A safra de protestos na França dividida
Na terça-feira 29, ao menos 440 pessoas foram detidas, a maioria menores de idade, durante manifestações contra cortes de gastos públicos
As manifestações populares na França costumam ter coreografia áspera, com lixeiras e carros incendiados, pedras e garrafas lançadas contra a polícia, gás lacrimogêneo e prisões. Na terça-feira 29, ao menos 440 pessoas foram detidas, a maioria menores de idade, durante protestos contra cortes de gastos públicos, dias antes da apresentação do projeto de orçamento do governo, que prevê um ajuste fiscal de 54 bilhões de euros, diante de uma dívida pública em níveis inéditos. Segundo a central sindical CGT, mais de 300 000 pessoas participaram de atos em todo o país, sendo 70 000 em Paris. Servidores públicos cruzaram os braços contra o congelamento de salários, corroídos pela inflação. Estudantes bloquearam escolas para reclamar de salas superlotadas. “Mesmo com 40 graus, nossos salários continuam congelados”, dizia uma faixa na manifestação em Lyon, após um verão de calor intenso. Desde 2017, os salários públicos subiram apenas duas vezes, com valorização de 5% — a inflação acumulada no período tocou em 24%. Para o presidente Emmanuel Macron, que já não pode disputar um terceiro mandato, a turbulência tem uma camada de dificuldade. A pouco mais de seis meses da eleição presidencial de 2027, ele vê seu legado afetado pela insatisfação com a economia estagnada, com fortalecimento da extrema direita do partido Reunião Nacional. A agremiação de Marine Le Pen acaba de conquistar um recorde de cadeiras no Senado. A safra de ebulição do ano que vem promete.
Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015






