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APURAÇÃO DAS ELEIÇÕES 2026

Flávio e Lula chegam à reta final em disputa com muitos conflitos e poucas propostas

O presidente e o senador duelaram em campanha marcada pelo baixo nível, com escassez de ideias para os enormes problemas do país

Por Bruno Caniato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 23 out 2026, 06h00 | Atualizado em 23 out 2026, 10h23
Flávio e Lula chegam à reta final em disputa com muitos conflitos e poucas propostas Priorize VEJA no Google

Se até há pouco tempo as eleições presidenciais tinham algum debate concreto sobre questões que afligem o país, isso foi definitivamente enterrado no pleito atual. Cada vez mais acirrada, a polarização deixou de ser um sintoma da crise política e tornou-se a principal arma eleitoral dos presidenciáveis do PT e do PL. Focados na maior parte do tempo em pregar para convertidos e inflamar a própria base, Lula e Flávio Bolsonaro — ambos com chances de vitória no domingo 25 — fazem anúncios rasos e apresentados a toque de caixa, trocam ataques pessoais sistematicamente e protagonizam embates que muito têm de briga ideológica e pouco oferecem em soluções para os problemas da nação. Os reflexos dessa aposta na mobilização política em detrimento do debate consistente aparecem em uma recente pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, que retrata um eleitorado postado em trincheiras, que se alinha automaticamente a seu candidato nos temas importantes, independentemente de ele ter alguma proposta ou trabalho relevante sobre o assunto.

Manifestantes em um protesto político, com um cartaz grande e redondo em primeiro plano exibindo a imagem de um homem barbudo em tons de vermelho e branco, com o texto FORA LULA em letras maiúsculas vermelhas e brancas. Ao fundo, bandeiras azuis e amarelas com o número 22 e rostos de políticos, além de bandeiras do Brasil, árvores e edifícios altos.
MUDANÇA – Eleitores de Flávio em manifestação na Paulista: ofensiva para barrar a reeleição do petista (Nicolas Hernandez/Anadolu/Getty Images)

Um exemplo disso é a maneira como eleitores dos dois lados avaliam seu candidato como o mais preparado para promover a democracia. Embora sejam amplas as evidências que associam o bolsonarismo à tentativa de golpe de Estado tramada entre o final de 2022 e o início de 2023, inclusive com a condenação e prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, a maioria do eleitorado (49%) acha que seu filho, Flávio Bolsonaro (PL), é o mais preparado para defender o sistema democrático. Lula, que voltou ao Planalto em 2022 com um discurso forte em defesa da democracia, ficou 2 pontos atrás do rival nesse quesito. O que permite a Flávio uma dianteira nesse campo é a pregação de que a direita e seu pai são perseguidos por um Judiciário alinhado a Lula, com magistrados comprometidos moralmente e apresentados como “ditadores de toga”. Trata-se de um discurso que sensibiliza os eleitores à direita. Nesse contexto, o presidenciável do PL é visto pelo seu público como alguém capaz de recompor a democracia.

Policiais militares armados com fuzis escoltam homens sem camisa e com as mãos para trás em uma rua de comunidade, com casas e comércios ao fundo
PRIORIDADE - Operação policial no Complexo da Penha, no Rio: segurança pública lidera preocupação dos eleitores (Egberto Ras/Ag. Enquadrar/Folhapress/.)

Mesmo em temas onde um dos dois candidatos vai muito mal, o apego ideológico do eleitor acaba influenciando na hora de dizer quem pode enfrentar melhor determinado desafio. Um bom exemplo é a questão do enfrentamento à criminalidade, principal preocupação dos brasileiros segundo as pesquisas, em que 43% apontam Lula como o presidenciável mais preparado. Isso soa como um contrassenso diante das históricas dificuldades da esquerda na área e do fato de o atual governo ter uma avaliação ruim no combate à criminalidade. Recentemente, em uma guinada radical de posição sobre o assunto, Lula decidiu apoiar a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, uma bandeira histórica da direita, com o objetivo de reduzir eventuais perdas eleitorais contra um rival que sempre teve a segurança como tema central e tem a seu lado uma profusão de aliados que fazem disso a pregação principal. Diante disso, seria de imaginar que Flávio tivesse uma larga vantagem sobre o adversário. Não é o que ocorre. O senador consegue convencer pouco mais da metade do eleitorado (53%) de que é mais preparado que o adversário no combate ao crime.

