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Celina Leão: “Nós vamos vencer”

Candidata à reeleição e amiga da ex-primeira-dama Michelle, governadora do DF afirma que estará no palanque de Flávio Bolsonaro

Por Hugo Marques Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Nicholas Shores Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 17 jul 2026, 06h00
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Até o fim do ano passado, a ex-deputada Celina Leão era uma personagem secundária de um roteiro traçado pelo seu padrinho político, o então governador Ibaneis Rocha. Como vice, ela assumiria o lugar de Ibaneis, que deixou o cargo para se candidatar a uma vaga no Senado, e disputaria uma reeleição tranquila no Distrito Federal, herdando um governo bem avaliado. Do plano original, só permanece de pé a candidatura dela à reeleição. O restante ruiu. O escândalo do Master provocou um terremoto que arrastou a atual governadora para o epicentro da confusão. Celina é filiada ao PP, partido comandado pelo senador Ciro Nogueira, investigado pela Polícia Federal por supostamente ter usado seu mandato para ajudar Daniel Vorcaro, o dono do banco. O desgaste diante da vinculação dela aos personagens envolvidos no caso foi inevitável. A governadora rompeu com o antigo padrinho, se aproximou do governo Lula para evitar a quebra do Banco de Brasília (BRB) e não lidera mais as pesquisas com a folga de antes. Nesta entrevista a VEJA, a também amiga da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro diz que o PT só é bem-sucedido em estados pobres e afirma que a direita vai vencer as eleições, inclusive em Brasília.

O escândalo Master já fulminou a candidatura do ex-governador. Esse caso pode comprometer também sua reeleição? O ex-governador disse que não vai mais se candidatar, que precisa cuidar da vida dele. É uma decisão pessoal, que precisa ser respeitada, e eu respeito. Já em relação ao impacto político, ele vai acontecer sobre as pessoas que estiverem envolvidas nisso. É só seguir o dinheiro. O dono do Master frequentava todas as camadas da sociedade, se relacionava com todo mundo, provavelmente beneficiou certas pessoas. Há notícias de que ele pretende nomear pessoas em uma delação premiada e revelar o que cada uma delas recebeu. A investigação vai deixar clara a diferença entre quem era apenas amigo, quem se sujou, quem pediu alguma quantia, quem aceitou vantagem indevida, quem cometeu crime e quem não fez nada.

Um dos investigados no escândalo é o senador Ciro Nogueira, presidente do PP, seu partido. Como avalia o caso? Como eu disse, cada um tem que responder pelos seus atos. O presidente Ciro Nogueira deu as explicações dele. Na campanha passada, ele sofreu acusações parecidas. Foi inocentado. Ele é respeitado no Senado, uma pessoa muito querida por muita gente. Então espero que ele consiga provar sua inocência.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que Ibaneis Rocha possivelmente será preso em razão do caso do Banco Master. Essa expectativa influenciou seu rompimento com o ex-governador? Acho muito irresponsável uma declaração dessas, sem ter ainda nada materializado. Fica parecendo que alguém tem informação privilegiada. Temos que aguardar o final do processo judicial, da investigação. É prematuro condenar alguém por antecipação, falar de algo que ainda não aconteceu.

“Onde o nível de escolaridade é maior, onde as pessoas têm mais acesso à educação e mais discernimento, o PT não ganha eleição. O PT só ganha eleição em estados pobres”

Qual foi então a razão do rompimento? A partir do momento que aceitei ser vice-governadora, sabia do meu papel, sabia do meu limite e sei ser governadora também. Não aceito ingerência naquilo que vou fazer. Quero governar com liberdade. Nós somos totalmente diferentes, desde a personalidade até aquilo que eu tenho como foco na gestão. Reconheço os avanços que aconteceram na cidade, foram muitas obras, mas temos personalidades diferentes e eu não vou aceitar ser tolhida naquilo que quero fazer. Não se pode confundir sucessão com submissão. O governo vai ter a minha cara, com aquilo que eu acho que é importante. Eu o respeito, mas quero ser respeitada também.

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O escândalo do Master deixou um rombo de quase 9 bilhões de reais no BRB. É possível salvar o banco? As negociações que vêm sendo realizadas com o objetivo de cumprir o acordo definido no âmbito do Supremo Tribunal Federal estão avançadas. Acredito que até o final do mês fecharemos o acordo que permitirá o empréstimo da ordem de 6 bilhões de reais, que vai garantir a manutenção do BRB nas mãos dos brasilienses. Estou otimista.

Como a senhora se define no campo ideológico? Sou de direita. É uma posição muito bem definida. Mas agora sou a governadora. No exercício do cargo, você aprende que a sociedade precisa estar acima de questões ideológicas. Por isso não tenho constrangimento em sentar com quem pensa diferente de mim para construir algo positivo para a minha cidade. Foi o que fizemos para resolver o problema do BRB. Não falei diretamente com o presidente Lula, mas falei com vários intermediários do governo, fiz várias conversas. É importante manter essa interlocução.

A propósito, qual é sua avaliação do governo Lula? A questão econômica é o que mais nos preocupa. Os juros muito altos levam à perda do poder de compra do brasileiro. Mas a gente precisa repensar a forma como nosso país vai se desenvolver. Acho que o governo deixou a desejar na recuperação da economia, no controle da inflação, nos juros. O poder de compra do brasileiro está baixo, o preço dos alimentos subiu muito, principalmente para quem vive de salário mínimo. O endividamento da população também está muito alto. E um ponto muito importante a ser destacado: não podemos viver de assistencialismo.

