Uísques de mel, amendoim e marshmallow? Sim, e eles já conquistam as gerações mais jovens
Drinques redesenham mercado antes dominado pela tradição purista
Nos armazéns de pedra das Highlands escocesas, fazer uísque ainda é como uma religião, regida pela reverência silenciosa, pelos barris de carvalho e por séculos de dogma inabalável. Para os mais puristas, os 250 anos de tradição da indústria do scotch já oferecem um espectro natural riquíssimo, que vai da fumaça medicinal da turfa aos delicados aromas florais de um pomar. Nesse contexto, portanto, aditivos de sabor soam como uma heresia. Mas basta entrar num bar no Brooklyn, em Londres ou em São Paulo para ver esse dogma se desfazer. Sobre os balcões, hoje, os copos não trazem single malts de safras raras, bebidos puros em taças em forma de tulipa. O que se pede, agora, são copos altos com uísque de pasta de amendoim, bourbon de marshmallow tostado e infusões geladas de amora.
O que parece modismo passageiro é, na verdade, uma reorganização do mercado. Segundo a consultoria Mordor Intelligence, o mercado mundial de uísque aromatizado chegou a 39,35 bilhões de dólares neste ano e deve atingir 52,10 bilhões de dólares em 2031, com crescimento anual de 5,8%. Já os uísques puros e tradicionais encolheram 0,6% no último ano, com as quedas mais acentuadas — amarga ironia — nas regiões que inventaram a bebida. Colecionadores mais velhos ainda disputam em leilões single malts de valor, mas o volume que sustenta as destilarias está perdendo fôlego. Para as grandes marcas, o recado é claro: tradição, sozinha, já não esvazia as prateleiras.
O principal motor dessa divisão entre gerações não é só o teor alcoólico, mas também a aversão à bagagem cultural e sensorial dos destilados clássicos. Historicamente ligados à formalidade e ao elitismo, os single malts afastam os jovens. No paladar, iniciantes recuam diante da adstringência do uísque tradicional e preferem perfis mais doces e arredondados, de acesso imediato.
Além disso, o ritual solitário de beber uma dose pura perdeu espaço para a sociabilidade dos drinques. Para a gen Z, coquetéis são menos símbolo de status e mais forma lúdica de expressão e conexão — seja em churrascos ou em festivais. As versões saborizadas, geralmente com apenas 35% de álcool, contra os 40% regulamentares, funcionam como ponte sensorial: o doce suaviza a aspereza e evita a careta de quem tenta aprender a gostar do destilado. Como cerca de 60% dos consumidores dessa faixa buscam marcas e categorias pouco convencionais, os sabores derrubam com facilidade a formalidade que mantinha o uísque à distância.
Essa busca por prazer transformou o setor quase numa confeitaria. O sabor mel lidera, com 35,3% da receita, puxado pelo Jack Daniel’s Tennessee Honey. Mas o consumidor já vai além do doce: as fórmulas frutadas — maçã, pêssego e amora — são a fronteira de maior crescimento, com expansão anual de 7,25%. Na vanguarda, os destiladores apostam em sobremesas, e o sucesso do uísque de pasta de amendoim da Skrewball inspirou imitadores com versões de biscoito, banana e marshmallow. Enquanto os uísques condimentados, como o Fireball, já atingiram a maturidade como produtos, as infusões de sobremesa avançam, à medida que os jovens tratam o álcool menos como status e mais como experimento coletivo — millennials e gen Z já respondem por mais de 52% da demanda por uísque saborizado.
Diante disso, os gigantes reagiram com realocação agressiva de capital. A Pernod Ricard comprou a Skrewball, a Campari investiu na Howler Head, de banana, e a Diageo lançou o Crown Royal Chocolate e o Johnnie Walker Red Soul, um blend sem turfa e reforçado com baunilha. No Brasil, quase metade das vendas de Jack Daniel’s já é da linha saborizada.
A corrida ao sabor açucarado, porém, esbarra nas malhas da regulação. Pelas regras da Scotch Whisky Association, qualquer aditivo além de água e corante caramelo desqualifica o destilado de usar o nome scotch. Mas a proteção legal, claro, não garante a sobrevivência comercial. “O uísque aromatizado veio para ficar”, diz Maurício Leme, do Grupo La Pastina, grande importadora de destilados. “O cara começa por eles, depois migra para um scotch mais seco e complexo e, em oito ou dez anos, talvez esteja no single malt.” Na lógica do mercado, oferecer doçura on the rocks tem se mostrado um negócio sedutor.
Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018






