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Gilberto Kassab: “Nem PT nem Bolsonaro”

Para o líder do PSD, tanto Lula quanto Flávio cometem erros políticos e têm limitações eleitorais, e por isso há espaço fora da polarização

Por Laísa Dall'Agnol Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 31 jul 2026, 06h00 | Atualizado em 31 jul 2026, 11h41
Gilberto Kassab: “Nem PT nem Bolsonaro” Priorizar nos meus resultados Google

Conhecido pelo trabalho nos bastidores, Gilberto Kassab criou, em 2011, o Partido Social Democrático (PSD), agremiação que não seria “nem de direita nem de esquerda nem de centro”, como definiu. Quinze anos depois, a sigla que comanda tem o maior número de prefeitos (887) e de governadores (seis) e uma bancada robusta no Congresso, com 49 deputados e treze senadores. Neste ano, Kassab decidiu enfrentar as urnas pela primeira vez desde 2014, quando tentou, sem sucesso, o Senado por São Paulo, e é candidato a vice-­presidente da República na chapa do colega de legenda Ronaldo Caiado. Para ele, tanto o presidente Lula (PT) quanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) cometem erros políticos e têm limitações eleitorais, e por isso há espaço para conquistar o cidadão que não quer nenhum lado da polarização. “Recebemos os legítimos convites do PT e do bolsonarismo para caminhar junto com eles, mas entendemos que esse não era o melhor caminho para o Brasil”, diz.

A direita está muito fragmentada neste ano, com mais de uma candidatura presidencial e muitos partidos sem apoiar nenhum nome. Acha possível um redesenho desse campo político depois da eleição? Depois de muitos anos, pela primeira vez, a esquerda corre com um único candidato, que é o Lula. Ele conseguiu reunir toda a esquerda, mas isso mostra que terá dificuldade no segundo turno, porque não terá mais o que somar. A direita segue hoje por vários caminhos, mas vai se unir e crescer ainda mais. Acho muito difícil que uma pessoa que vota, por exemplo, no Flávio Bolsonaro não escolha Ronaldo Caiado caso ele vá para o segundo turno. Então, o nome da centro-direita vai crescer mais do que Lula, e acho que Caiado pode inclusive ultrapassá-lo. O Flávio, acho que não.

O senhor sempre foi considerado um hábil articulador político, mas o PSD está sozinho na eleição. Acha que cometeu algum erro? A gente sempre comete erros, mas até o momento acho que os acertos foram maiores. Definimos que teríamos candidatura à Presidência, e o tempo mostrou que isso é adequado, porque 40% das pessoas não querem nem o PT de Lula nem o PL de Bolsonaro. Nós prestigiamos projetos locais. Projeto nacional é outra coisa. Lá na frente, quando tivermos o fim das coligações majoritárias, não vamos ter mais esse problema. Mas, enquanto tiver essa excrescência do sistema partidário, temos que conviver com isso. Aqui em São Paulo, por exemplo, nós estamos apoiando o Tarcísio de Freitas (Republicanos) para governador, que tem o Flávio como candidato. Já no Rio de Janeiro, apoiamos o Eduardo Paes (PSD) e ele tem uma relação com Lula. No Ceará, o Ciro Gomes é do PSDB, mas disse que Caiado pode ser a melhor opção para o Brasil.

“Lula conseguiu reunir toda a esquerda, mas terá dificuldade no segundo turno, porque não terá mais o que somar. A direita segue por vários caminhos, mas vai se unir e crescer mais”

O senhor já foi aliado do PT, foi ministro de Dilma Rousseff e o PSD integra o governo atual. Como é a relação com Lula? O forte do PSD é o diálogo. O PT sempre soube que nós não éramos um partido de esquerda e, em alguns momentos, tivemos uma aliança episódica. Mas vamos relembrar que em 2018 apoiamos Geraldo Alckmin (então no PSDB) para presidente da República, perdemos a eleição e não participamos do governo Bolsonaro. Ficamos independentes.

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A independência funciona? Em 2022, nos esforçamos muito para que o candidato fosse Rodrigo Pacheco e, depois, Eduardo Leite. Não tivemos a oportunidade de contar com eles. O tempo foi passando, acabamos ficando sem candidato e o partido ficou liberado: cada um apoiaria quem quisesse. Quem apoiou Lula legitimamente está com ele até hoje. A eleição é para isso, para ver quem vai governar. O partido estava liberado. Seria uma incoerência muito grande falar “agora chega, vem para a oposição”. Mas todos os que estão no governo ou o apoiam têm tido o comportamento muito adequado de entender que temos um projeto nacional e que a gente não está misturando isso com projetos locais. Então essa relação com Lula é específica de quem esteve com ele.

Lula tentou atrair o PSD para sua chapa à reeleição? No nosso último encontro, há alguns meses, ele me consultou se teria oportunidade de o PSD apoiá-lo. Falei que não, de uma maneira muito respeitosa. Disse que iríamos caminhar com uma candidatura própria ou uma aliança com Tarcísio de Freitas. E foi o que aconteceu.

Por muitos anos, o PSDB atraiu o voto do eleitor à direita. De 2018 para cá, Jair Bolsonaro acabou se tornando a grande referência desse eleitorado. O PSD se propõe a ser o novo nome desse campo político? Não. O PSDB nasceu na esquerda. Com o crescimento do PT, foi jogado para a centro-direita. O PSD também está nesse espaço, que ocupa com dimensão muito grande. Já na esquerda o PT vai continuar existindo. Ele já superou muitas adversidades, momentos difíceis, como a Lava-Jato, o mensalão, e sobreviveu. É um partido independente de Lula. É lógico que Lula é a sua figura maior, mas outras surgirão.

