Poeta: o que faz, como cria e do que sobrevive essa espécie
Um papo franco, divertido e poético com o escritor Bernardo Ceccantini, que está com novo livro na praça
Bernardo Ceccantini já foi garçom, professor de muay thai e fotógrafo. Sabe fazer pizza, estudou letras e trabalhou em uma grande biblioteca. Hoje é poeta.
Um jovem poeta. Nasceu no interior paulista em 1995 – não assistiu, portanto, à Copa do Mundo de 1994, minha régua temporal sobre quão nova ou velha é uma pessoa -, migrou e conectou-se com a cidade de São Paulo. Ele não me disse isso. A gente descobre pelos versos de Vida Sortida, recém-lançado pela Editora 34.
Abaixo e além das nuvens, entre arranha-céus e corridas de ônibus, nas ruas e entre quatro paredes, diante de parentes ou estranhos… Tudo vira matéria-prima para esse autor que, sem formalismo ou sisudez (pelo contrário), nos convida a experimentar o que é a tal da poesia – e a conhecer o que faz e como (sobre)vive essa espécie que não, não está em extinção.
Com a palavra, o poeta.
Seus poemas comportam crônicas, causos, registros da cidade… Por que a poesia, e não a prosa? Está aí uma pergunta que me fazem os amigos e familiares com uma certa resistência à poesia. Seja uma resistência irônica, porque sempre parece ser um pouco ofensivo e constrangedor uma pessoa viva fazer poesia; mas muitas vezes uma resistência bondosa, porque gostam dos meus poemas e acham que a migração para a prosa seria um jeito de eu poder ganhar algum dinheiro escrevendo. Entretanto, acho que a poesia desde sempre comportou maravilhosamente crônicas, causos e registros da cidade (Drummond, Drummond, Drummond!), conseguindo chegar à medula desses gêneros e também questionar as suas convenções. No meu caso, logo descobri que não gosto tanto de frases quanto gosto de versos. Que podem ser pensados, de todo modo, como frases muito cantantes, concretas, carnais; frases que surpreendem as frases anteriores e seduzem as posteriores; frases que, em poucas sílabas, condensam civilizações, paixões, perturbações; frases que não se esgotam na primeira leitura, que aceitam uma coisa e outra coisa, que não são, por assim dizer, semanticamente monogâmicas. Enfim, foi sempre através dos poemas que consegui expressar de maneira mais fiel o que vivi, senti ou imaginei. Isto é, colocando o leitor não apenas no plano discursivo, predominante na prosa narrativa ou ensaística, mas no plano concreto, onde som, forma e sentido se encontram, e a realidade pode ficar ainda mais real.
As pessoas deveriam ler mais poesia? Muito sinceramente: as pessoas não devem ler poesia; elas podem ler poesia. Faz algum sentido perguntar por que abraçar o seu sobrinho, por que comer bolo de laranja, por que assistir a um duo de clarinetes? A gente está vivo pra quê, senão pra gostar com mais variedade e cada vez mais profundamente? Ler poemas pode ser uma atividade tão prazerosa quanto qualquer outra, ainda que seja um prazer insubstituível (sentimento que encontra som que encontra forma que encontra alguém que me encontra) e que muitas vezes vem misturado a tantas outras sensações. E, se não está sendo assim, sempre é possível trocar de poeta, mesmo que depois você volte e dê mais uma chance. Um único escritor jamais responderá pelo gênero todo (se ainda quisermos falar em gêneros) e que delícia é desligar o celular por uma hora e folhear as estantes das livrarias e bibliotecas. Nesta tarde, por exemplo, eu sinto que não seria muito feliz lendo meu querido Ezra Pound ou meu querido João Cabral. O que não significa que a poesia esteja ameaçada, o que não significa que eu não desmarcaria qualquer compromisso dos próximos três dias se o porteiro interfonasse dizendo que chegaram minhas últimas encomendas: os últimos livros da Adélia Prado e do Rodrigo Lobo Damasceno.
Mas é possível ganhar o pão nosso de cada dia com a poesia? Com direitos autorais, não conheço ninguém que consiga. O que existe, mas não em grande quantidade, são poetas que vivem de dar cursos e oficinas de poesia, mas mesmo esses muitas vezes têm que fazer frilas para pagar as contas ou pedir dinheiro emprestado. Então, para ser poeta no Brasil, se você não é bem-nascido, tem que ter outra fonte de renda. O “pão nosso de cada dia” que você ganha sendo poeta é apenas um: a poesia. Não paga o feijão nem a ressonância, e não é garantia contra a depressão. E, mesmo depois de resolver as condições materiais e mentais mínimas, se não for muito disciplinado e não quiser com todas as forças ser poeta, se aposenta no primeiro livro ou vira poeta bissexto.
Os melhores poemas são aqueles que rondam a cabeça “antes do papel”, como você sugere em um de seus versos de Vida Sortida? Nunca tive um poema que estivesse pronto na cabeça. O poema começa de verdade no momento em que a caneta toca o papel ou começa a percussão de teclado. E, quanto menos eu tentar controlar o cavalo instável do poema, me despindo dos meus desejos e intransigências, mais costuma dar certo. Ainda que, num segundo momento, é claro, eu faça as vezes de leitor-revisor-açougueiro, obrigatoriamente irônico e castrador. Em outras palavras, entendo o poeta como um especialista na reação e não na ação, que reage inclusive ao poema que ele gostaria de escrever e não foi possível, que às vezes se vê obrigado a escrever o antipoema no lugar desse poema ideal.
Então nem todo poema sobrevive? Vamos dizer que para cada dez ideias de poemas absolutamente geniais, nem meio poema sobrevive. Já achei isso desesperador, mas confesso que hoje acho hilário. A ideia de escrever um texto sabendo qual será o trajeto verbal me parece equivocada e contrária à poesia, invenção para um mundo em que o sal acaba e os pneus furam, em que as pessoas se apaixonam numa fila do Poupatempo, em que os amigos de repente morrem, de repente sobrevivem. Quando sento para escrever o poema, não quero cimentar as portas do acaso, quero justamente descobrir imagens e sonoridades inesperadas.






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