Caso Master: impasse paralisa investigações e fatos implodem a imagem e a credibilidade do STF
As cenas desconcertantes ampliaram a guerrilha travada entre os dois grupos que se formaram no Supremo
Pouca coisa poderia ser pior para a imagem do Supremo Tribunal Federal neste momento de crise do que a cena de um de seus ministros usando o jato de um banqueiro que está no centro do maior escândalo financeiro da história — mas foi o que aconteceu. No domingo 20, o jornal O Globo publicou um vídeo em que Alexandre de Moraes e sua esposa, Viviane Barci, aparecem desembarcando do Legacy 650, prefixo PP-NLR, no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. A aeronave pertencia a uma empresa de Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master. O enredo ainda conta com um agravante: em abril passado, quando as investigações da fraude já resvalavam em alguns personagens da Corte, Moraes garantiu que “jamais” havia botado os pés em qualquer avião da frota do banqueiro. As imagens do desembarque foram captadas seis meses antes dessa afirmação, em agosto de 2025. Segundo uma nota divulgada por Viviane Barci, o voo foi contratado por seu escritório de advocacia a partir de critérios operacionais, sem vínculo pessoal com ninguém, cabendo à empresa a escolha das aeronaves. Ou seja, seria apenas mera coincidência. Ocorre que os fatos são teimosos.
As investigações do caso Master revelaram que a esposa do ministro tinha um contrato de prestação de serviços de 130 milhões com o banco. Depois disso, a Polícia Federal encontrou no celular de Daniel Vorcaro a minuta de um segundo contrato, mostrando que o escritório de Viviane Barci teria fechado um acordo suplementar de pagamento de honorários com o banqueiro no valor de 50 milhões de reais. Parte desse montante seria quitada com cotas de uso de um helicóptero e de um jato — justamente o Legacy que transportou Moraes e a esposa. Mensagens também mostraram que Vorcaro estava a par da transação. Na véspera da viagem ao Rio de Janeiro, o dono do Master pediu a um funcionário da Prime You, a empresa proprietária do avião, que agendasse uma viagem para ele. “Temos o voo da Barci no PP-NLR decolando do Catarina às 13”, alertou o funcionário. “Não deixe de atender Barci”, ordenou o banqueiro. Em outro diálogo sobre o mesmo assunto, o funcionário pergunta diretamente a Viviane Barci se “estão gostando da utilização das cotas”. “Sim, estamos gostando muito”, respondeu ela. Os verbos estão no plural. Em nota, a esposa do ministro garantiu que o contrato suplementar nunca foi assinado. Dias depois da revelação feita pelo O Globo, a revista Piauí afirmou em reportagem que Flávio Bolsonaro usou o mesmo avião de Vorcaro para voltar dos Estados Unidos. A viagem teria ocorrido em janeiro de 2025. Na quinta 24, o presidenciável do PL ironizou em uma rede social: “Imagina se fosse agora, eu teria viajado no avião de Alexandre de Moraes”.
Encarregado de investigar esses e outros casos ligados ao escândalo do Master, o STF esteve paralisado nos últimos dias. Na quarta-feira 23, o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, tentou dar ares de normalidade institucional ao convocar a primeira sessão plenária desde que o Supremo começou a discutir se Alexandre de Moraes deve ou não ser investigado pelas relações que mantinha com o dono do Master. Seria a primeira vez que Moraes e o ministro André Mendonça se encontrariam depois de trocarem acusações. Seria a primeira vez que Moraes apareceria em público depois que veio à tona o constrangedor vídeo do jatinho. Seria a primeira vez também que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, se sentaria diante dos magistrados desde que foi publicada a fotografia em que ele aparece junto do antigo controlador do Master. A normalidade era apenas aparente. Dispostos lado a lado, Mendonça e Moraes não dirigiram a palavra um ao outro. Gonet tampouco achou por bem esclarecer algo sobre a imagem em que está ao lado de Daniel Vorcaro, à vontade, sorrindo para a câmera, empunhando um charuto e à frente de uma mesa com copos de uísque, num evento promovido e custeado pelo banqueiro em Londres.
Antes da foto, o nome do procurador-geral já havia sido citado no relatório elaborado pela Polícia Federal sobre as relações de Vorcaro com Alexandre de Moraes. Em mensagem enviada ao ministro, o dono do Master pede a Moraes que acione Gonet para evitar “sacanagem” nas investigações sobre ele e sua corporação. Em outras passagens, o procurador manda dizer ao banqueiro que está com saudades (“Vamos marcar de estar juntos”), comemora a notícia de que haveria uma nova reunião em Londres (“Tomara que tenha charuto e Macallan”) e até pergunta se poderia levar o filho na expedição etílica. É fato que, em 2024, quando essas conversas ocorreram, não havia qualquer acusação contra Vorcaro. O problema é o que está acontecendo agora. Mesmo depois do escândalo, Gonet, a quem cabe denunciar eventuais autoridades envolvidas nos crimes, continua atuando normalmente no caso. Em seu último despacho, inclusive, defendeu a nulidade das novas descobertas, sob o argumento de que nem ele nem a Polícia Federal pediram para apurar a parceria entre Moraes e o ex-controlador do Master.
