🔥 Mês do Cliente: Receba 4 Revistas Impressas por apenas R$ 35,90/mês. Aproveite!

Tempero high-tech: como o uso da IA já inova a gestão dos restaurantes

A novidade traz uma dúvida existencial: até que ponto a máquina pode substituir a criatividade dos chefs?

Por Natalia Tiemi Hanada Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 23 ago 2026, 08h00
Tempero high-tech: como o uso da IA já inova a gestão dos restaurantes Priorizar nos meus resultados Google

Figura lendária da alta gastronomia, o chef francês Auguste Escoffier (1846-1935) enxergava um rumo claro para o futuro de sua profissão: “A cozinha evoluirá à medida que a sociedade evolui, sem deixar de ser uma arte”. Esse postulado hoje é posto em teste por uma inovação inimaginável nos tempos do mestre. Como ocorre em praticamente todas as áreas da atividade humana, a inteligência artificial (IA) já chegou ao mundo dos restaurantes — e seu uso tem o potencial de mexer com tradições e velhos dogmas que balizaram as relações entre chefs e suas receitas, cardápios e clientes por séculos.

É natural que a novidade provoque um misto de empolgação e desconfiança entre cozinheiros e donos de restaurantes. Uma pesquisa publicada neste ano na revista especializada British Food Journal ouviu 23 chefs de restaurantes com estrelas Michelin sobre o tema. O resultado é divisivo: eles reconhecem que a IA pode ampliar a inovação na cozinha, mas também temem que possa ameaçar a criatividade — centelha que, no final das contas, move os talentos da gastronomia. “Não à inteligência artificial. Um restaurante é uma questão de emoções”, já proclamou o italiano Massimo Bottura, chef de um dos restaurantes mais prestigiados do mundo atualmente, a Osteria Francescana.

CALDEIRÃO DIGITAL - Cozinheiros analisam dados no tablet: algoritmos viram aliados para administrar os negócios
CALDEIRÃO DIGITAL - Cozinheiros analisam dados no tablet: algoritmos viram aliados para administrar os negócios (Hispanolistic/Getty Images)

Embora tenha visão crítica sobre a possibilidade de se utilizarem chat­bots na criação de pratos e menus autorais, o próprio Bottura reconhece o valor que a IA pode ter em outro front: a sempre espinhosa tarefa de administrar restaurantes. Como mostra o popular reality show Hell’s Kitchen (no Brasil, Pesadelo na Cozinha), em que se busca socorrer estabelecimentos que são verdadeiros casos perdidos, nem a boa comida nem a presença de um chef incensado é capaz de salvar uma casa que peque pela má gestão. Nesse quesito, a IA já provoca uma revolução real — e bem-vinda.

Continua após a publicidade

Por trás de cada prato servido em um restaurante, afinal, muitas etapas são cumpridas, do planejamento do cardápio ao preparo das refeições, da gestão de funcionários ao atendimento ao cliente. O gerenciamento de tantos detalhes passa longe de ser simples. Um calcanhar de Aquiles é o gasto com insumos: ele é crucial por representar de 25% a 40% da receita de um estabelecimento, segundo cartilha da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). “Antigamente, a gente tinha de ter um estoquista fazendo contagens quase diárias para identificar a necessidade de compras”, relata Felipe Vecchi, dono de oito restaurantes na Grande São Paulo. Hoje, com auxílio de uma ferramenta de IA para gestão da cozinha, Vecchi equacionou o problema com eficácia. “A IA me avisa ativamente sobre baixas de insumos e necessidade de pedidos”, diz ele.

Ferramentas digitais nessa linha ganham tração pelo mundo, inclusive no mercado nacional. Uma delas é o Alô Chefia, plataforma de gestão de estoque com IA utilizada por Vecchi. O programa visa eliminar o trabalho repetitivo e manter as planilhas atualizadas, sugerindo decisões com base nos dados. “Na prática, se o gestor pergunta: ‘O que preciso comprar de proteínas hoje?’, nosso sistema não só interpreta a pergunta, mas analisa o estoque atual, identifica os padrões de uso do ingrediente, monta a lista de compras ideal e responde em segundos”, diz a cofundadora do serviço, Fernanda Ferrari.

Continua após a publicidade
FICÇÃO - Robô prepara receita na China: o inescapável toque androide
FICÇÃO - Robô prepara receita na China: o inescapável toque androide (Wang Gang/CNS/VCG/Getty Images)

O uso da IA também vem ganhando relevância em mais um ponto sensível: o atendimento virtual aos clientes. Mais de um quarto dos bares e restaurantes já utiliza o Chat­GPT para essa interface on-line, segundo estudo da Abrasel. A RestauranteIA, outra plataforma de soluções para operação deles, oferece ainda o GastroBot, que permite a interação do freguês com o cardápio por texto ou voz, tirando dúvidas e fazendo sugestões de pratos e bebidas.

Continua após a publicidade

Falta pouco, enfim, para a IA invadir de vez a cozinha e conquistar o papel audacioso temido por chefs como Bottura, dando pitacos nas combinações de ingredientes e até na execução dos pratos. Ou melhor: na China, isso de certa maneira já é realidade. Nos restaurantes do país asiático, robôs preparam woks de noodles e afins sem a mãozinha de um humano. Recentemente, o chef americano Grant Achatz usou um chatbot para criar as receitas de um de seus premiados restaurantes em Chicago. A ideia deslumbrou alguns, mas também provocou um rastro de críticas por supostamente pôr a profissão em risco.

Na verdade, não se deve botar nem tanto sal, nem tanto açúcar nessa receita: a IA tenderá a conviver com o talento dos chefs — e a reforçá-­lo. “Ela serve para pesquisar referências, testar combinações e permitir ganho de tempo na criação, sem perder a alma do prato, que é a mão de quem o faz”, analisa Marcelo Marani, fundador do curso de gestão Donos de Restaurantes. Assim como um bom tempero, a IA deve estar a serviço do mestre-cuca.

Continua após a publicidade

Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2026, edição nº 3009

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner promocional com fundo verde-escuro. À esquerda, texto em verde-limão O MÊS É DO CLIENTE. e em branco A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua.. À direita, uma mão segura um smartphone exibindo um portal de notícias com banner e produtos, e ao lado, uma árvore estilizada em verde-limãoMão segurando um smartphone com aplicativo de notícias exibindo manchetes e produtos, ao lado do texto O MÊS É DO CLIENTE. A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua em fundo verde-escuro, com um ícone de árvore no canto superior direito
ECONOMIZE ATÉ 76% OFF

Digital Básico

A notícia em tempo real na palma da sua mão!
Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 5,99/mês
OFERTA MÊS DO CLIENTE

Revista em Casa + Digital Premium

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
De: R$ 59,99/mês
A partir de R$ 32,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).