Sagrada Família: o começo do fim?
No centenário da morte de Gaudí, a igreja inaugura, enfim, sua torre central — um passo importante, mas não o último nessa obra interminável
Quando questionado sobre o ritmo exasperante das obras de sua criação máxima, a basílica da Sagrada Família, o arquiteto catalão Antoni Gaudí (1852-1926) respondia com serenidade: “Meu cliente não tem pressa”. Talento visionário que transformou a paisagem de Barcelona, na Espanha, Gaudí era católico fervoroso e não deixava dúvidas sobre quem seria o cliente em questão: Deus. Era preciso ter fé, de fato, para acreditar em seu projeto ambicioso. A construção da Sagrada Família começou em 1882 e Gaudí assumiu a direção no ano seguinte, recusando financiamento estatal: queria que o templo fosse custeado por doações privadas e subscrições populares. Isso causou avanço lento e interrupções, como o incêndio na cripta em 1936, durante a Guerra Civil espanhola, que destruiu plantas e modelos originais de gesso. Cem anos após a morte do arquiteto, completados na quarta-feira 10, um quase milagre divino se concretizou: a Sagrada Família comemorou o passo mais importante em seu processo de construção, que agora realmente entrará na reta final, após 144 anos.
Em périplo pela Espanha, o papa Leão XIV passou nessa data por uma Barcelona cheia de expectativa nas ruas para inaugurar a notável torre central da basílica. Essa estrutura impactante, coração do projeto de Gaudí, é coroada por uma cruz tridimensional de 17 metros de altura, feita de vidro e cerâmica branca esmaltada. Fabricada na Alemanha, ela teve seu braço superior instalado como a peça final que encerra o conjunto de seis torres centrais da basílica, projetada para brilhar à noite sobre a cidade catalã. Com essa finalização, o templo tornou-se oficialmente a igreja mais alta do mundo, com 172,5 metros — superando a catedral de Ulm, na Alemanha, que tem 161,5.
A medida não resultou de uma escolha estética. Gaudí calculou a altura para que a torre ficasse exatos 5,2 metros abaixo da colina de Montjuïc, o ponto mais alto de Barcelona, com 177,7 metros. A justificativa tinha base religiosa: para ele, nenhuma criação humana deveria superar a altura de uma obra direta de Deus. No interior do templo, os elementos refletem seu respeito pela natureza. A nave é sustentada por colunas que lembram troncos de árvores, criando uma floresta de pedra. Os vitrais, executados por Joan Vila-Grau, dividem-se cromaticamente: azul e verde predominam no lado leste, na Fachada da Natividade, simbolizando o nascimento de Cristo, enquanto amarelo, laranja e vermelho ocupam o lado oeste, na Fachada da Paixão, aludindo ao poente. Esse espetáculo visual torna o pôr do sol o horário mais procurado por turistas. Entre as figuras santas homenageadas nos vitrais, inclui-se a brasileiríssima Nossa Senhora Aparecida.
Leão XIV presidiu uma missa na basílica e realizou a bênção oficial da Torre de Jesus Cristo. O evento coincidiu com o avanço da canonização de Gaudí no Vaticano — o arquiteto foi declarado venerável pelo papa Francisco em abril de 2025 por suas “virtudes heroicas”. Homenagens ocorreram junto a seu túmulo na igreja. Gaudí morreu em 10 de junho de 1926, aos 73 anos, três dias após ser atropelado por um bonde na avenida de Les Corts Catalanes, enquanto caminhava para rezar. Ele viveu seus últimos anos em voto de pobreza numa sala anexa à construção.
O caminhar dramático das obras da Sagrada Família contrasta com sua popularidade. Ou talvez seja, no fundo, um dos charmes que a tornam tão fascinante para as hordas de turistas que pululam em Barcelona — além de festejar o centenário de Gaudí, a cidade acaba de ganhar da Unesco o título de Capital Mundial da Arquitetura. A basílica recebe quase 5 milhões de visitantes anuais. Em 2025, a arrecadação com ingressos (que custam a partir de 26 euros) somou 134,5 milhões de euros, dinheiro que financia as obras. O volume de visitantes supera o de países inteiros, como o Peru, e é o triplo do total do Cristo Redentor.
A conclusão da torre central não encerra as obras, cuja finalização deve ocorrer entre 2034 e 2035. Os trabalhos pendentes incluem acabamentos internos, até 2028, e a construção da Capela da Assunção e do Batistério. O maior desafio é a Fachada da Glória, projetada como entrada principal. O plano de 1916 prevê uma escadaria monumental sobre a Carrer de Mallorca, mas o espaço foi ocupado por residências ao longo do século XX. As negociações para indenizar os moradores continuam em andamento. Diante de guindastes, os visitantes vivenciam aqueles que parecem ser os últimos passos do milagre do término de uma construção sem fim.
Publicado em VEJA de 12 de junho de 2026, edição nº 2999