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Família de três pessoas em casa simples, com geladeira aberta e vazia. Uma mulher de boné vermelho e blusa preta segura uma sacola de lixo reciclável. Uma menina sentada em um banco, com blusa rosa e calça estampada, segura um prato com um ovo frito. Um adolescente de camiseta cinza e bermuda escura apoia o pé em um botijão de gás. O chão está molhado e o fundo tem parede de tijolos.
FOCO - Família com geladeira vazia em São Paulo: renda e combate à pobreza fazem candidatos mudar discursos (Claudio Gatti/.)

Em outras áreas, a preferência ideológica também calibra a avaliação do eleitor. Em meio ambiente, por exemplo, há um empate numérico (47% a 47%) sobre quem é mais preparado, Lula ou Flávio. O investimento e a posição política de ambos no tema são diametralmente opostos. O petista fez disso uma bandeira, fortaleceu agências ambientais, trouxe a COP30 para o Brasil e deu uma guinada no discurso externo sobre o assunto em relação ao que se viu nos anos Jair Bolsonaro. Flávio, por sua vez, tem dado pouca ênfase ao assunto na campanha. No Parlamento, votou a favor de flexibilizar exigências ambientais e anunciou que seu eventual governo vai reorganizar as competências de órgãos como Ibama e ICMBio. Embora sejam bem-vindas as ideias dele a respeito da simplificação de alguns processos, esse tipo de discurso serviu de munição à campanha adversária para carimbar mais uma vez o bolsonarismo como inimigo do meio ambiente.

Infográfico DEBATE POLARIZADO com fotos de Lula (vermelho) e Flávio Bolsonaro (azul). Apresenta 12 gráficos de rosca, comparando a confiança dos eleitores em cada candidato para administrar diferentes questões, como meio ambiente, pobreza, saúde, educação, impostos, infraestrutura, economia, equilíbrio fiscal e criminalidade. Os gráficos mostram porcentagens para Lula, Flávio Bolsonaro e Não sabem, com predominância de azul ou vermelho dependendo do tema.
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Os rumos da política externa brasileira tampouco fogem à polarização ideológica eleitoral. O alinhamento aos Estados Unidos e a proximidade do clã Bolsonaro com Donald Trump são bandeiras de campanha de Flávio — não por acaso, a flâmula americana é exibida com frequência em manifestações bolsonaristas. Lula, por sua vez, apontou risco de intromissão de Trump no processo eleitoral para eleger o aliado e apostou no discurso de soberania nacional e na aproximação com a China, hoje o maior parceiro comercial do Brasil. As duas posições antagônicas produziram mais um placar apertado: 47% consideram Lula o melhor para conduzir a política externa, enquanto 49% acham que é Flávio. “Mais do que eleitores, hoje temos duas torcidas movidas por paixões”, avalia Luiz Alberto de Farias, professor titular de opinião pública da USP. Uma das consequências foi a dificuldade tanto de Flávio quanto de Lula de avançar sobre eleitores não alinhados aos dois lados da polarização. “As campanhas fracassam ao pregar para a grande massa de convertidos e deixar de lado o eleitor fora da bolha”, diz o cientista político Antonio Lavareda, do Ipespe.

