Como a Ucrânia substitui soldados por robôs em missões de alto risco no front
Veículos controlados à distância contiveram avanço russo por semanas, diz Kiev, que empregou máquinas 22 mil vezes desde janeiro para compensar desvantagem
A guerra na Ucrânia entrou em uma nova fase, em que máquinas passam a ocupar o lugar de soldados em missões de alto risco. O uso crescente de drones e robôs terrestres tem permitido a Kiev realizar operações sem exposição direta de tropas, incluindo, segundo militares ucranianos, a captura de prisioneiros sem disparar um único tiro.
Segundo Mykola “Makar” Zinkevych, comandante de uma unidade especializada da Terceira Brigada de Assalto da Ucrânia, uma operação realizada no ano passado marcou a primeira vez em que uma posição inimiga teria sido tomada e soldados russos capturados sem a participação direta de infantaria. “A posição foi tomada sem que um único tiro fosse disparado”, afirmou ele à emissora americana CNN.
O uso de drones aéreos já havia transformado o campo de batalha nos últimos anos. Agora, as forças ucranianas ampliaram esse modelo com veículos terrestres não tripulados — máquinas com rodas ou esteiras, capazes de transportar equipamentos, resgatar feridos e, cada vez mais, participar diretamente de ações de combate.
Esses sistemas apresentam vantagens operacionais relevantes: são mais difíceis de detectar do que veículos militares tradicionais, operam em condições climáticas adversas e conseguem transportar cargas maiores do que drones aéreos. Também têm maior durabilidade e autonomia.
No fim de 2025, militares ucranianos afirmaram que um único robô terrestre equipado com uma metralhadora foi capaz de conter o avanço de forças russas por até 45 dias, com necessidade mínima de manutenção.
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, reforçou essa estratégia ao afirmar que drones e robôs realizaram mais de 22 mil missões nos últimos três meses. Segundo ele, o uso dessas máquinas evitou a exposição direta de milhares de soldados em áreas de alto risco.
Corrida tecnológica
Mais de quatro anos de conflito transformaram a Ucrânia em um dos principais polos de inovação militar em sistemas não tripulados. Esse movimento ganhou novo impulso com a chegada de Mykhailo Fedorov ao comando da Defesa, após passagem pela pasta de transformação digital.
Para Kiev, o investimento em tecnologia é uma necessidade estratégica diante da desvantagem numérica em relação à Rússia. A meta atual é substituir até um terço da infantaria por sistemas robóticos ainda neste ano.
Fedorov apresentou um plano que coloca tecnologia e dados no centro da estratégia militar. A proposta inclui a criação de uma “zona de destruição” ao longo da linha de frente, onde drones e robôs operariam continuamente, além da meta de interceptar até 95% de ameaças aéreas. Cerca de 1.000 equipes já atuam nesse novo modelo integrado, segundo o Ministério da Defesa ucraniano.
Analistas avaliam que a superioridade de Kiev no uso de drones tem contribuído para conter o avanço russo em diferentes frentes. O Instituto para o Estudo da Guerra (ISW, na sigla em inglês), think tank com sede nos Estados Unidos, aponta que essa vantagem tecnológica ajuda a explicar a estagnação recente das ofensivas russas no campo de batalha.
Ainda assim, robôs terrestres ainda enfrentam dificuldades para manter controle territorial prolongado sem apoio humano — desafio semelhante ao uso isolado de tanques e blindados.
O próximo passo
O avanço ucraniano na guerra tecnológica começou a atrair atenção internacional. Países do Oriente Médio, por exemplo, têm observado o modelo de Kiev após perceberem o alto custo de combater drones iranianos com armamentos tradicionais. Em busca de apoio, Zelensky intensificou viagens e acordos com aliados, oferecendo compartilhamento de tecnologia em troca de equipamentos, como sistemas de defesa aérea.
Segundo especialistas, o desenvolvimento de inteligência artificial aplicada ao campo de batalha é tido como a próxima fronteira. A Ucrânia já trabalha no treinamento de modelos de IA com base em dados reais de combate.
Ainda assim, há cautela. Para o comandante Makar Zinkevych, a decisão final deve permanecer nas mãos humanas. “Você confiaria armas à inteligência artificial? Como garantir que ela distinga um aliado de um inimigo?”, questionou ele na entrevista à CNN.






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