Círculo do terror: a verdadeira face dos auxiliares de Hitler
Em livro sobre a Alemanha nazista, historiador britânico desmonta a percepção de que eles eram monstros sádicos e psicopatas sem erudição
Eles tocavam piano para os amigos, levavam violinos para o trabalho e vinham de famílias tradicionais. Longe de ser monstros sádicos ou psicopatas saídos da ficção, os arquitetos e cúmplices do Holocausto eram, segundo o historiador britânico Richard J. Evans, pessoas perturbadoramente normais. Em Seguidores de Hitler, que será lançado em breve no país pelo selo Crítica, da editora Planeta, o autor mergulha na biografia de 22 figuras da Alemanha nazista para responder a uma pergunta que ainda assombra o mundo: como cidadãos de classe média, com emprego e família, ignoraram restrições morais para se tornar engrenagens de um dos regimes mais letais da história?
A obra foge das teorias de patologia individual e analisa desde líderes do topo da hierarquia até executores e cidadãos anônimos. Tratar os seguidores de Hitler como psicopatas sanguinários, para Evans, é uma saída intelectualmente fácil e perigosa. “Eu queria fugir do tipo de imagem que muitas dessas pessoas tinham, como monstros ou motivadas por alguma deformidade psicológica, e trazê-las de volta a um nível humano”, afirmou o autor a VEJA. Para ele, enxergá-las apenas como aberrações cria uma distância ilusória e evita as perguntas mais incômodas sobre como indivíduos comuns cometem crimes terríveis.
Outras obras têm buscado humanizar, sem jamais inocentar, a imagem dos perpetradores — caso do filme Zona de Interesse (2023), de Jonathan Glazer, adaptado do romance homônimo de Martin Amis. A trama acompanha a vida doméstica pacata de Rudolf Höss, comandante de Auschwitz, e sua esposa, Hedwig, que cultivam um jardim familiar do outro lado do muro do campo de concentração. A relação de Evans com o filme vai além da coincidência temática: o historiador prestou consultoria a Amis na fase literária do projeto, corrigindo cerca de cinquenta erros factuais do manuscrito. Ele reconhece que a adaptação diverge do livro ao retratar um casamento feliz e burguês — o que a autobiografia do verdadeiro Höss desmentia —, mas considera o longa superior ao romance. Construído a partir dos sons abafados vindos do outro lado do muro, enquanto a família toma sol e cuida das plantas, o filme reforça o argumento do livro: o mal absoluto não exige presas bestiais, apenas se hospeda na frieza cotidiana de quem está voltado para os próprios privilégios.
É justamente esse traço burguês que dá tom inquietante a Seguidores de Hitler. Boa parte dos grandes burocratas da morte recebera educação tradicional alemã e cultivava o gosto por literatura e música clássica: Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda, escreveu um romance; Reinhard Heydrich, chefe de segurança do Reich e um dos arquitetos do Holocausto, não viajava sem seu violino; Hans Frank, oficial que geria a Polônia ocupada, repousava as mãos sobre o piano antes de coordenar massacres. Uma das poucas mulheres próximas ao Führer, a cineasta Leni Riefenstahl usou seu talento para mitificá-lo. A sensibilidade intelectual, é evidente, não ergueu barreira moral alguma.
O que os impulsionou à barbárie, então? Evans não encontrou uma patologia individual capaz de explicar o nazismo desses homens. Muitos tiveram infâncias confortáveis. O gatilho estrutural identificado em sua pesquisa foi um colapso abrupto de status social na juventude, ligado com frequência a pais que perderam o emprego. Essa derrocada pessoal somou-se ao trauma coletivo da derrota na I Guerra Mundial e à catástrofe econômica alemã dos anos 1920. Em meio à hiperinflação e à ameaça de caos social, a ideologia nazista seduziu a classe média com uma falsa solução: a culpa por tudo recairia sobre a minoria judaica, tratada como fonte de todas as ruínas e da qual os cidadãos alemães passaram a acreditar que precisavam se “defender” — e, no limite, exterminar.
O valor da pesquisa de Evans se confirma ao confrontarmos as democracias contemporâneas. O alerta soa alto numa época de redes sociais que fragmentam o conceito de verdade. “Vivemos numa época em que homens fortes, ou aspirantes a ditadores, estão emergindo novamente e a democracia está sob ameaça”, pondera o historiador. Ao desmascarar os seguidores de Hitler como homens e mulheres dolorosamente comuns, Evans propõe um desafio que não quer calar: existem, nos dias atuais, barreiras morais e democráticas firmes o suficiente para inibir o fascínio pelo autoritarismo? A história dirá.
Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004







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