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Uma tarde no museu durante a Copa do Mundo – com surpresas inesperadas!

Por que Andy Warhol, Rousseau, Picasso e cia. têm tudo a ver com futebol

Por Fábio Altman, de Nova York 2 jul 2026, 20h00 | Atualizado em 3 jul 2026, 16h15
Uma tarde no museu durante a Copa do Mundo – com surpresas inesperadas! Priorizar nos meus resultados Google

Os noruegueses vão derreter com a sensação térmica de 39 graus no domingo, em Nova Jersey. Os brasileiros – especialmente os que jogam na Europa e já não caminham no Rio de Janeiro, Cuiabá e Teresina –, idem. O calorão leva o serviço de saúde pública da região de Nova York a emitir sucessivos alertas. É um perigo, como no famoso trecho de O Estrangeiro, de Albert Camus, o mais celebrado franco-argelino depois de Zinedine Zidane: “Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Voltei então a disparar mais quatro vezes contra um corpo inerte onde as balas se enterravam sem se dar por isso. E era como se batesse quatro breves pancadas à porta da desgraça.”

O que fazer em Nova York contra o sol e o suor? Entrar em um ônibus, indo o mais longe possível – mas o ar condicionado não aquenta o tranco. Um restaurante, um bar, uma loja – ok. Mas e que tal um museu, o Guggenheim? Não estará tão cheio quanto o MOMA e não é tão grande quando o Metropolitan. É uma boa pedida, e nada como recarregar as energias na sala do cinema do subsolo, com a exibição de Zidane: Um Retrato do Século XXI. A obra, experimental, dirigido por Douglas Gordon e Philippe Parreno, de 2006, acompanha o francês – o mais elegante camisa 10 – durante uma partida inteira do Real Madrid contra o Villarreal, utilizando dezessete câmeras sincronizadas focadas exclusivamente nele. É interessante, que ideia bacana, mas é chato também. Chega de Zizou. Ao museu, rampa acima da espetacular arquitetura circular de Frank Lloyd Wright, o Zidane da régua e compasso.  

E então, como a Copa do Mundo ocupa corações e mentes, e não há como esquecê-la, vale uma brincadeira: relacionar algumas das obras expostas na parede com as seleções de 2026. É como se um torcedor da canarinho, preocupado com Haaland, desse um jeito de arejar a mente – mas não consegue, porque o futebol é a coisa mais importante entre as coisas sem importância.

A primeira parada, a mais óbvia, para aquecimento, é uma pintura em acrílico de Andy Warhol, de 1963: Orange Disaster #5. É uma colagem de quinze desenhos, a partir de fotos, de uma cadeira elétrica repetida à exaustão, de cor alaranjada. Já sabem do que se trata, não? A eliminação da Holanda para Marrocos, nos pênaltis – embora justa – representa um desastre. A equipe vinha crescendo. Empatou com o Japão em 2 a 2, venceu a Tunísia por 3 a 1 e a Suécia por 5 a 1, para então cair precocemente. É uma pena, a grande injustiça, digamos assim, da Copa, até agora. E adeus ao excelente zagueiro Virgil van Dijk e a Memphis Depay, que veio passear.

Múltiplas imagens repetidas de uma cadeira elétrica em um quarto vazio, com tons de laranja e preto, criando uma atmosfera sombria e impactante
“Orange Disaster #5” , de Andy Warhol:  relação com a equipe de Memphis Depay, que veio a passeio (Fabio Altman/Arquivo pessoal)
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O tom de Warhol, dramático embora pop, sugere irmos para o avesso – a alegria quase juvenil do óleo sobre tela de Henri Rousseau, de 1908. No traço, quatro homens lidam, evidentemente, com uma bola de rúgbi – mas o título do trabalho é Les Jouers de Football, o futebol que atravessara o Canal da Mancha para virar mania também em Paris e arredores. A turma tem bigodes elegantes, cabelos alinhados como os dândis daquele tempo. E se pudessem vivenciar a seleção francesa de 2026, construída de craques como Mbpappé, Dembelé e Olise, filhos da diversidade e do direito de migração, um grito contra a xenofobia e o preconceito? Aqueles jogadores viraram um grupo da pesada – talvez a mais espetacular equipe de futebol desde o Brasil de 1982, e que me esculpe Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo de 2002.