O presidente chinês Xi Jinping, de costas, e o presidente brasileiro Lula, de perfil, estendem as mãos para um aperto, ambos vestindo ternos azuis escuros. Eles estão em frente a uma escadaria de pedra, com duas pessoas em uniforme militar ao fundo
PARCERIA - Lula e Xi Jinping, presidente da China: aliança política e econômica (Ricardo Stuckert/.)
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A divisão claramente ideológica sobre quem está mais pronto para lidar com diferentes temas também é consequência da estratégia dos candidatos de modular o discurso. Um exemplo são os programas sociais, historicamente uma área que alavancou Lula e a esquerda. Na campanha, Flávio passou a defender benefícios criados pelo PT, como Farmácia Popular e Minha Casa, Minha Vida. Além disso, prometeu ampliar e reajustar o Bolsa Família. Como consequência, igualou o jogo com Lula (48% a 48%) quando o assunto é quem é mais preparado para combater a pobreza e a desigualdade social.

Donald Trump, de costas, sentado em uma poltrona de couro, conversa com três homens de terno sentados à sua frente em um escritório luxuoso. Sobre a mesa, uma escultura de busto e um avião em miniatura. Ao fundo, um quadro de Ronald Reagan.
ALINHADOS - Flávio, Eduardo e Trump na Casa Branca: proximidade estratégica (Reprodução/Truth Social/.)

Outra meia-volta se deu quando Flávio votou pelo fim da escala de trabalho 6×1, projeto petista que ele havia tentado barrar no Congresso. O senador atribuiu a mudança ao fato de ser a “vontade da maioria do povo”, como de fato mostram as pesquisas. Por outro lado, Lula, tardiamente, calibrou seu discurso em relação a um terreno onde vem perdendo eleitores: o do empreendedorismo. Flávio, que sempre teve discurso mais consistente nessa seara, anunciou o Ministério da Prosperidade. Em reação, Lula apresentou um pacote de bondades para microempreendedores individuais.

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No geral, os dois candidatos tateiam em um universo profundamente cindido, como mostra a pesquisa Meio/Ideia divulgada na quarta 21. Ao responder à pergunta “Para você, o que é melhorar de vida?”, 65% dos eleitores de Lula disseram que era ter uma carteira assinada, enquanto 62% dos votantes em Flávio afirmaram que era abrir o próprio negócio. “O empreendedorismo virou parte indissociável do debate sobre pobreza e renda. Há uma nova classe de trabalhadores autônomos que veem incentivos fiscais e alívio tributário como políticas de combate à desigualdade”, diz Yuri Sanches, diretor de risco político da AtlasIntel.

Há também um componente histórico que ajuda a explicar por que os dois lados se entrincheiraram nos últimos anos. O racha ideológico em praticamente todas as áreas reflete um alinhamento cada vez maior dos brasileiros a pautas da direita, o que aumentou a confrontação com a esquerda em diversos temas. Calculado anualmente pela Ipsos-Ipec, o Índice de Conservadorismo dos brasileiros chegou a 0,68 em 2026, maior marca em nove anos, em uma escala que vai de zero (totalmente progressista) a 1 (totalmente conservador). O indicador é puxado pelo maior aval da população à redução da maioridade penal, à prisão perpétua para condenados por crimes hediondos e à pena de morte — neste último, o apoio passou de 43% em 2025 para 52% neste ano (a maior taxa da história). A proporção de eleitores que se enquadram em “alto grau de conservadorismo” cresceu de 49% para 55% no mesmo período. O resultado do fortalecimento da direita foi visto no primeiro turno, quando o PL de Flávio elegeu as maiores bancadas da Câmara e do Senado e o maior número de governadores (cinco).

