Knicks, também de 1994; e de um episódio que, especialmente para os americanos, ofuscou o tetra da turma de Romário, Bebeto e cia. e deixou em segundo plano até o Knicks de Patrick Ewing, que nas finais seria derrotado pelos Rockets, de Houston. Eu estava aqui, e com as falhas impostas por lembranças já esmaecidas pelo tempo, posso contar um pouquinho do clima de 32 anos atrás – e que em muitos aspectos tem relação com o que houve ontem, em sucessão de acontecimentos que se atropelam a ponto de embaralhar o momento, como numa comédia – ou uma tragédia – de erros.
O corre do Ford Bronco
Vamos lá, e segue o textão. Era 17 de junho de 1994, uma sexta-feira. Em Chicago, Alemanha e Bolívia faziam o jogo inaugural da Copa, 16h e calor de rachar. As emissoras de TV começavam a soltar pequenas entradas ao vivo em torno de O.J. Simpson, o ex-jogador de futebol americano e ator acusado de matar a ex-companheira. Os repórteres entravam em cena, cortando os lances do jogo, sem nenhum pudor dos diretores de imagem. Quando Espanha e Coreia do Sul puseram os pés no gramado, às 18h, em Dallas, as notícias sobre Simpson aumentavam em frequência. E então começou a cobertura da fuga dentro de um Ford Bronco pelas estradas da Califórnia. A Copa do Mundo dos Estados Unidos, ao menos para os telespectadores americanos, saiu do ar para nunca mais. O corre espetacular de O.J. atrairia mais de 96 milhões de pessoas.
Futebol? Copa? O quinto jogo da NBA, entre Knicks e Rockets, naquele mesmo dia 17? Adeus, adeus, era difícil saber quem transmitiria, e se transmitiria, as disputas esportivas. Era O.J. – e mais ninguém. Nós, jornalistas brasileiros que acompanhávamos a seleção, logo vimos, nos dias seguintes, o que significava o torneio de futebol. Era um fiapo – menos do que agora, em tempo de redes sociais etc. Embora, não se deve ser ingênuo, a Copa do Mundo nos Estados Unidos de 2026 desaparece em um piscar de olhos, e haja dificuldade para encontrar as partidas na televisão.
Naquele 1994, voltemos para lá, em um restaurante, logo depois da partida entre Brasil e Suécia, em Detroit, empate em 1 a 1, na primeira fase, dois jovens americanos se aproximaram da mesa de brasileiros em algazarra. A dupla estava curiosa.
– Por que vocês estão tão animados?, perguntou um deles.
– Deve ser algo muito legal, completou o outro.
Um dos torcedores de verde-e-amarelo, no inglês possível, deu a informação:
– Copa do Mundo, Copa do Mundo de Futebol.
– O quê? Aqui nos Estados Unidos, não estava nem sabendo? E qual foi o jogo que vocês viram?
– Brasil e Suécia.
– Que legal, e quem ganhou?, indagou o americano.
– Empate de 1 a 1.
– Como assim, o jogo terminou e ninguém saiu ganhando? Pode isso?
Pode, mas não precisa ser chato como o 1 a 1 contra o Marrocos, soterrado pelo 94 a 90 do Knicks contra o Spurs – e por isso o menino brasileiro subiu no poste em Manhattan, desta vez sem um O.J. Simpson para estragar a festa, embora a presença de Donald Trump seja sempre um desmancha-prazeres. Salve a beleza do esporte.
TUDO SOBRE A COPA,
EM UM SÓ LUGAR