Ah, e o Brasil? Está nas paredes também, com um quê de provocação. A obra: Comedian, de Maurizio Cattelan, italiano como Carlo Ancelotti. É uma banana presa ao muro com uma fita adesiva cinza. É como o Brasil de Carmem Miranda – “yes, nós temos bananas” – pedindo liberdade. Essa fruta tem história.

Banana madura amarela presa verticalmente a uma parede clara com duas tiras de fita adesiva cinza, formando um X
“Comedian”, de Maurizio Cattelan: leiloado por 37 milhões de reais (Maurizio Cattelan - "Comedian" (2019)/Reprodução)
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O sujeito que a arrematou em um leilão talvez não tivesse tomado café da manhã, ou tinha fome de ribalta, aqueles quinze minutos de fama a que todos nós teríamos direito, a partir da máxima de Andy Warhol. Diante de um pelotão de jornalistas, como numa coletiva de Copa do Mundo, em um dos salões de um hotel cinco estrelas de Hong Kong, o empresário chinês radicado nos Estados Unidos Justin Sun comeu o fruto carnoso depois de descascá-lo com vagareza. E dá-lhe flashes. Não era uma banana qualquer. Era a mais cara do mundo, de 6,2 milhões de dólares, algo em torno de 37 milhões de reais, o valor pago pelo empreendedor — o campeão de investimentos em criptomoedas — em um leilão da Sotheby’s nova-iorquina.

A questão que não quer calar, e nem é tão difícil assim digeri-la: afinal, é uma obra de arte? Dito de outro modo, como é que uma criação banal, esteticamente duvidosa, pode valer tanto no mercado? Tome emprestado o bonito argumento, dada a singeleza, do crítico britânico Will Gompertz, autor de Isso É Arte?, ao navegar em torno de A Fonte, aquele famoso urinol de porcelana de Marcel Duchamp, de 1917, e que por coincidência está exposto numa retrospectiva do MOMA: “Ao propor que uma ideia é mais importante que o meio, privilegiando assim a filosofia sobre a técnica, terá ele obstruído as escolas de arte com dogma, tornando­-as amedrontadas e desdenhosas em relação à habilidade técnica? Ou terá sido um gênio que fez a arte se emancipar das trevas de seu bunker medieval, como Galileu fizera pela ciência 300 anos antes, permitindo-lhe florescer e desencadear uma revolução intelectual de longo alcance?” E se por acaso o crítico de arte estivesse se referindo à escola brasileira de futebol, que já não é mais a mesma, e vai que um italiano – aquele, Ancelotti – nos surpreenda, como quem diz: sim, isso que vocês veem em campo também um dia será tratado como arte. Vai saber…

O celular apita, gol da Espanha, 2 a 0 contra a Áustria. Se começamos o passeio no que soava evidente – o desastre laranja da Holanda – um bom passo, ainda mais óbvio, é encontrar um parceiro artístico para a seleção de Lamine Yamal. Picasso, é claro. La Repasseuse, de 1904. A passadeira, um óleo sobre tela que remete a trabalho metódico, repetitivo, porque todo dia ela faz tudo sempre igual. É a determinação silenciosa da fase azul do gênio de Málaga. Salvo a tonalidade – seria melhor o rubro a Fúria – é ou não é um retrato da seleção espanhola na Copa de 2026, que devagar, devagarinho, avança.

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Pintura de mulher curvada, com expressão de cansaço, passando roupa com um ferro antigo. A paleta de cores é predominantemente cinza e azul, transmitindo melancolia. A obra está em uma moldura de madeira escura, ricamente entalhada com motivos florais e arabescos
“A Passadeira”, de Pablo Picasso: trabalho metódico e repetitivo como o da Espanha (Fábio Altman/Arquivo pessoal)

Uma hora, um pouco mais, o tempo passou, os 39 graus e o sol não cedem, mas é hora de ir embora – deixar o museu, porque o que importa mesmo, agora, é uma bola. Lembrando, só por lembrar, que Camus, tal qual o filho de Zidane, foi goleiro na juventude. 

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