A estratégia do PT para conter danos com o segmento evangélico
Em carta aos fiéis, PT busca romper resistências com evangélicos, associando pautas sociais a valores cristãos e criticando o uso político da fé
Historicamente rejeitado por grande parte do eleitorado evangélico brasileiro, o Partido dos Trabalhadores (PT) realizou, na segunda-feira, 8, um evento com pastores progressistas e lançou um documento na tentativa de reduzir resistências e abrir diálogo com esse segmento religioso.
A iniciativa busca reposicionar a imagem do partido ao aproximar suas pautas sociais de valores cristãos junto à parcela que corresponde a 27% da população, segundo o IBGE e que tem se alinhado com setores da direita e do bolsonarismo, nas últimas eleições.
A estratégia seguida na carta divulgada durante o encontro foi traçada por um grupo de trabalho estabelecido na Fundação Perseu Abramo, que tem se dedicado ao tema e tenta estabelecer que as maiores denominações do país permitiram que a política subisse de vez aos púlpitos, colocando a religião em segundo plano.
“Rejeitamos toda tentativa de transformar a religião em instrumento de manipulação política, e denunciamos aqueles que usam do Evangelho como negócio”, diz o documento.
A mesma orientação foi utilizada pelo presidente Lula ao justificar sua ausência na Marcha para Jesus, ocorrida no feriado de Corpus Cristi. Ao apóstolo Estevam Hernandes, o organizador do evento à frente da Renascer em Cristo, o mandatário disse que não queria “misturar política e religião”.
Faixas com a mensagem “igreja sem política” foram estendidas na parada, enquanto nomes de direita, como o senador e pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro (PL), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes discursaram no palco principal.
Sem citar nomes, o PT tenta colar nos pastores de maior influência a pecha de “mercadores da fé”. A única liderança nomeada no evento foi Silas Malafaia, caracterizado pela primeira-dama, Janja da Silva, como “insignificante”, durante sua fala. A esposa de Lula tinha sido criticada pelo pastor por realizar encontros com lideranças femininas à frente de denominações do campo progressista, com menor penetração.
O PT aposta ainda na grande fragmentação entre os fiéis, já que nenhuma igreja conta com um rebanho superior a 11%. No documento, a legenda ressalta a forte presença nas camadas populares da sociedade e exalta: “Estamos presentes nas periferias, nos campos, nas cidades, compartilhamos as mesmas alegrias, preocupações e esperanças do povo brasileiro”.
A partir dessa identificação, a carta associa políticas públicas defendidas pelo PT a valores cristãos, mencionando programas como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida e Farmácia Popular como exemplos de cuidado com os mais vulneráveis.
O aceno do partido de esquerda acontece num momento em que o alinhamento das principais denominações com a candidatura de Flávio Bolsonaro ainda não ocorreu. Na Marcha para Jesus, Hernandes chegou a dizer o apoio seria “uma tendência natural”, mas não conta com 100% do segmento.
O Ministério Madureira da Assembleia de Deus está comprometido com a campanha de Ronaldo Caiado (PSD). Já Silas Malafaia, assembleano que comanda a Vitória em Cristo, e Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, ainda aguardam os desdobramentos políticos para se posicionarem. Os dois preferiam apoiar Tarcísio de Freitas.







