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O dia em que os incas conquistaram a Europa

O autor francês Laurent Binet inverte os lados dos personagens históricos para reescrever o caminho das civilizações

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 22 jun 2026, 17h00 | Atualizado em 22 jun 2026, 19h49
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“E se..?” Questões que começam assim são um terreno fértil para a imaginação e a literatura. E se os nazistas tivessem vencido a guerra? E se Dom João VI não tivesse zarpado e escapado das invasões napoleônicas? E se Trump tivesse perdido sua primeira eleição?

A realidade pode ser um baque ou um alento – e a fantasia, construir mundos de sonhos ou pesadelos. Ou talvez nenhuma coisa nem outra.

Então que tal essa? E se os incas tivessem desembarcado na Europa e, por meio de alianças, conquistado o pedaço? Eis a história alternativa do Ocidente contada pelo escritor francês Laurent Binet em Civilizações, publicado pela Companhia das Letras.

Binet é um mestre em se apropriar de episódios biográficos ou históricos e subvertê-los dentro das quatro linhas da ficção. É o que faz neste romance que começa com a diáspora viking e seus contatos com povos ameríndios e, a partir das querelas entre as lideranças incas, projetará o famoso imperador Atahualpa pelos mares até a costa europeia, onde, mesmo com um pequeno séquito, irá assenhorar-se dos domínios do velho continente.

Capa do livro Civilizações de Laurent Binet, com ilustração de um cortejo inca sob um sol dourado estilizado. Pessoas em trajes tradicionais carregam um líder em liteira e um disco de ouro, acompanhadas por uma onça e uma lhama. O céu é azul claro com nuvens esparsas
Civilizações, de Laurent Binet (tradução: Rosa Freire D’Aguiar; 336 páginas; Companhia das Letras) (Capa: Companhia das Letras/Divulgação)
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Nesse jogo de espelhos, não é mais Pizarro que se apodera dos andinos, mas um ramo dos incas que, muito bem aconselhado por uma mulher, irá impor seu jugo e fazer o deus Sol brilhar na Europa – as mulheres, aliás, são bem mais reconhecidas no passado de Binet do que no nosso. Até a paisagem muda, com papas e quinoa sendo cultivadas no solo da Espanha.

O imperador germânico Carlos V, o rei inglês Henrique VIII, o filósofo francês Montaigne e até o escritor espanhol Cervantes, para ficar apenas com célebres nomes do lado de lá do Atlântico, são convidados a entrar nessa trama de papéis invertidos – trama que nos confronta com nossas heranças coloniais, escravocratas e extrativistas e cutuca a realidade séculos depois dos acontecimentos reais ou imaginados. Afinal, e se…

Com a palavra, Laurent Binet.

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Como surgiu a ideia de reescrever a história da civilização ocidental com este romance? Sempre adorei histórias alternativas, esses “e se…”, mas, em geral, quase sempre se trata daquela questão: “e se os nazistas tivessem vencido a guerra?” Eu queria trabalhar em um evento que tivesse tido um impacto ainda maior na história mundial do que a Segunda Guerra. E acho que não existem eventos históricos que tenham tido efeito tão grande quanto as viagens de Cristóvão Colombo, seguidas pela conquista das Américas.

Mas houve algum episódio que lhe deu esse insight em particular? Quando fui convidado para a Feira do Livro de Lima, tive a oportunidade de explorar as civilizações pré-colombianas, em particular os incas. Ao retornar, li um livro de Jared Diamond, o Armas, Germes e Aço, que narrava como Pizarro capturou o imperador inca Atahualpa com apenas duzentos homens em Cajamarca. Ele fez a seguinte pergunta: “Por que foi Pizarro que veio a capturar Atahualpa no Peru, e não Atahualpa que capturou Carlos V na Europa?” Essa pergunta foi realmente o gatilho para o meu livro. Pensei comigo mesmo: “Por que não?”

Seu livro dá às mulheres um papel de liderança em decisões e eventos históricos. Esse é um dos principais contrastes com a história como a conhecemos? Talvez, mas, na verdade, se você procurar por mulheres na história, você as encontrará: Luísa de Saboia, mãe de Francisco I, rei da França; Maria e Margarida de Habsburgo, tia e irmã de Carlos V, que foram governadoras dos Países Baixos, uma das províncias mais ricas de seu império; Catarina de Médici, que foi uma das maiores líderes que a França já conheceu… Ou, na América Latina, por exemplo, La Malinche, sem a qual Cortés jamais teria conseguido conquistar o México. La Malinche, aliás, inspirou várias das minhas personagens femininas, como Higuénamota.

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Como foi o processo de tentar conciliar precisão histórica com liberdade ficcional? Tentei construir minha história como um espelho da história real. Para isso, observei como Cortés e Pizarro conseguiram conquistar dois imensos impérios com apenas um punhado de homens e me perguntei se a estratégia ou a situação deles poderiam ser transpostas para a situação contrária. Por exemplo: com quem os incas poderiam ter se aliado contra a Espanha? Com ​​a França, mas também com os camponeses alemães, que já haviam se revoltado alguns anos antes, ou com os judeus e muçulmanos da Espanha, perseguidos pelos Reis Católicos. Além disso, os astecas confundiram Cortés com um deus, a serpente emplumada, principalmente por causa de sua armadura e capacete. Mas os europeus, na época de Copérnico e do heliocentrismo, também poderiam ter se impressionado com Atahualpa, que afirmava ser o filho do Sol. E Henrique VIII, na Inglaterra, talvez quisesse se converter à religião inca, que permitia a poligamia etc.

Se os incas tivessem conquistado a Europa (e até ocupado o Brasil, como sugere seu livro), estaríamos vivendo em um mundo melhor? Não sei, mas certamente seria diferente. Sem dúvida, teríamos uma economia mais planejada, não um capitalismo desenfreado. Poderíamos ter tido um sistema de seguridade social mais cedo, já que eles contavam com alguma forma de proteção para todos. Mas também teríamos sacrifícios humanos. Como disse Montaigne: “Cada um chama de barbárie o que não é seu costume.”

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