Visita secreta do diretor da CIA a Moscou gera mistério
Viagem ocorreu no contexto em que Ucrânia intensifica ataques em solo russo, inclusive na capital
Após o pouso de um avião americano em Moscou gerar muita especulação na terça-feira, 25, o Kremlin confirmou nesta quarta, 26, que o diretor da CIA, John Ratcliffe, esteve na capital russa na véspera. Foi a primeira visita à Rússia de um chefe da agência de inteligência dos Estados Unidos desde o início da guerra na Ucrânia, em fevereiro de 2022.
“Houve contatos entre serviços secretos, mas não aconteceu nenhum encontro com o presidente russo”, esclareceu Dmitry Peskov, o porta-voz de Vladimir Putin, à imprensa. Sem detalhar o conteúdo das conversas, ele qualificou os contatos como “positivos” e considerou que “ainda é muito cedo para dizer em que medida isso impactará o processo para retirar as relações (Moscou-Washington) da crise”.
Não está previsto nenhum outro contato futuro, acrescentou o porta-voz. Um vídeo compartilhado nas redes sociais na terça-feira, cuja autenticidade foi confirmada pelo jornal The Washington Post, mostrou o momento em que uma comitiva de veículos — alguns com placas vermelhas, ligadas a cargos diplomáticos — trafegava pela Avenida New Arbat, no centro de Moscou, próximo a um edifício das Forças Armadas russas.
A motorcade of cars with US diplomatic license plates was spotted in Moscow. https://t.co/NuaXCYfKxP pic.twitter.com/fDJm1nj6RX
— Visegrád 24 (@visegrad24) August 25, 2026
Mistério
Autoridades americanas não divulgaram a viagem de Ratcliffe — e nem se pronunciaram após o Kremlin fazê-lo —, mas dados públicos de rastreamento de voos registraram o deslocamento de uma aeronave de transporte dos Estados Unidos da Base Conjunta Andrews, nos arredores de Washington, em direção a Moscou. A aeronave partiu da capital russa cerca de oito horas e meia depois, segundo dados do portal de monitoramento aéreo Flightradar24.
Não ficou claro qual era o objetivo do governo Donald Trump com a viagem, ou se outras autoridades americanas de alto escalão integravam a delegação de Ratcliffe.
A visita ocorreu em um momento em que Moscou e Kiev intensificaram ataques de longo alcance em seus respectivos territórios, em uma escalada de hostilidades que parece deixar o final da guerra ainda mais distante. Enquanto bombas mataram um número recorde de civis ucranianos no mês passado, com as forças russas se aproveitando de deficiências nos sistemas de defesa, as incessantes incursões de drones contra refinarias russas, portos e demais ativos do complexo petrolífero provocaram escassez significativa de combustível e deixam a população, em especial na capital, cada vez mais apreensiva.
Alguns analistas apontam que Putin pode, em resposta, ampliar o conflito com ações militares contra os países bálticos da Europa ou outros membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o que poderia desencadear uma nova crise.
Tensão
A viagem do diretor da CIA também coincidiu com um período de tensão nas relações entre Estados Unidos e Rússia. As duas potências estão em lados opostos no conflito no Oriente Médio: o Irã é aliado de primeira ordem de Moscou, que por sua vez fornece informações de inteligência ao regime islâmico sobre a localização de ativos militares americanos na região. Na segunda-feira, o governo Trump anunciou a “Operação Pária Econômica”, uma ampla campanha de sanções e pressão diplomática destinada a sufocar a economia iraniana, que deve atingir, em especial, os parceiros comerciais de Teerã.
A última visita de um diretor da CIA a Moscou havia ocorrido em novembro de 2021, quando William Burns — que chefiava a agência sob o governo do então presidente Joe Biden — lançou um alerta a Putin para não atacar a Ucrânia. Moscou iniciou sua invasão poucas semanas depois.







