O ditador que amava livros e cometeu crimes terríveis contra a humanidade
O historiador britânico Geoffrey Roberts fala a VEJA sobre a sua obra recém-publicada no Brasil, "A Biblioteca de Stalin"
Um dos ditadores mais brutais do século XX também foi um dedicado leitor. É essa faceta pouco conhecida do dirigente soviético Josef Stalin que descobrimos em A Biblioteca de Stalin, do historiador Geoffrey Roberts, que acaba de chegar às livrarias pela Matrix Editora.
A partir dos remanescentes da coleção particular do tirano – que chegou a ter mais de 25 000 volumes -, o pesquisador britânico reconstrói o perfil intelectual de Stalin sem romantizá-lo ou suavizar os crimes contra a humanidade que ele cometeu.
Para o professor, compreender esse lado do líder da antiga União Soviética é essencial para desvendar como ele montou um regime autoritário que resistiu por décadas – e deixou heranças na Rússia atual.
Com a palavra, Geoffrey Roberts.
O que o levou a escrever o livro? Foi a disponibilidade de uma fonte tão fantástica: os remanescentes da coleção pessoal dos livros de Stalin. É, de longe, a fonte mais íntima do mundo interior do ditador. Ela nos ajuda a ver o mundo através de seus olhos. A vida de Stalin como leitor – a maneira como lia e anotava livros – não deixa dúvidas de que ele era um intelectual sério, com convicções intelectuais e políticas profundas e autênticas.
Qual foi a descoberta mais impressionante durante suas pesquisas? O mais importante para mim foi a revelação de que o apego de Stalin às ideias era tão emocional quanto intelectual. De fato, foi a profundidade emocional da intelectualidade de Stalin que lhe permitiu presidir um regime que matou milhões de pessoas inocentes – tudo em nome da busca pela utopia.
O lado intelectual é um diferencial entre Stalin e outros ditadores como Hitler ou Mussolini? O modelo de Stalin era Lênin – um líder político que era tanto um intelectual quanto um homem de ação. Assim como Stalin, Lenin tinha muitos livros. Foi a bibliotecária de Lenin quem transformou a coleção de livros desorganizada de Stalin em uma biblioteca pessoal. Embora Stalin fosse um intelectual sério – um buscador de conhecimento ao longo da vida e um verdadeiro crente no poder das ideias –, ele não estava no mesmo nível de Lênin como teórico. Mas Stalin tinha a capacidade de esclarecer, simplificar e operacionalizar ideias complexas. Na verdade, não foi Lenin quem fez o Estado soviético inicial funcionar, foi Stalin. Lênin liderou os bolcheviques à vitória na Guerra Civil Russa, mas foi Stalin quem triunfou sobre Hitler na Segunda Guerra Mundial. Em termos de ditadores intelectuais comparáveis, o único que me vem à mente é Mao Tsé-Tung, que também se considerava um fiel seguidor de Lênin.
Ao destacar a força intelectual de Stalin, não corremos o risco de romantizar o ditador? O risco é mínimo, desde que contemos toda a história com veracidade, e é por isso que meu livro contém muitas páginas dedicadas ao terror de Stalin e às repressões em massa de sua época. Desde que mantenhamos uma visão equilibrada e baseada em evidências, não há risco moral em buscar uma compreensão maior de Stalin. Se você não entender Stalin como intelectual, jamais compreenderá a natureza do regime autoritário que ele criou – um sistema que perdurou por quatro décadas após sua morte, em 1953 – e que, em certos aspectos, persiste na Rússia atual.
Quais foram os livros favoritos de Stalin, o leitor? Quando criança, o grande livro da vida de Stalin foi a Bíblia cristã! Ele a estudou profundamente quando estava no seminário preparando-se para ser padre. De fato, a base da inteligência emocional de Stalin na vida adulta foi a piedade cristã que ele recebeu na infância. O ditador mudou suas crenças quando jovem, mas manteve a emotividade de suas convicções religiosas. A biblioteca pessoal de Stalin foi dispersa após sua morte, mas seus remanescentes mostram que Lênin era seu autor favorito e História, sua matéria predileta. Ele também apreciava os clássicos edificantes da literatura russa e mundial: Victor Hugo, Shakespeare, Cervantes, Tchekhov, Gogol, Dostoiévski e Gorki.
Ele teve um escritor predileto? Stalin também gostava de dar boas risadas, então, se eu tivesse que adivinhar seu escritor favorito, seria o satirista russo do século XIX Mikhail Saltykov-Shchedrin, cuja sátira à sociedade czarista agradava aos revolucionários da geração de Stalin. Para Stalin, a política na literatura era sempre o aspecto que mais lhe interessava.






![[RELAMPAGO] PAYWALL (728 x 90 px) Banner laranja com texto OFERTA RELÂMPAGO em amarelo e branco, ao lado de Você pediu, a gente ouviu! em branco. À direita, capas de revistas e um celular com tela ligada, e um ícone de árvore à esquerda.](https://beta-develop.veja.abril.com.br/wp-content/uploads/2026/07/RELAMPAGO-PAYWALL-728-x-90-px.gif)
![[RELAMPAGO] PAYWALL - 328x79 Banner laranja com texto OFERTA RELÂMPAGO em amarelo neon, acompanhado de um raio. Abaixo, Você pediu, a gente ouviu!. À direita, capas de revistas: SUPER com um copo de milk-shake, VEJA com paisagem e MUNDO ESTRANHO com carros. Um ícone de árvore estilizada no canto superior direito](https://beta-develop.veja.abril.com.br/wp-content/uploads/2026/07/RELAMPAGO-PAYWALL-328x79-1.gif)