Carta ao Leitor: Rascunho da história
Não há ferramenta mais adequada para entender a história do que pôr repórteres no coração da notícia, como no especial de VEJA sobre Cuba
Se é verdade que “o jornalismo é o primeiro rascunho da história”, na clássica definição de Philip Graham, um ex-editor do americano The Washington Post, não há ferramenta mais adequada para entendê-la do que pôr repórteres no coração da notícia, ali onde ela ocorre sem piedade. VEJA enviou a Cuba, durante uma semana, o jornalista Caio Saad. O rigoroso e cuidadoso relato de Saad nesta edição é resultado de experiências que só podem ser descritas por quem as vive de perto — sem o olhar distante, e quase sempre inapropriado, dos raciocínios construídos apenas por impressões rasteiras. Ele esteve em hospitais que lutam para atender os pacientes, sem medicamentos e sem energia elétrica para movimentar os aparelhos. Acompanhou o drama, em Havana e outras cidades, do acúmulo de lixo nas ruas, em decorrência da incapacidade de abastecer de combustível os caminhões de coleta. No sábado 21, vivenciou um apagão de dezoito horas. “A sensação é de um país em decomposição, em que a moeda não vale nada e a comida é pouca, mesmo para quem tem algum dinheiro”, relata Saad.
Ao drama que não é de hoje, resultado de más escolhas econômicas da ditadura castrista, some-se o dedo em riste de Donald Trump, que a seu estilo anunciou: “Cuba é a próxima” — ainda que, na semana passada, tenha autorizado a aproximação de um petroleiro russo nas águas caribenhas. Conhecer o cotidiano de Cuba no precipício é também o modo de puxar um fio da meada de desastres. O grito de angústia, acompanhado do inevitável desejo de partir, é o desfecho de uma nação que ao longo de décadas orbitou como parasita ideológico ao redor de parceiros mais poderosos financeiramente, a começar pela União Soviética e, mais recentemente, a Venezuela. Sem os padrinhos, a derrocada era esperada. Os problemas atuais, portanto, não começaram com Trump. O fracasso veio muito antes, talvez desde o nascedouro, e nem mesmo a retórica de Fidel Castro (1926-2016) escondeu os estragos.
Seria uma cruel ironia histórica se, tantos anos depois da entrada triunfal dos barbudos revolucionários em Havana, algum tipo de enviado dos Estados Unidos fosse ovacionado por uma população faminta e enfurecida, desesperada por alguma mudança, qualquer coisa, porque a existência se tornou insuportável, como revelam a reportagem de Saad e os vídeos que serão postados nas redes sociais e no site de VEJA a partir dos próximos dias. Do escritor cubano Leonardo Padura, em entrevista exclusiva concedida em sua casa, no bairro de Mantilla: “Não sou economista nem analista político, ou seja, não posso avaliar com exatidão o que significam determinados movimentos. Sou um observador da realidade que escreve sobre essa realidade. Acho que muita gente em Cuba perdeu a esperança”.
Publicado em VEJA de 3 de abril de 2026, edição nº 2989





