Com o aumento da longevidade entre cães e gatos, mercado pet ganha novas demandas
A exemplo dos humanos, não basta viver mais. É preciso viver bem — e com saúde
Eles seguem os passos dos donos. Uns participam de corridas esportivas, outros engordam, muitos envelhecem. Em um país em que os lares já têm mais animais de estimação do que crianças — o Brasil possui a terceira maior população pet do mundo, estimada em mais de 150 milhões de bichos — e os cuidados veterinários se tornaram mais acessíveis, cães e gatos realmente têm vivido mais. A ciência já acompanha o movimento. Embora não existam dados completos de pesquisas nacionais, a tendência apontada por um estudo com prontuários de mais de 15 milhões de animais nos Estados Unidos é clara: a cada ano registrado, a média de idade da população peluda aumentou em um mês.
Seguindo essas evidências, nos últimos doze anos, cachorros e gatos teriam abocanhado pelo menos um ano a mais na expectativa de vida. Parece pouco, mas significa muito para bichos que por vezes vivem menos ou pouco mais de uma década. E, evidentemente, há aqueles que superam expectativas e empurram a régua para o alto — casos de felinos e caninos beirando os 20 anos. “Até a ideia de que cães de grande porte só chegam à determinada idade está caindo em desuso”, diz o veterinário Thiago Vendramini, professor da USP. Os vovôs pets pedem passagem, e se isso é uma boa notícia também abre portas a diversos desafios.
É o que revela um levantamento encomendado pela marca de rações Royal Canin à consultoria Censuswide. Uma das principais conclusões da pesquisa com tutores brasileiros é a de que eles ainda não estão preparados para lidar com a longevidade animal. Praticamente metade dos entrevistados assume que evita falar do envelhecimento dos bichos e mais de um terço admite que só passa a pensar a respeito quando surgem problemas de saúde. Além disso, quase quatro em cada dez pessoas têm dificuldade em enxergar o cão ou gato idoso e 35% relatam que não adotam certos cuidados por achar que o animal parece bem.
Apesar dos lapsos de percepção, há uma motivação para zelar melhor por seus “filhos” velhinhos: 51% afirmam que mudariam a rotina e 40% reduziriam seu tempo de lazer para garantir maior dedicação aos companheiros de quatro patas. De fato, com o avançar da idade, eles podem exigir mais tempo, paciência e cuidados. “Hoje se projeta que um quinto dos animais no mundo já faz parte dessa população sênior, algo que é resultado do maior controle de parasitas e doenças infecciosas, melhor nutrição, diagnósticos e tratamentos veterinários mais eficazes”, afirma Vendramini. “Isso é realmente incrível, mas, por outro lado, traz preocupações sobre uma série de problemas que acompanham o envelhecimento, como dificuldades motoras, déficits alimentares e imunológicos e até disfunções cognitivas.” Tal pai humano, tal filho pet.
Como a idade aumenta o risco de certas doenças, hoje as clínicas veterinárias se diversificaram para atender de pacientes reumatológicos a oncológicos. E, para cuidar de uma forma mais integrada, já existe até uma especialidade dedicada ao tema, representada no país pela Sociedade Brasileira de Geriatria Veterinária, fundada em 2018. Público não vai faltar, e o mercado pet também se mobiliza para fornecer produtos especialmente desenhados para cães e gatos idosos. No ramo das rações, marcas como a própria Royal Canin, PremierPet, Purina e Pedigree contam com todo um portfólio sênior. O mesmo acontece com a indústria de suplementos. “Uma alimentação balanceada, o controle do peso corporal, a manutenção da atividade física, a vacinação e o controle de parasitas, bem como o acompanhamento veterinário, estão na base de um envelhecimento adequado”, resume o professor da USP.
Nessa direção, algumas iniciativas buscam potencializar os resultados do cuidado com protocolos cientificamente testados. A rede Petlove acaba de trazer ao Brasil o programa PetMoreTime, derivado de um projeto americano que já atendeu quase 50 000 animais. Trata-se de uma intervenção individualizada, baseada no uso de medicamentos e nutracêuticos ao longo de catorze meses. No país, quinze cães já foram submetidos a ela, como Sofia, de 12 anos, e haverá um estudo aplicando a estratégia em cães policiais. “A expectativa é de um aumento de até 20% no tempo médio de vida saudável”, diz Rita Zuanaze, veterinária que lidera a operação. E esse adjetivo faz a diferença. Porque, a exemplo dos humanos, não basta viver mais. É preciso viver bem — e com saúde.
Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005






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