Afastamento de prefeito de Macapá amplia o ‘inferno astral’ de Kassab e do PSD
Dr. Furlan é afastado do cargo e alvo de operação da PF um dia após ter se filiado ao partido; início do ano eleitoral traz outras dificuldades para a legenda
Apenas um dia após deixar o MDB e se filiar ao PSD, prefeito de Macapá, Antônio Furlan, conhecido como Dr. Furlan, foi afastado do cargo por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) e se tornou alvo de busca e apreensão da Polícia Federal (como mostra reportagem de VEJA) por suspeita de envolvimento em um esquema de fraude à licitação de um contrato firmado pela Secretaria Municipal de Saúde. A situação amplia o “inferno astral” enfrentado pelo partido de Gilberto Kassab, que cresce organicamente como nenhum outro, mas enfrenta todo tipo de desafios neste início de ano.
De acordo com as investigações, há indícios de existência de um esquema criminoso, envolvendo agentes públicos e empresários em Macapá, com o desvio de recursos públicos (de um montante de quase 129 milhões de reais advindos de emendas parlamentares), no qual o novo filiado ao PSD seria o “principal beneficiário político”, segundo aponta decisão do ministro Flávio Dino, do STF. No documento, o magistrado diz que as provas da investigação mostram que Furlan “valeu-se de sua condição hierárquica, de sua influência funcional e de sua rede pessoal de confiança para assegurar a operacionalização, ocultação e dissimulação dos valores desviados”.
O novo problema do PSD não é o único enfrentado pela legenda de Kassab — VEJA conta na reportagem da edição impressa desta semana. Em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, o cacique está em rota de colisão com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e pode perder o espaço que tem na gestão estadual, inclusive a vaga de vice, que hoje está com Felício Ramuth, mas é cobiçada pelo PL.
No âmbito das eleições presidenciais, o PSD insiste que vai levar um dos três presidenciáveis do partido — os governadores Ratinho Júnior (PR), Eduardo Leite (RS) e Ronaldo Caiado (GO) — até as urnas, em outubro, mas amarga resultados inexpressivos nas pesquisas eleitorais. O último levantamento da AtlasIntel/Bloomberg trouxe baixos índices de intenção de voto para os três presidenciáveis do PSD: 4,9% para Caiado, 3,8% para Ratinho Junior e 1,6% para Eduardo Leite. No segundo turno, todos têm desempenhos inferiores ao do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Com a dificuldade em lançar um candidato próprio e sinalizando que não apoiará nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nem o senador Flávio Bolsonaro, Kassab pode ver a divisão no partido se aprofundar nos palanques estaduais. Estados como Rio de Janeiro, Bahia, Ceará, Amazonas, Alagoas, Piauí e Mato Grosso já dão apoios sólidos ao presidente Lula. Em Pernambuco, a governadora Raquel Lyra (PSD) está mais interessada em ficar bem com Lula do que em apoiar algum candidato do PSD. O primeiro governador eleito pelo PSD no Nordeste, Fábio Mitidieri (SE), já disse que também dará palanque ao petista.
No segundo maior colégio eleitoral do país, o nome do PSD, Mateus Simões, que assumirá o governo de Minas Gerais em meados deste mês de março, afirmou que o seu candidato ao Planalto será Romeu Zema (Novo), hoje governador — mais uma confusão interna no partido de Kassab. Com fraco desempenho eleitoral até o momento, Simões está mais preocupado em abrir palanque duplo, podendo se tornar o candidato de Flávio, e se consolidando à direita, do que em apoiar um nome do próprio partido, que tenta se vender atualmente como de centro.
Inferno astral
A expressão “inferno astral” é utilizada para nomear o período de trinta dias que antecede a data de aniversário de alguém e é considerada pela astrologia uma fase de encerramento de ciclo, não raro acompanhada de variados tipos de contratempos. O PSD foi fundado por Kassab em 25 de fevereiro de 2011 — em tese, portanto, o seu inferno astral terminou na semana passada.






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