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O ex-presidente Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar após condenação por tentativa de golpe de Estado. Como avalia o futuro do bolsonarismo? Bolsonaro reconstruiu a direita no Brasil. Tinha a direita do Paulo Maluf. Agora tem a direita do Bolsonaro, dentro do PL. Ele organizou esse campo e é o seu líder. Isso veio para ficar. É evidente que, na medida em que ele esteja distante, acaba ficando um pouco mais fragilizado. Mas sua corrente não vai desaparecer.

Como avalia a pré-campanha de Caiado até agora? Estou muito confiante, muito otimista. Acredito que ele tenha grandes chances de crescer, de ir para o segundo turno e ganhar as eleições. Até porque tem ficado claro que, para derrotar o PT, Caiado é, sem dúvida, o melhor nome. As pessoas que não querem mais o PT estão percebendo que, se Flávio Bolsonaro for para o segundo turno, Lula vencerá de novo.

Por que Flávio Bolsonaro, embora lidere o campo da direita, tem dificuldade para atrair siglas à direita, como União Brasil, PP e Republicanos? Isso tem importância relativa. Até alguns anos atrás, o apoio dos partidos era muito mais relevante. Eles traziam o tempo de televisão e de rádio, e numa campanha isso era de fundamental importância. Não existiam as redes sociais, não existia a TV paga. Eram só os canais abertos. Então, eram eles que traziam cada segundo a mais. Hoje, esse tempo que agregam não é tão relevante. O mais importante em relação a Flávio é que a rejeição dele é muito alta. Por isso Caiado é mais competitivo no segundo turno.

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O senhor defendeu a candidatura presidencial do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e ele depois construiu ampla aliança em São Paulo. Isso mostra que ele seria um nome melhor que Flávio? Existia um movimento muito grande de lideranças importantes do Brasil entendendo que o Tarcísio seria um nome bastante viável. Mas esse assunto está encerrado. O Tarcísio tem feito um grande governo, tem o apoio do PSD por isso. Aliás, somos o principal aliado dele.

“Sou contra esse modelo de emendas e defendo que seja revisto. É um absurdo o volume de recursos que não está integrado com o plano de governo nem com as políticas nacionais”

Mas o PSD acabou não tendo nenhum nome na chapa de Tarcísio. O senhor ficou chateado com isso? Não. Se a gente tivesse algum empecilho, não estaria apoiando. A relação com ele é muito boa, até porque acreditávamos que ele seria um bom governador. Venceu as eleições, parceiro de primeira hora, e continuamos com ele. Tenho certeza que ele vai vencer.

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Presidentes de partidos foram intimados pelo ministro Flávio Dino, do STF, a explicar se tinham cotas em emendas parlamentares, como disse o cacique do PL, Valdemar Costa Neto. Ficou irritado com isso? Não. Recebemos uma intimação, respondi ao ministro o que tinha que responder (ele negou que tivesse algum tipo de cota), e acho que o Valdemar tem que responder a ele também.

As emendas deram mais poder ao Legislativo em relação ao Executivo. Acha que esse mecanismo deveria sofrer alguma mudança? Sou contra esse modelo. É um absurdo o volume de recursos que não está integrado com o plano de governo nem com as políticas nacionais. Já defendi isso inclusive junto à nossa bancada. Um orçamento federal é feito para ser executado por um presidente eleito com um programa. Então, 60 bilhões de reais de emendas, muitas delas paroquiais, é dinheiro que daria, só na cidade de São Paulo, para construir duas linhas de metrô por ano. Sei que defender isso tem um certo desgaste com parlamentares, que entendem ser uma conquista deles, mas as emendas poderiam ser feitas de outra maneira.

O senhor vê a possibilidade, a curto ou médio prazo, de ajuste desse mecanismo? Com Caiado, sim. Com Flávio, insisto, acho difícil ele ganhar a eleição. Com Lula, não vejo, porque já está há quatro anos e não mudou.

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Lula tem tido problemas para aprovar pautas consideradas vitrines da gestão, como o fim da escala 6×1. O que explica essa dificuldade? Quem vai ser contra dar um dia a mais de folga ao trabalhador? O que não pode é ser uma medida eleitoreira, que dispense discussões, envolvendo algo tão importante. Se não é eleitoreira, para que ter pressa? Acho inevitável que essa medida seja aprovada algum dia. Mas hoje muitos setores produtivos estão se manifestando contra, dizendo que vão quebrar e que isso vai gerar prejuízo ao trabalhador. O que a gente defende apenas é que a iniciativa seja avaliada com muita cautela, para que se faça a transição adequada.

Mas o governo tem tido dificuldades com outras ações que considera prioritárias, como a PEC da Segurança Pública. Por que isso ocorre? Nessa questão do combate ao crime é preciso ter coragem para fazer o que é certo. O que Lula precisa fazer, e não fez, é dialogar, construir uma integração com os estados, preservando a autonomia deles. Cada unidade da federação com a sua realidade, para que o poder público tenha uma velocidade maior nas respostas à sociedade.

O que acha da crise envolvendo Brasil e EUA sobre a imposição de tarifas maiores aos produtos brasileiros? Tanto o PT de Lula quanto o PL de Bolsonaro erraram. Quando houve a primeira medida envolvendo tarifas, o Eduardo Bolsonaro comemorou e disse que influenciou para que ela fosse adotada. O Flávio fez aquela infeliz viagem aos EUA para pedir que Donald Trump deixasse as medidas para depois da eleição. E Lula deixou claro a sua dificuldade em manter diálogo.

Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006

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