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‘Nosso desafio não é saber mais. É sermos capazes de imaginar e nos tornarmos aquilo que ainda não existe’

Um dos maiores escritores da atualidade, o martinicano Patrick Chamoiseau fala sobre a obra que construiu e as ideias que nutre para transformar o mundo

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 21 set 2026, 16h00 | Atualizado em 21 set 2026, 17h45
‘Nosso desafio não é saber mais. É sermos capazes de imaginar e nos tornarmos aquilo que ainda não existe’ Priorize VEJA no Google

Existem autores que criam mundos. E existem autores que, além de criar mundos, buscam transformar nosso mundo, como é o caso de Patrick Chamoiseau. 

Nascido na ilha da Martinica, território nas Antilhas pertencente à França, esse escritor de 72 anos é leitura inescapável a quem quer compreender e reimaginar este mundo que herdamos e compartilhamos com o Outro – outro cidadão, outro povo, outra espécie. Em tempos de novos sectarismos, pretensões puristas e guerras econômicas, sua obra nos convida a uma abertura radical – e urgente se pretendermos sobreviver à crise socioambiental.

Do romance ao ensaio, diluindo inclusive fronteiras de gênero, Chamoiseau bebe da contação de lendas e histórias de seus ancestrais – a oriliteratura, da qual ele fala em O contador, a noite e o balaio (Editora 34) -, reprocessa o passado escravocrata, colonial e extrativista de sua terra natal, toca na potência e nas feridas das migrações e, ao final, nos provoca a utilizar todos esses ingredientes que forjaram a sua trajetória (e a de todos nós, frutos desta América sortida) para esboçar novos e necessários horizontes.

Felizmente, o leitor brasileiro tem a oportunidade de desbravar essa obra-mundo numa bem-vinda profusão de títulos do autor. A começar pelo romance que lhe rendeu em 1992 o prêmio Goncourt, Texaco, um livro magistral oportunamente reeditado pela Pinard – que, aliás, o escolheu para inaugurar neste ano seu selo de ficções contemporâneas.

Capa do livro Texaco de Patrick Chamoiseau. Fundo vermelho com título em preto. Uma imagem em preto e branco de uma rua movimentada com pessoas e edifícios, emoldurada por um selo de BANQUE DE LA MARTINIQUE 100 em diagonal
Texaco, de Patrick Chamoiseau, tradução de Rosa Freire D’Aguiar, Editora Pinard, 504 páginas (Capa: Pinard/Reprodução)
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Texaco evoca a empresa de postos e combustíveis, que também deitou raízes e tubulações na Martinica, mas perderia terreno ali para uma comunidade de mesmo nome que iria vicejar, apesar dos inúmeros desafios, nos passos de uma família que carrega a “despossessão” oriunda dos antepassados escravizados. Nele, o leitor acompanhará a semeadura de um “manguezal urbano”, que confronta o olhar de um urbanista talhado pela cultura ocidental.

Texaco é regado pela memória, a um só tempo individual e coletiva, que é “a cola, o espírito, a seiva” de qualquer realização humana. É adubado pelo encontro da língua francesa e da língua e da experiência crioula. É cultivado com uma narrativa única, que rompe amarras formais, e vai florescer com as cores da liberdade, afinal, como aprendemos ali, “carregar a liberdade é o único fardo que deixa as costas eretas”.

A crioulidade, aqui entendida como essa fusão de povos, culturas e saberes, e a noção de mundialidade (que se opõe à globalização) marcam também os ensaios de Irmãos migrantes, recém-publicado pela Editora 34, texto obrigatório a quem testemunha hoje os fluxos de deslocamento humano forçado e desesperado entre os continentes e o próprio cataclisma climático que já solta suas bestas.

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(A propósito, o novo lançamento de Chamoiseau pela Editora 34 é o Elogio da crioulidade, um manifesto literário assinado por autores que não são nem europeus, nem africanos, nem asiáticos, mas se proclamam crioulos, e nos chamam a ouvir suas vozes para rever o mundo).

Capa do livro Elogio da crioulidade com fundo branco e uma pintura abstrata colorida no topo. A pintura tem formas orgânicas em preto, branco, azul, verde, amarelo, marrom e laranja. Abaixo, os nomes dos autores Jean Bernabé, Patrick Chamoiseau e Raphaël Confiant em preto, seguidos pelo título em azul. Detalhes da tradução, prefácio e entrevista em preto. No rodapé, o logo da editora 34
Elogio da crioulidade, de Patrick Chamoiseau, Jean Bernabé e Raphaël Confiant, tradução de Henrique Provinzano Amaral, Editora 34, 112 páginas (Capa: 34/Reprodução)

“Também acredito que o Escrever se desenrola de dentro para fora (…) ele responde a preocupações, perguntas, angústias, impossibilidades que colocamos a nós mesmos e que queremos combater”, reflete o escritor em O contador, a noite e o balaio. Pois Escrever, assim com inicial maiúscula, é “levantar, inesperada, uma possibilidade”.

