Guerra comercial com Canadá ameaça encarecer a ida ao banheiro nos EUA
Papel higiênico e derivados estão entre as categorias mais afetadas pela retaliação canadense ao tarifaço de Trump, enfrentando taxas de até 50%
Após o acordo comercial entre os Estados Unidos e o Canadá ir pelo ralo na semana passada, americanos podem passar a pagar mais caro para ir ao banheiro. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, anunciou na terça-feira 25 que vai igualar as tarifas do governo do presidente Donald Trump “dólar por dólar”, revelando uma lista de mais de 700 mercadorias importadas do vizinho que estarão sujeitas a taxas de 15% a 50% a partir de 8 de setembro — entre a principal delas, o papel higiênico.
Os Estados Unidos importaram US$ 328 milhões (quase R$ 1,7 bilhão) em papel higiênico do Canadá em 2024, segundo o Banco Mundial, o que faz do país, de longe, o maior exportador do produto para os americanos. Grandes varejistas como a Costco obtêm grande parte de seus produtos de papel no país.
Tem tudo para ser um baque explosivo. Os Estados Unidos são responsáveis por mais de 20% do consumo global de papel higiênico, apesar de terem apenas 4% da população mundial. O americano médio usa 141 rolos por ano, ocupando o primeiro lugar no pódio, logo à frente dos alemães (134 rolos).
A vida pode ficar mais cara para os americanos em outros setores para além do banheiro. A retaliação canadense abrange aproximadamente US$ 20 bilhões (R$ 103,7 bilhões) em produtos importados dos Estados Unidos: aço e alumínio americanos serão taxados em 50%, enquanto eletrodomésticos, ferramentas, produtos florestais, equipamentos ferroviários e pescados também entraram na lista.
O governo Trump, contudo, insiste que “não há nenhuma possibilidade” de que a disputa comercial seja sentida pelos consumidores.
“Os fundamentos são bons”, disse Jamieson Greer, representante comercial dos Estados Unidos. “Não acho que isso vá afetar nada.”
Negociações desandaram
A reação de Carney veio após negociações promissoras sobre um acordo comercial para suspender o tarifaço de Trump serem interrompidas na sexta-feira passada.
De acordo com o primeiro-ministro, ele simplesmente não poderia assinar um “acordo ruim”, que, segundo o jornal americano The New York Times, incluía disposições como a exigência de que Ottawa acompanhasse a política comercial de Washington para com outros países — algo que, de acordo com a administração de Carney, ameaçaria a soberania do Canadá em meio a tratativas com seus próprios parceiros, como o Brasil.
Outro ponto de atrito foi a demanda de Washington pelo cancelamento de um programa criado para apoiar indústrias afetadas pelo tarifaço, conhecido como “Buy Canadian”, que orienta agências do governo a priorizarem a aquisição de produtos nacionais para projetos do setor público — como comprar aço canadense para a construção de uma ponte. Uma prática, aliás, existente em muitos países, inclusive nos próprios Estados Unidos.
Na sequência do desafio do premiê canadense, Trump reimpôs uma taxa de 50% sobre parte das importações do vizinho (cerca de R$ 20 bilhões em produtos, ou 5,5% das exportações do país) e anunciou na segunda-feira 24 que vai aumentar tarifas sobre carros e caminhões fabricados lá a partir de 2027. “O Canadá quer os benefícios de ser um estado, sem ser um”, escreveu ele em sua rede, a Truth Social, na véspera.
Ex-parceiros
A guerra tarifária entre Estados Unidos e Canadá se dá depois de mais de 20 anos de acordos amigáveis, expondo um problema que não existe em conflitos comerciais convencionais: as duas economias são profundamente interligadas.
O Canadá importa cerca de US$ 272 bilhões em mercadorias americanas por ano, enquanto os Estados Unidos são, de longe, o principal destino das exportações canadenses.
Isso torna a retaliação uma arma limitada para Ottawa. Enquanto ainda é possível atingir empresas americanas e criar pressão política, também fica mais exposta aos efeitos da disputa.
Por isso, a decisão de Carney tem um componente político tão importante quanto econômico. Uma pesquisa de opinião publicada no último final de semana mostra que, por ora, o premiê tem o apoio dos canadenses: impressionantes 76% dos entrevistados afirmaram que o governo agiu corretamente “ao recusar os termos oferecidos e encerrar as negociações sem um acordo comercial” com os Estados Unidos. Só 13% disseram o contrário; 11% não souberam responder.
Conforme o consumidor canadense sente, ele também, os impactos da disputa, porém, o respaldo deve diminuir. A pergunta que não quer calar: quem vai piscar primeiro?







