Novas Revelações: Acesse com exclusividade novas revelações de Vorcaro. Assine Agora!

APURAÇÃO DAS ELEIÇÕES 2026

Brasileiro desconectado e exausto se afasta das urnas, aponta estudo

Levantamento do Datafolha em parceria com a Avaaz encontra relação entre desesperança, isolamento social e menor participação eleitoral

Por Laila Nery Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 14 set 2026, 18h49 | Atualizado em 15 set 2026, 10h17
Brasileiro desconectado e exausto se afasta das urnas, aponta estudo Priorize VEJA no Google

A relação do brasileiro com a política parece atravessar um momento de esgotamento. Em vez de enxergar a participação eleitoral como instrumento de transformação, uma parcela dos entrevistados por um estudo do Datafolha em parceria com o projeto Desapocalíptica, da Avaaz, descreve o voto como uma forma de evitar perdas ou simplesmente cumprir uma obrigação. O levantamento encontrou uma associação entre níveis mais baixos de conexão social, desesperança e menor participação nas urnas — um fenômeno que ganha contornos mais agudos entre os jovens.

A pesquisa divulgada nesta segunda-feira, 14, ouviu 2. 002 internautas brasileiros com 18 anos ou mais entre 11 e 21 de novembro de 2025. A partir de um questionário sobre sentimentos, valores e comportamentos, os pesquisadores dividiram os entrevistados em três grupos, de acordo com o que chamaram de vínculo aos princípios do Bem Viver: 29,4% foram classificados como vinculados, 64% como relativamente vinculados e 6,6% como desvinculados. A classificação é própria do estudo e considera uma série de fatores, entre eles conexão com outras pessoas, esperança em relação ao futuro, participação cívica e percepção de responsabilidade coletiva.

É justamente no menor dos três grupos que aparece o dado mais contundente sobre as urnas. Entre os chamados desvinculados, 46% ficaram entre 0 e 4 quando responderam à afirmação “eu votei nas últimas eleições”. Dentro desse grupo, 27% deram nota zero, indicando ausência total no pleito anterior. Entre os vinculados, em contraste, 94% ficaram entre 6 e 10 para a mesma afirmação, e 79% deram nota máxima. O estudo identifica, a partir desses dados, uma associação entre o afastamento dos princípios de conexão social e a menor participação eleitoral.

Quanto maior o vínculo social, mais desejo por democracia

A diferença aparece também na relação com a democracia. 60% dos entrevistados afirmam que não abririam mão da democracia por nenhum governo. Entre os vinculados, o índice chega a 79%. No grupo intermediário, fica em 62%; entre os desvinculados, cai para 30%. Outros 22% dos integrantes desse último grupo responderam “não sei” à questão.

O estudo também encontrou um contraste entre a disposição para votar e outras formas de participação política. Em uma escala de zero a dez, a média para a afirmação “participei de ações cívicas no último ano” foi 3,6, a menor entre os comportamentos investigados. Entre os desvinculados, 92% ficaram entre 0 e 4 nessa pergunta, e 64,4% deram nota zero. Já a média para “eu votei nas últimas eleições” foi 7,7. O resultado sugere uma distância entre o comparecimento às urnas e um envolvimento mais amplo com a vida pública.

Continua após a publicidade

Uma geração mais distante

RESTRIÇÃO - Os jovens já não podem acessar celulares na sala de aula: proibição surte bons efeitos
Jovens que passam mais de duas horas no celular tendem a se desconectar da vida cívica e votam menos (FG Trade/Getty Images)

A juventude aparece como um dos pontos de maior vulnerabilidade no levantamento. Entre os brasileiros de 18 a 34 anos, 44% estão no grupo dos desvinculados — a maior parte do grupo pertence à Geração Z. Enquanto 21,6% estão entre os vinculados. No conjunto dos brasileiros classificados como vinculados, 78,3% têm mais de 35 anos.

O contraste geracional também aparece na maneira como os entrevistados ocupam o tempo livre. Entre os jovens, há maior identificação com o lazer mediado por telas, enquanto os mais velhos tendem a relatar mais atividades presenciais ou ao ar livre.

Continua após a publicidade

Na pesquisa, 24% dos entrevistados de 18 a 24 anos deram nota zero à afirmação de que costumam usar redes sociais por menos de duas horas ao dia — o dobro do percentual registrado entre pessoas de 45 a 54 anos.

Para os pesquisadores, porém, as telas não aparecem apenas como um hábito de consumo. Nos grupos focais, participantes relataram recorrer ao ambiente digital como uma forma de escapar da ansiedade, da exaustão e das dificuldades de interação presencial.

O excesso de informação sobre a política, sobretudo de notícias negativas, foi associado a sentimentos de impotência e frustração.

Continua após a publicidade

O voto como “redução de danos”

Entrevistados de diferentes faixas etárias descreveram uma relação pragmática com as eleições. O voto aparece, em alguns relatos, menos como uma aposta em um futuro melhor e mais como uma maneira de impedir um resultado considerado pior.

“Eu não posso dizer que eu voto por ter esperança. Eu tenho votado ultimamente para evitar tragédias ainda maiores”, afirmou um participante do grupo de pessoas vinculadas ao Bem Viver.

Entre os desvinculados, outro resumiu a relação com as urnas de maneira ainda mais burocrática: “Eu voto mais por causa do meu título. ”

Continua após a publicidade

A pesquisa chama esse comportamento de “redução de danos”. Segundo o estudo, a esperança deixou de aparecer como principal motor do voto entre os entrevistados mais desiludidos, enquanto o engajamento tende a aumentar quando o eleitor identifica mudanças concretas capazes de afetar sua vida cotidiana.

O relatório cita, como exemplos de temas capazes de mobilizar a população, a discussão sobre o fim da escala 6×1 e políticas de segurança.

O levantamento, no entanto, não permite afirmar que solidão ou exaustão causem a abstenção. O que os dados mostram é uma associação entre menor conexão social, desesperança, baixa participação cívica e afastamento das urnas. A própria metodologia restringe os resultados quantitativos aos internautas brasileiros adultos, e os grupos focais foram utilizados para aprofundar as hipóteses levantadas pela primeira etapa.

Continua após a publicidade

O retrato que emerge é menos o de um eleitor simplesmente indiferente à política do que o de alguém que, diante da sensação de pouca capacidade de interferir no futuro, passa a enxergar a participação pública com desconfiança. Nas palavras do próprio estudo, o desafio para a democracia estaria em reconstruir a percepção de que a ação individual e coletiva ainda pode produzir efeitos concretos.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Capa da revista Veja, um celular e um notebook exibindo o site da revista, sobre fundo preto com texto BLACKFRIDAY repetido
ECONOMIZE ATÉ 83% OFF

Digital Essencial

A notícia em tempo real na palma da sua mão!
Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 3,99/mês
ESQUENTA BLACK FRIDAY

Revista em Casa + Digital Premium

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Premium (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
De: R$ 59,99/mês
A partir de R$ 32,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).