Manifestantes em frente a um prédio governamental, com um homem de camisa preta arremessando um objeto e outro agachado, pegando pedaços de madeira no chão. O asfalto está coberto por detritos e pedras, e outros manifestantes com roupas verde-amarelas estão ao fundo, alguns com o rosto coberto por bandeiras.
TENSÃO - 8 de Janeiro: prisões e condenações na Justiça (Joedson Alves/Agencia Brasil/.)
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Um quadro sintomático do racha ideológico é exatamente a visão dos brasileiros sobre valores democráticos, algo que foi testado pelo estudo Pulse of Democracy, publicado em setembro pela Universidade Vanderbilt (EUA). Para 31% dos entrevistados, o princípio basilar da democracia é a liberdade, enquanto 30% apontam a igualdade como elemento principal e 22% dizem que é a aplicação devida da lei. Não é difícil traçar paralelos entre as respostas e os discursos de campanha: historicamente, a agenda de esquerda é focada na tentativa de distribuição igualitária de renda e oportunidades, ao passo que a direita bolsonarista tem a liberdade como pilar de sua identidade — em ambos os lados, há insatisfação com a prática de ilegalidades e a impunidade.

Dois homens, um de terno azul e camisa branca, e outro de terno azul com gravata verde e amarela, gesticulam com as mãos abertas em um debate, contra um fundo escuro com pontos de luz azuis
DEBATE RUIM - Lula e Flávio na Band: primeiro confronto teve poucas ideias e muitos ataques (Maira Erlich/Bloomberg/Getty Images)

A fenda ideológica do país, ampliada pela cacofonia das redes sociais, é de fato um problema na hora de discutir qualquer tema relevante e, mais que isso, em alguns casos, pode ofuscar a visibilidade de eventuais concordâncias. Um exemplo disso é que os eleitores, quando são questionados diretamente sobre pautas sem conexão com esse ou aquele candidato, demonstram um surpreendente consenso sobre temas diversos. Uma pesquisa Real Time Big Data publicada nesta semana indica que 90% da população apoia a redução da maioridade penal para 16 anos, enquanto 80% defendem a extinção de ao menos dez ministérios da máquina pública e 74% são favoráveis a uma ampliação do programa Farmácia Popular para incluir exames e acompanhamento médico entre os benefícios.

Outro ponto é que há uma certa demonização do eleitor do outro espectro que, muitas vezes, não corresponde à realidade. Um outro estudo, publicado em agosto pela Ipsos-Ipec, revela que apoiadores de Flávio e Lula têm grande dificuldade em avaliar as opiniões uns dos outros. Por exemplo: 94% dos bolsonaristas disseram apoiar a igualdade salarial para homens e mulheres que exercem o mesmo cargo, mas os lulistas acreditavam que apenas 73% dos rivais endossariam essa ideia. Em outra etapa, os bolsonaristas estimaram que 72% dos eleitores de Lula concordariam que “a família é a base de tudo”, quando a concordância com essa afirmação entre os petistas chega a 95%. “A polarização é alimentada não apenas por diferenças reais de opinião, mas sobretudo por percepções equivocadas sobre quem está do outro lado. Encontramos valores compartilhados, inclusive em temas que costumam ser apresentados como divisores”, diz Márcia Cavallari, head da Ipsos-Ipec.

Dois homens trabalham em linha de montagem de veículos, usando bonés e óculos de proteção. Ao lado, um agente do IBAMA, de costas, com chapéu camuflado e colete tático, observa uma área de mata com um helicóptero ao fundo
POLÊMICAS - Operários em fábrica e fiscais do Ibama em ação: candidatos divergem sobre escala 6×1 e fiscalização ambiental (Jin Haoyuan/Xinhua/AFP e Vinícius Mendonça/Ibama/.)

A poucos dias do fim da disputa eleitoral, o fato inegável é que o clima de guerra de torcidas, o deserto de ideias ou a maneira açodada como várias “soluções mágicas” foram apresentadas no meio da campanha deixam a sensação de que o país perdeu a oportunidade de fazer da eleição presidencial, que deveria ser o ponto alto de um jogo democrático, uma arena para debates aprofundados — e não um fla-flu contaminado pela divisão ideológica do país.

Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018

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