Ciro Gomes tenta voltar ao governo do Ceará com um parceiro incômodo
Ex-ministro faz esforço para relativizar a aliança surpreendente com o bolsonarismo no estado
Nas últimas semanas começaram a aparecer espalhadas por Fortaleza faixas com imagens inimagináveis há alguns anos, que mostram a união do ex-governador e ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) com o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL). Após fazer duras críticas de todos os tipos a membros do clã Bolsonaro (de “ladrão” a “jumento”), Ciro vem agora calcando sua retomada política em cima de uma guinada à direita, firmando alianças com todos os partidos desse campo, incluindo o PL do ex-presidente Jair Bolsonaro. A ideia é usar o antipetismo local como um amálgama de projetos distintos para tentar derrotar o PT, que governa o estado há três mandatos e tenta a reeleição com Elmano de Freitas. Estratégica para a oposição, a aliança com o bolsonarismo, no entanto, espalha incômodos para todos os lados.
O tamanho do mal-estar inclui tentar rebater a denominação que tem ganhado corpo entre os adversários: “Cironaro”. O desafio é relativizar ou esconder a aliança com o bolsonarismo em um estado onde a rejeição a Flávio é de 60% e a aprovação a Lula é de 66%, segundo o instituto Real Time Big Data. A despeito da aliança já sacramentada com o PL, Ciro tenta defender a ideia de que a política regional tem lógica própria e que as alianças locais não significam adesão automática ao projeto nacional bolsonarista. “O Ciro vai tentar separar o Ceará do resto do Brasil. É a única justificativa para não apoiar o Flávio e o único discurso que pode funcionar”, avalia Deysi Cioccari, cientista política e professora do Ibmec-SP. Ciro chegou a dizer que as faixas que o associam ao bolsonarismo foram plantadas pelo PT. “O meu partido é o PSDB e ele não está com Flávio Bolsonaro. Até semana passada, o partido queria que eu fosse candidato à Presidência da República. Como é que eu apoiaria outro candidato?”, disse o tucano.
O discurso fica comprometido quando líderes do próprio PL comemoram a aliança com a família Bolsonaro. O pré-candidato ao Senado Alcides Fernandes, pai do deputado federal André Fernandes, principal liderança do PL no estado, divulgou um vídeo no qual fala em “time escalado”, com imagens dele, do filho, de Ciro Gomes e de Flávio Bolsonaro usando camisas da seleção. Oficialmente, a posição do diretório estadual do PL até está alinhada ao discurso de Ciro. “Não tem acordo entre Flávio Bolsonaro e Ciro Gomes. O acordo é do PL Ceará. Ciro tem apoio do PL e, em reciprocidade, ele apoia o pré-candidato ao Senado do PL. O palanque de Flávio será Alcides”, diz André.
Como se não bastasse o esforço para justificar a saia-justa, há ainda a oposição aberta e persistente à aliança por parte da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Depois de tentar impedir o acordo com Ciro, ela mantém críticas constantes ao neoaliado do PL nas redes, como ao publicar foto dele ao lado de Lula, quando era ministro do petista. “O senhor da foto (Ciro) andava de mãos dadas com quem defende o aborto e diz que traficante é vítima de usuário”, postou. Ela pede votos para o rival de Ciro no campo da direita, o senador Eduardo Girão (Novo).
A corrida pelo governo cearense não será fácil para a oposição. Levantamento Real Time Big Data mostra que 58% da população aprova o governo de Elmano de Freitas e que 40% consideram o seu trabalho ótimo ou bom. Em consequência, ele aparece numericamente à frente de Ciro, com 43% das intenções de voto contra 40% do tucano. Eduardo Girão vem bem depois, com apenas 8%. De resto, o tucano tem que enfrentar padrinhos populares de Elmano, como Lula e o senador e ex-governador Camilo Santana (PT), que deixou o Ministério da Educação para mergulhar na campanha e vem usando o envolvimento de Flávio com Daniel Vorcaro, do Banco Master, para tentar nacionalizar a eleição. “Por que Ciro não fala de Flávio? Ele falava tanto do Jair, que era ladrão, que era uma quadrilha. Por que fica caladinho agora?”, disse. A avaliação no PT é a de que a estratégia de Ciro de esconder o máximo possível a proximidade com a família do ex-presidente é fadada ao fracasso. “Ele tenta se esquivar, mas não consegue”, diz uma fonte ligada a Elmano.
Ciro toca a campanha baseado em um tripé: capitalizar o recall de sua imagem no estado que governou de 1991 a 1994 e onde fez carreira política como prefeito de Fortaleza, deputado estadual e federal; explorar desgastes da longa hegemonia petista; e flertar com o crescente eleitorado bolsonarista, que fez de André Fernandes o deputado mais votado do estado em 2022 e o levou ao segundo turno na apertada eleição à prefeitura de Fortaleza em 2024 (vencida pelo petista Evandro Leitão). Conhecido pelo temperamento mercurial, Ciro precisará mostrar no decorrer da campanha um jogo de cintura inédito para rebater as críticas contra sua aliança incômoda.
Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997







