Carta ao Leitor: Escassez de propostas
Polêmica sobre Nossa Senhora é mais um exemplo do baixo nível da atual campanha eleitoral
Parece não haver milagre capaz de afastar da política nacional a mistura com assuntos religiosos. O Estado laico, garantido pela Carta de 1988, muitas vezes parece soar como letra morta na nossa Constituição. O culto a Nossa Senhora Aparecida é usado com frequência para promover essa indevida confusão, nos mais diferentes períodos da história nacional. No Império, por exemplo, a princesa Isabel visitou a cidade de Aparecida, no interior paulista, e ofereceu à imagem uma coroa de ouro e diamante. Em 1930, a adoração recebeu o aval definitivo do papa Pio XI, que a declarou padroeira do Brasil. Getúlio Vargas, chefe do governo provisório que depôs a República Velha, acompanhou a cerimônia e participou das celebrações. Foi na ditadura militar que 12 de outubro virou oficialmente o feriado da santa. A atual campanha eleitoral acaba de acrescentar um novo capítulo a essa história.
A polêmica começou quando uma jornalista comentou em um programa recente da GloboNews que grupos católicos estavam preocupados com uma movimentação evangélica para elaborar um projeto de lei com o objetivo de tirar de Nossa Senhora o título de padroeira do Brasil. O caso logo ganhou repercussão, com a campanha de Lula e os principais aliados petistas atribuindo o suposto movimento a aliados religiosos do rival Flávio Bolsonaro. A emissora se retratou na sequência, pedindo desculpas pelo erro e informando que havia uma proposta nessa direção em dezembro de 2007, mas que acabou sendo arquivada pela Câmara em agosto de 2008. “Posso considerar uma espécie de facada essa fake news em mim”, disse o candidato do PL em podcast católico. O assunto deu início também a um novo conflito entre o TSE e o STF, com base em decisões sobre a retirada e manutenção desse tipo de conteúdo nas redes sociais.
O fato de Nossa Senhora ter virado a santa da polarização é mais um exemplo do baixo nível da atual campanha, que parece ainda pior do que as anteriores. A poucos dias das eleições, Lula e Flávio gastaram boa parte do tempo batendo boca a respeito de um assunto desmentido pelo próprio veículo que o divulgou. Ao longo dos últimos meses, devido a outras polêmicas, pouco se discutiram com a necessária seriedade e profundidade temas importantes como a dívida pública, o baixo nível da educação e ideias efetivas para combater facções do crime organizado como PCC e Comando Vermelho. Salvo uma grande surpresa no próximo dia 4, os dois favoritos devem se enfrentar na rodada final, em tempo ainda para mostrarem que são capazes de falar sobre propostas e projetos para o futuro do país. O Brasil merece um debate melhor.
Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015






