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Os trechos do samba da Acadêmicos de Niterói que podem complicar Lula

Ausência de 'pedido explícito de voto' não blinda o presidente de acusações de propaganda eleitoral antecipada

Por Nicholas Shores Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 21 fev 2026, 11h30
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A Acadêmicos de Niterói foi rebaixada para a segunda divisão do Carnaval do Rio com seu enredo em homenagem a Lula, a repercussão política do desfile tem se mostrado desastrosa e as fantasias representando “neoconservadores” em latas de conserva revoltaram líderes evangélicos, público do qual o petista tenta se aproximar em busca de votos para a reeleição. Mas os problemas para o presidente com a passagem da escola pela avenida apenas começaram.

Na semana antes de o grupo de elite do samba atravessar a Sapucaí, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou, por unanimidade, pedidos de liminar contra Lula e a agremiação niteroiense por propaganda eleitoral antecipada sob o argumento de que qualquer medida àquela altura seria censura prévia. Foi, contudo, uma sessão coalhada de advertências. A presença do petista e de ministros de seu governo em um camarote do Sambódromo para assistir à escola foi na contramão desses recados.

Agora, com a possibilidade de a Corte eleitoral julgar um fato consumado, o rigor promete ser maior. A começar pela letra do samba-enredo, entoado ininterruptamente ao longo de 79 minutos na noite do último domingo, 15. Para além do refrão, que inclui o jingle de campanha “Olê, olê, olê, olá; Lula, Lula”, há outros trechos que especialistas consideram problemáticos, como: “Vi a esperança crescer/ e o povo seguir sua voz/ revolucionário é saber/ escolher seus heróis”.

A referência, nessa passagem, a uma escolha remete, segundo advogados, à eleição — na qual, por óbvio, escolhe-se um candidato. O excerto “Lute para vencer/ aceite se perder/ se o ideal valer/ nunca desista” também fala subliminarmente de uma disputa, ainda mais no contexto de uma ode a um mandatário que anuncia publicamente sua candidatura à reeleição. O caso poderia desafiar a máxima, vigente nos últimos anos, de que só a presença de palavras como “vote” ou “apoie” configuraria um pedido explícito de votos e, portanto, a propaganda antecipada.

“A letra da música traz o entendimento de uma disputa em que o vencedor seria o mais apto a estar no poder”, disse a VEJA o advogado Thiago Boverio. “Em nada influencia o fato de a escola ter sido rebaixada. O cenário do impacto eleitoral não diminui com o insucesso, mas seria ainda mais amplo se ganhasse, em razão de uma maior divulgação”, acrescentou.

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Para Boverio, houve no mínimo “condescendência” do potencial candidato Lula, que usufruiu eleitoralmente do evento. Uma eventual ação por abuso de poder contra o petista, que pode ser punida com a inelegibilidade, demandaria uma investigação e a produção de provas, para avaliar a gravidade dos fatos. É exatamente a adoção de medidas para colher evidências que pede o Partido Liberal em representação levada ao TSE na última quinta-feira, 19.

Dentro do governo, houve tentativas de minimizar os danos. Interlocutores do Palácio do Planalto telefonaram para cúpula da Acadêmicos de Niterói pedindo mudanças urgentes em alegorias e fantasias a menos de uma semana do desfile. A pressão política teria resultado no cancelamento de uma ala chamada “Jacarés com cloroquina”, que faria alusão a declarações de Jair Bolsonaro descredibilizando a vacina contra a covid-19 e promovendo remédios sem eficácia comprovada contra o vírus. De última hora, os componentes precisaram ser realocados em outras alas. 

A primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, tinha confirmado presença no desfile e apareceu até no livreto oficial como componente do último carro, mas pegou a escola de surpresa ao desistir — uma escolha pessoal por “excesso de cautela”, segundo pessoas familiarizadas com a decisão.

A interpretação foi a de que houve uma “politização exagerada” da homenagem ao marido.

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