Dilemas da fé em tempos de coronavírus: abrir ou fechar templos e igrejas?
Evangélicos e católicos se adaptam, mas alguns de seus líderes ainda resistem ao apelo para evitar as aglomerações
Enquanto a ciência se debruça sobre o mistério da origem da Covid-19 e as autoridades testam medidas cada vez mais drásticas para conter a contaminação (que podem incluir a proibição de eventos com aglomeração de pessoas), o bispo evangélico Edir Macedo resolveu partir para o ataque, munido de algumas “certezas”. “Minha amiga e meu amigo, não se preocupem com o coronavírus”, disse ele em um vídeo divulgado no domingo 15. Segundo o chefe da Igreja Universal do Reino de Deus, a preocupação em torno da doença era uma “tática de Satanás” para espalhar o medo. Quem transparecia estar assustado, porém, era Macedo, com a perspectiva de templos vazios e, consequentemente, menos ofertas e dízimos.
A resistência a fechar as portas atinge também o grosso das igrejas pentecostais e neopentecostais no país, mesmo após a ministra “terrivelmente cristã” Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) reunir dezessete entidades evangélicas e católicas na segunda passada e pedir que evitassem aglomerações. Um sinal claro da dificuldade veio do pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e amigo do presidente Jair Bolsonaro. “Enquanto o transporte coletivo estiver funcionando, a minha igreja vai estar aberta”, afirmou.
A reação negativa a esse tipo de fala, o primeiro caso de morte no Brasil e a sequência de medidas impostas pelas autoridades — suspensão de aulas, fechamento do comércio, adoção de home office e restrição à circulação — fizeram com que algumas lideranças religiosas mudassem o discurso e acatassem as recomendações de governos estaduais, como a do governador João Doria para suspender as cerimônias na Grande São Paulo. Parte das missas e cultos começou a ser transmitida pela internet ou a ser realizada ao ar livre. Saíram a água benta e o lenço consagrado, entrou o álcool em gel. E nada de imposição de mãos ou distribuição de hóstias — cada fiel foi instruído a orar e a receber as orações no seu canto. O papa Francisco, por exemplo, passou a rezar apenas missas virtuais — recomendação que estendeu ao mundo —, e a celebração da Páscoa será feita sem público na Praça São Pedro. Por aqui, a Justiça suspendeu as missas em Aparecida, o maior centro de peregrinação católica do país, mas a basílica seguirá aberta.
ASSINE VEJA
Em tempos de crise como epidemias e guerras, os templos religiosos têm papel importante ao abrigar, apoiar e confortar a população. Mas é preciso equilibrar essa função com as políticas de saúde pública. Na Coreia do Sul, Lee Man-Hee, líder da igreja cristã Shincheonji, é investigado por homicídio e danos à saúde pública depois que as autoridades atribuíram à sua igreja a responsabilidade por mais da metade dos casos de contaminação no país. Na França, a evangélica The Christian Open Door é acusada de ter virado um foco de contaminação após vários infectados em um evento espalharem o vírus até por territórios como a Guiana Francesa. No Brasil, as autoridades ainda não vetaram o funcionamento dos templos, mas a preocupação vem aumentando à medida que a doença se alastra. Depois que o bispo demonizou o vírus, a Universal apagou o criticado vídeo de Macedo, passou a adotar ações preventivas, e disse, em nota, que “a mídia distorceu o teor do alerta” de seu líder. Na última terça, no Templo de Salomão, na cidade de São Paulo, o bispo Guilherme Grando lembrou o ensinamento de Jesus Cristo de que é preciso “vigiar e orar”. Vigiar, no caso, seria tomar as medidas de precaução contra o coronavírus. Amém.
Publicado em VEJA de 25 de março de 2020, edição nº 2679






![[RELAMPAGO] PAYWALL (728 x 90 px) Banner laranja com texto OFERTA RELÂMPAGO em amarelo e branco, ao lado de Você pediu, a gente ouviu! em branco. À direita, capas de revistas e um celular com tela ligada, e um ícone de árvore à esquerda.](https://beta-develop.veja.abril.com.br/wp-content/uploads/2026/07/RELAMPAGO-PAYWALL-728-x-90-px.gif?fit=728%2C90&quality=70&strip=info)
![[RELAMPAGO] PAYWALL - 328x79 Banner laranja com texto OFERTA RELÂMPAGO em amarelo neon, acompanhado de um raio. Abaixo, Você pediu, a gente ouviu!. À direita, capas de revistas: SUPER com um copo de milk-shake, VEJA com paisagem e MUNDO ESTRANHO com carros. Um ícone de árvore estilizada no canto superior direito](https://beta-develop.veja.abril.com.br/wp-content/uploads/2026/07/RELAMPAGO-PAYWALL-328x79-1.gif?fit=328%2C79&quality=70&strip=info)