Trump demite Pam Bondi, procuradora-geral dos EUA
Presidente americano teria se frustrado com caos na gestão do caso Jeffrey Epstein e lentidão do Departamento de Justiça em processar rivais
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, demitiu a procuradora-geral Pam Bondi nesta quinta-feira, 2, após crescente frustração com seu desempenho, incluindo a supervisão da divulgação dos documentos relacionados ao caso Jeffrey Epstein.
“Pam Bondi é uma grande patriota americana e uma amiga leal, que serviu fielmente como minha procuradora-geral durante o último ano. Amamos Pam, e ela fará a transição para um novo emprego muito necessário e importante no setor privado, cuja data será anunciada em breve”, escreveu o líder americano em sua rede, a Truth Social.
Ele acrescentou que a procuradora-geral “fez um trabalho excepcional supervisionando uma repressão massiva ao crime em todo o país”, e confirmou que o procurador-geral adjunto, Todd Blanche, assumirá seu cargo de forma interina.
De acordo com uma autoridade ouvida pela agência de notícias Reuters, além da irritação com o drama em torno do caso Epstein, Trump também estaria frustrado com a lentidão de Bondi em abrir processos criminais contra seus críticos e rivais.
Rusga com aliada
Durante os catorze meses à frente do Departamento de Justiça americano, como autoridade máxima de segurança no país, a republicana foi uma defensora voraz da agenda trumpista, colocando em questão a histórica independência do órgão federal em relação à Casa Branca com suas investigações.
No entanto, a lealdade ficou em segundo plano devido às sucessivas críticas, inclusive por parte da base MAGA, dos mais aguerridos apoiadores do presidente, devido ao modo como conduziu o processo para divulgar milhões de arquivos secretos relacionados à investigação do financista condenado por criar uma rede de exploração sexual de mulheres — muitas vezes menores de idade — e de outros homens poderosos em seu círculo de amizades.
Bondi foi acusada ora de acobertar informações que esconderiam o envolvimento de certas figuras na teia de Epstein, ora de organizar mal a publicação dos arquivos pelo Departamento de Justiça (uma promessa antiga de Trump), o que levou à exposição do nome de vítimas em meio aos milhões de fotos, depoimentos judiciais e e-mails que vieram à tona.
A questão virou dor de cabeça para Trump, principalmente por provocar escrutínio renovado de sua antiga amizade com Epstein, que ele afirmou ter terminado décadas atrás.
Apesar do presidente americano ter defendido a publicação dos documentos relacionados a Epstein, alimentando por anos a versão não comprovada de que membros do Partido Democrata estavam implicados até o pescoço com o financista, Bondi se atrapalhou com o cronograma de divulgação, foi considerada insensível com as vítimas e, por vezes, voltou atrás, contradizendo a narrativa do presidente ao negar haver uma tal “lista de clientes” do criminoso sexual. Chegou a anunciar em julho passado que “o caso estava encerrado”, o que deixaria de justificar a revelação de novas levas de documentos.
A medida provocou uma onda de críticas e, eventualmente, uma lei bipartidária aprovada em novembro, exigindo que o Departamento de Justiça soltasse quase todos os seus arquivos: 3 milhões de páginas. Não acalmou a controvérsia — pelo contrário, legisladores criticaram as seções omitidas nos materiais e a publicação das identidades de algumas vítimas de Epstein.
Durante uma audiência combativa perante um painel da Câmara dos Deputados em janeiro, ela atacou legisladores e se recusou a pedir desculpas para as mulheres que sofreram nas mãos do agressor. O Comitê de Supervisão da Câmara, liderado pelos republicanos, votou pela intimação de Bondi, e ela deveria prestar depoimento em 14 de abril.
Reconfiguração do governo
A demissão de Bondi pode levar a uma reformulação na estratégia do Departamento de Justiça e, potencialmente, a uma nova investidado sistema jurídico dos Estados Unidos contra os alvos de Trump.
A procuradora-geral foi a segunda funcionária de alto escalão a ser excluída do governo recentemente. No início de março, a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, perdeu o emprego após semanas de pressão política e desgaste público envolvendo a condução da política migratória do governo. A “Barbie do ICE” vinha sendo alvo de críticas tanto de democratas quanto de republicanos no Congresso, especialmente após audiências recentes em que parlamentares questionaram sua liderança e operações da polícia de imigração, que levaram à morte de dois cidadãos americanos.
Depois de passar anos à frente da procuradoria-geral da Flórida, Bondi chegou ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos prometendo restaurar o foco da agência em crimes violentos e afastar a memória das acusações criminais contra Trump, causando polêmica ao remover dezenas de procuradores de carreira que trabalharam em investigações sobre o republicano.