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E é o poder das possibilidades infinitas da literatura que esse martinicano nutre – possibilidades que não devem ficar confinadas às páginas, é bom reforçar. Com a palavra, Patrick Chamoiseau, na gentil tradução de Raquel Camargo, editora da 34. 

Gostaria de começar pelo seu romance Texaco. Como o senhor imagina que estaria hoje a comunidade que erigiu em seu livro? Hoje, creio que eu falaria menos de “comunidade” e mais de “Lugar”. Em Texaco, havia antes de tudo uma necessidade vital: depois da escravização, depois da Plantação, depois de todas as formas de despossessão, era preciso conquistar um espaço para existir. Marie-Sophie Laborieux e as pessoas do seu entorno não reivindicam apenas uma terra ou uma moradia. Elas inventam, como nas comunidades periféricas, uma maneira de habitar o mundo. Produzem solidariedade, ajuda mútua, vizinhanças, conflitos também, desordens férteis. É por isso que o urbanista acaba por compreender que Texaco não é uma “favela” a ser eliminada, mas uma espécie de “manguezal urbano”: algo que parece caótico para quem não sabe olhar, mas que contém uma inteligência do mundo vivo. Ainda acredito profundamente nisso.

E no que mudou de visão? Trinta anos depois, desconfio bastante da palavra “comunidade” quando ela designa um fechamento identitário: minha comunidade, minha origem, minha memória, meu deus, minha língua contra os seus. O mundo contemporâneo nos obriga a ultrapassar essas antigas seguranças. Portanto, hoje Texaco seria para mim um Lugar aberto: um espaço onde se pode criar raízes sem se enraizar contra o Outro; onde se pode preservar uma memória sem transformá-la em fronteira; onde se constroem solidariedades sem exigir que os que chegam se tornem semelhantes.

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Daí a ideia do manguezal? Um manguezal, justamente, nunca é puro. Nele a água doce encontra a água salgada. A terra interage com o mar. As raízes se embaralham para criar algo complexo. Inúmeras espécies encontram ali refúgio e começos. É talvez isso que Texaco continua a me dizer: habitar dignamente um lugar é aprender a abri-lo para o mundo. Nosso Lugar se torna, então, nossa gramática do mundo.

Nas suas últimas obras publicadas no Brasil, o senhor insiste no conceito de mundialidade, uma alternativa à globalização. Qual o maior obstáculo à mundialidade hoje? Gostaria de fazer aqui uma distinção importante entre globalização [mondialisation] e Mundialidade [Mondialité]. A globalização já está aqui. Inclusive, ela triunfou em muitos aspectos. Trata-se da interrelação do mundo organizada principalmente pela economia, pelos mercados, pelas finanças, pela circulação de mercadorias, de capitais e, hoje, de dados. Ela transforma a Terra em recursos e os seres humanos em produtores, consumidores ou dados exploráveis. A Mundialidade, noção que devo a Édouard Glissant [escritor e pensador da Martinica], é praticamente o oposto disso. Designa a consciência sensível de que agora vivemos em um mundo onde tudo se encontra com tudo, onde nenhum povo, nenhuma cultura, nenhuma língua, nenhum indivíduo pode pretender constituir o centro. Somos lançados em uma totalidade feita de diferenças, opacidades, interdependências e imprevisibilidades. O principal obstáculo à Mundialidade é, portanto, na minha opinião, o imaginário de dominação que interiorizamos. Ele persiste no capitalismo neoliberal, que faz da economia a medida de todas as coisas; persiste nos velhos ímpetos imperiais, nos nacionalismos, nos racismos, nos fundamentalismos e em todas as nostalgias de uma identidade pura ou uma fronteira protetora.

E assim o ser humano se interessa pelo recurso alheio (verba, dado etc.), mas não pelo outro, ou os outros, em si? Já estamos objetivamente “em Relação”, mas nossos imaginários ainda são amplamente organizados pela separação, pela hierarquia, pela conquista e pela hierarquização das experiências humanas. É esse descompasso que produz boa parte das convulsões contemporâneas. Isso se assemelha mais a uma “submissão à relação” [mise-sous-relation] do que a uma “colocação em Relação” [mise-en-Relation] verdadeira, na qual tal imaginário não teria mais espaço para se desenvolver. A principal tarefa política seria, portanto, passar de uma globalização imposta, dominada pelo mercado, para uma Mundialidade vivida, inspirada em um imaginário e em uma poética da Relação. Isso pressupõe, portanto, sair do humanismo vertical que coloca o ser humano no topo da criação. Não somos donos da Terra. Somos uma parte minúscula do mundo vivo e algo insignificante no universo. A próxima política verdadeira deverá, portanto, ser uma política da Relação: entre os povos, entre os indivíduos, mas também entre o ser humano e todo o mundo vivo, entre todo o mundo vivo e o universo.