Na sua visão, o que deveria mudar nas políticas sociais do governo federal? Os programas sociais, o assistencialismo, não podem escravizar os pobres. É preciso dar uma porta de saída, uma oportunidade para que as pessoas se qualifiquem e possam conseguir um trabalho.

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A senhora vai subir no palanque do senador Flávio Bolsonaro? Claro. Nós teremos uma eleição entre esquerda e direita, inclusive aqui no Distrito Federal. O PL vai estar comigo no palanque e nós estaremos apoiando o PL, ao lado de Michelle Bolsonaro, que será nossa candidata ao Senado. Aliás, a participação de Michelle será fundamental — e não só aqui em Brasília, mas também em nível nacional. Ela, é bom que se diga, não trai nossas ideias, é uma pessoa dura que defende o que acredita, será de suma importância em um eventual segundo turno das eleições presidenciais. Ela é a joia da nossa coroa.

A senhora se alinha às lideranças que defendiam que a ex-primeira-dama disputasse a eleição presidencial, seja como cabeça de chapa, seja como candidata à vice-presidente? A Michelle tem liderança, pontua nas pesquisas, mas ela jamais se envolveria em uma disputa de família para ocupar essa posição. Esse espaço, se ela viesse a ocupá-lo, seria de forma natural. A família dela está em primeiro lugar. Ela só sairia para uma campanha presidencial se fosse convidada pelo marido. Jamais passaria por cima de uma decisão do ex-presidente. Ela é maior do que tudo isso.

A ex-primeira-dama acusou recentemente Flávio Bolsonaro de tê-la desrespeitado. Isso não vai influenciar negativamente o voto feminino? Uma das principais causas da derrota do nosso campo em 2022 foi o voto feminino. Não podemos repetir isso. Tenho certeza de que vamos caminhar todos unidos. É importante derrotar o PT, e só conseguiremos isso se toda a direita e a centro-direita caminharem juntas. Tenho certeza de que a Michelle não desistirá de sua candidatura ao Senado. Ela estará conosco. Nós vamos vencer.

Por que há tanta rejeição das mulheres a Jair e Flávio Bolsonaro? Esse é um problema histórico da direita, que só agora começa a mudar com uma maior participação das mulheres na política. Vamos superar com trabalho.

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“A investigação do Master vai deixar clara a diferença entre quem era apenas amigo, quem pediu alguma quantia, quem aceitou vantagem, quem cometeu crime e quem não fez nada”

O 8 de Janeiro de 2023 será um tema inevitável da campanha eleitoral. Qual sua avaliação sobre o que aconteceu no dia e o julgamento sobre o golpe no STF? Não houve tentativa de golpe. Como é que você tem uma tentativa de golpe sem um coordenador, sem um líder? Isso foi dito pelo ministro da Defesa do próprio governo Lula. Não é um comentário da governadora Celina Leão, é um comentário de quem estava lá. Muitas pessoas pagaram um preço por isso, famílias foram destruídas. Aquilo foi vandalismo, já aconteceu antes em Brasília, com aqueles baderneiros que se chamavam black blocs. A punição para os manifestantes foi muito pesada. Eu tive cinco coronéis que perderam os cargos, que estão presos. Espero que um dia a história possa fazer justiça àqueles que perderam praticamente tudo.

Como foi governar o DF naqueles três meses sob intervenção federal na área de segurança pública? Foi muito difícil, particularmente em relação ao sistema prisional. Havia uma massa carcerária de mulheres que dobrou de um dia para a noite. O sistema não estava preparado para recebê-las, não eram presas comuns, muitas eram idosas. Tivemos que esvaziar várias alas para acomodar as mulheres que estavam no acampamento. Não havia muito o que fazer. A gente não tinha poder nenhum. O nosso poder era o de obedecer. Foi um momento muito difícil.

A senhora é a favor da anistia aos condenados, particularmente ao ex-presidente Jair Bolsonaro? Sou favorável. Vi de perto uma pessoa inocente ser condenada. Só quando você é privado da sua liberdade é que entende o que é isso. Bolsonaro é um homem honesto, que tem a saúde debilitada, produto de uma facada. A gente precisa ter esse olhar humano. Em qualquer circunstância a dimensão humana não pode ser esquecida. Família é um valor que sempre defendi. Ver um pai e um filho impedidos de conviver, de se falar, por exemplo, é injustificável, algo que entristece qualquer pessoa.

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O que explica o crescimento da direita em Brasília, que já foi um reduto da esquerda? Eu acho que isso tem muito a ver com o nosso governo, que fez obras, que dialoga um pouco mais com a sociedade. Existe também a comparação que os eleitores fazem com as administrações de esquerda que tivemos aqui. Foram desastrosas. O nível de escolaridade da população também ajuda. Onde o nível de escolaridade é maior, onde as pessoas têm mais acesso à educação e mais discernimento, o PT não ganha eleição. O PT só ganha eleição em estados pobres.

Como ex-presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, como vê a gestão da deputada Erika Hilton, do PSOL? Acho que ela está no papel errado. Presidi a Comissão por alguns anos e lá trabalhei sempre dialogando. Aprovei 81 matérias a favor das mulheres. Ali não é palco para discurso ideológico. O posto exige que você se sente com mulheres de todos os espectros políticos. Infelizmente, hoje virou uma comissão da discórdia. Não vou nem entrar na questão de gênero.

Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004

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