As cenas desconcertantes ampliaram a guerrilha travada entre os dois grupos que se formaram no Supremo — o dos ministros que defendem a investigação sobre Moraes e os que se empenham para evitar que ela aconteça. Nos últimos dias, ambas as partes passaram a vasculhar o gigantesco acervo de mensagens e áudios armazenados em um dos celulares do ex-dono do Master em busca de algo que comprometa o adversário. Da garimpagem surgiram conversas em que o antigo assessor jurídico do banqueiro menciona pagamentos de 500 000 reais a Kevin Nunes Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques. Em outros diálogos, a advogada Camilla Ramos e o desembargador Newton Ramos, ex-juiz auxiliar do magistrado no Tribunal Regional Federal da 1ª Região, eram tratados por interlocutores de Vorcaro como a “Turma do KN”. O escritório de Camilla tinha um contrato com o Master que previa, em caso de êxito em processos de interesse do banco, pagamentos de até 427 milhões de reais. É uma história que precisa ser esclarecida, mas não há provas até aqui de que Nunes Marques tenha agido para beneficiar o grupo de Vorcaro. Em nota, o magistrado, que também preside o Tribunal Superior Eleitoral, afirmou serem “irresponsáveis” as “tentativas de relacionar sua atuação com os serviços prestados pelo filho ou terceiros”.
O nível dos embates, além de extrapolar os limites do razoável, implodiu a imagem dos ministros. Uma pesquisa da AtlasIntel mostrou que 85% dos entrevistados acreditam que os magistrados têm envolvimento direto com o escândalo do Master. No início do mês, Gilmar Mendes cobrou diretamente do próprio Nunes Marques, por meio de um aplicativo de mensagens, que ele se afastasse dos julgamentos sobre o Banco Master. “Assumam que estão ferrados e saiam dos processos. Abram as contas. (…) Vc tem que sair do tse também”, escreveu o decano. “Me respeite Gilmar. Isso não é postura”, respondeu Nunes Marques. “Eu entendo de malandro”, provocou Mendes. “Claro que você entende”, ironizou Nunes Marques. O mesmo expediente envolveu o ministro Luiz Fux, de quem Mendes cobrou “postura institucional” depois do voto em que ele endossou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, pedido por André Mendonça. “Isso revela qq coisa menos postura institucional. Espero que não se repita”, escreveu o decano. Fux rejeitou o aconselhamento e respondeu, ríspido: “Cuide de não encher meu saco!”. Nunes Marques bloqueou o decano no WhatsApp.
Mais do que uma rusga, o movimento para forçar que os dois magistrados expliquem eventuais relações com Daniel Vorcaro tem o objetivo de criar condições para que ambos sejam impedidos de votar no julgamento de Moraes por suposta falta de imparcialidade. Considerando que o ministro Dias Toffoli já se declarou suspeito e que Moraes não pode votar em seu próprio processo, a ala pró-Alexandre, formada por Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin, teria o mesmo número de integrantes do grupo oposto — André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia, abrindo caminho para que, na discussão de mérito, um empate favorecesse Moraes. Desde a suspensão do julgamento na semana passada, Edson Fachin tem se reunido separadamente com os ministros para colher sugestões sobre o que fazer diante do impasse. A um deles chegou a confidenciar que pode ele próprio tomar uma decisão individual antes do fim do prazo de noventa dias para o pedido de vista de Flávio Dino, que interrompeu a análise do caso. De outro magistrado, ouviu ser prudente aguardar o fim do primeiro turno das eleições para saber quantos e quais senadores do campo da direita serão eleitos e, a partir daí, calcular a melhor data para trazer o caso Master de volta à pauta.
A composição do Senado é decisiva para o futuro de alguns ministros do STF. É lá que tramitarão eventuais processos de impeachment. Se a direita não conseguir maioria, calculam os magistrados, em tese o caminho ficaria mais fácil para a reeleição do atual presidente Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), próximo ao ministro Alexandre de Moraes e um anti-impeachment de carteirinha. Apesar de negar, Alcolumbre era também bastante próximo a Vorcaro. Se o resultado das urnas for o oposto, retardar a investigação sobre Moraes pode servir de pretexto para que o Congresso acelere a instauração de processos de cassação. São cálculos políticos que não deveriam interferir em decisões da Justiça. O dano colateral imediato dessa indefinição é a completa paralisação das duas investigações mais rumorosas da última década: o caso Master, que envolve, entre outros, o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, devido ao rolo do financiamento do filme Dark Horse, e o escândalo das aposentadorias, que tem entre os alvos Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, suspeito de traficar influência no governo em parceria com a lobista Roberta Luchsinger e o notório Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS.
Oficialmente, André Mendonça continua relator dos dois inquéritos, mas não pode tomar nenhuma decisão até que o plenário conclua o julgamento do pedido de abertura de investigação sobre Moraes. A pretexto de acalmar os ânimos na sessão que definiria se Moraes passaria à condição de investigado, o ministro Flávio Dino pediu vista e tem noventa dias para devolver o processo. Como o prazo termina às vésperas do recesso do Judiciário, é provável que a decisão sobre abrir ou não a investigação fique apenas para fevereiro de 2027. Esse vácuo tem a impunidade como a maior interessada. A defesa de Daniel Vorcaro já pediu a revogação da prisão preventiva do banqueiro, detido há seis meses em Brasília. Os advogados alegam que o dono do Master não foi denunciado e que os motivos que fundamentaram a ordem de prisão, como risco a testemunhas ou à instrução do processo, não existem mais. O próximo passo será questionar a parcialidade dos juízes e a legalidade da obtenção das provas, questionadas pelos próprios ministros do STF. Considerando-se o volume de informações aterradoras que já vieram a público, seria um final escandaloso para os escândalos do Master e do INSS. O país precisa que essas investigações sigam em frente e que resultem nas devidas punições.
Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014