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Como a epistemologia crioula, que o senhor trabalha em seus livros, pode contribuir para salvar esse mundo marcado por desigualdades e ameaças sociais e ambientais? Eu desconfiaria da palavra “salvar”. Nenhum pensamento vai salvar o mundo. Mas determinados pensamentos podem nos ajudar a mudar de imaginário, e mudar de imaginário já é algo considerável. A experiência crioula pode nos ensinar muito.
A crioulização não se refere a uma mestiçagem feliz e harmoniosa. Nas Américas, ela começa com uma catástrofe: conquista, genocídio dos povos indígenas, tráfico de escravizados, escravização, colonização, Plantação. Línguas, culturas, deuses, memórias e concepções de mundo foram postos juntos de maneira brutal. E, no entanto, no coração dessa violência, surge o inesperado: línguas crioulas, o jazz, a biguine, o samba, o reggae, culinárias, imaginários, novas maneiras de sentir e habitar o mundo. Os resultados desses processos são as crioulidades, todas diferentes.

Então não falamos em uma, mas diversas crioulidades? A crioulidade martinicana não é a crioulidade cubana, haitiana ou brasileira. O que essa experiência nos ensina é que precisamos aprender a pensar sem reduzir. Manter juntos o contraditório e o antagônico. Admitir a opacidade. Conectar sem fundir. Preservar as diferenças sem transformá-las em absolutos. Compreender que uma identidade nunca é uma essência, mas um devir. E, acima de tudo, aceitar que o encontro verdadeiro produza algo que ninguém poderia prever. É isso que poderia ser uma epistemologia crioula: não uma ciência reservada aos crioulos, mas um conhecimento da complexidade relacional. A situação brasileira é, desse ponto de vista, um laboratório formidável para nossa reflexão sobre essa noção de “Relação”.

Por quê? Ela é particularmente valiosa diante da catástrofe ecológica. A própria ecologia nos ensina que nenhum ser vivo existe sozinho. Uma floresta é Relação. Um manguezal é Relação. Um recife de corais é Relação. O próprio corpo humano já é, por si só, um ecossistema de relações. Precisamos, portanto, passar de uma mentalidade de domínio para uma mentalidade de interdependências; do território fechado para o Lugar aberto; da identidade-raiz para a identidade-relação; de um humanismo vertical para uma plenitude horizontal do vivo. A crioulização nos ensina, em última análise, algo muito simples e muito difícil: aquele que realmente encontra um Outro diferente de si mesmo nunca permanece intacto: entra em devir — e talvez seja aí que comece a vida, que, por natureza, é “um devir em Relação”.

Diante da onipresença das telas e da vida digital, o que somente a leitura e a literatura podem oferecer à humanidade? Não acho que seja preciso defender o livro em detrimento das telas. Isso já seria perder a batalha. A literatura existia antes do livro. Nas plantações escravocratas das Antilhas, o contador de histórias crioulo levantava-se à noite. Ele não tinha biblioteca, papel ou editora. Tinha sua voz, seu corpo, a noite e aqueles que o ouviam. No entanto, em sua palavra, algo de literário já emergia: um poder capaz de reumanizar, de abrir possibilidades ali onde o sistema escravocrata pretendia ter encerrado tudo que é possível. O suporte muda. A necessidade permanece. As telas em si mesmas, portanto, não me preocupam. O que me preocupa é quando elas organizam uma captura permanente da atenção, quando nos jogam de uma informação para outra, de uma imagem para outra, de uma indignação para outra, e acabam reduzindo o mundo a um fluxo consumível. Mas todas essas distorções poderão ser corrigidas quando tivermos adquirido uma verdadeira cultura dessas novas ferramentas. Isso passa pela escola e pelas políticas culturais. Enquanto isso, a literatura realiza o movimento quase inverso.

Como assim? Ela nos devolve o tempo interior. Restabelece a opacidade ali onde os algoritmos querem identificar tudo. Reintroduz o silêncio entre as informações. Transforma um estrangeiro abstrato numa presença sensível. Permite-nos adentrar numa consciência que não é a nossa, sem precisarmos possuí-la nem mesmo compreendê-la inteiramente. Mas, acima de tudo, a literatura não se limita a descrever o real: ela nos confronta com o impensável do real. Ela abre o que chamo de possibilidades infinitas. É por isso que continua sendo politicamente valiosa, mesmo não tendo quase nenhum poder imediato. Um romance não impede uma guerra. Um poema não derruba uma ditadura. Mas a literatura pode modificar profundamente essa zona obscura de onde surgem nossas percepções, nossos desejos, nossas recusas, nossas maneiras de considerar o Outro. Ela trabalha o imaginário e, assim, nos ajuda a nos recriarmos incessantemente, e a continuar incessantemente recriando um mundo outro. E, num mundo saturado de informações, de imagens, de inteligências técnicas e, agora, artificiais, essa função talvez se torne ainda mais importante: preservar em nós a capacidade de sermos afetados, surpreendidos, comovidos — e, portanto, de criar em Relação. Pois nosso desafio não é apenas saber mais. É sermos capazes de imaginar e de nos tornarmos aquilo que ainda não existe.

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