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Morre médico brasileiro pioneiro no transplante de fígado com doador vivo

Silvano Raia construiu trajetória com ideias inovadoras e, aos 95 anos, continuava em atividade no desenvolvimento de xenotransplante com suínos

Por Paula Felix Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 28 abr 2026, 16h44 | Atualizado em 28 abr 2026, 18h03

Em 1988, uma técnica que revolucionou o universo da recepção de órgãos saiu das mãos do cirurgião Silvano Raia para o mundo. O médico brasileiro nascido em 1930 realizou o primeiro transplante de fígado com doador vivo do mundo. Três anos antes, tinha sido pioneiro no transplante do órgão com doador falecido. O criador de técnicas inéditas para os cuidados com o órgão morreu nesta terça-feira, 28, aos 95 anos.

Lúcido, dono de voz firme e com a didática típica dos bons professores, Silvano Mário Attílio Raia fez parte de sua formação médica no Reino Unido, mas trouxe toda sua bagagem acadêmica para ser costurada com sua mente inquieta e à frente do tempo no Brasil. A partir dos anos 1970, o cirurgião empreendeu nas primeiras ressecções regradas de fígado e logo se tornou uma referência no conhecimento sobre o órgão.

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP), foi diretor da Faculdade de Medicina entre 1982 e 1986. Criador da Unidade de Fígado do Hospital das Clínicas, que é parte da universidade, Raia atuou na formação da maioria dos cirurgiões transplantadores do Brasil.

“Sua atuação foi decisiva para a formação de gerações de médicos e para o avanço da ciência, sempre pautada pela inovação, pelo rigor acadêmico e pelo compromisso com a vida”, disse, em nota, a Faculdade de Medicina da USP, que declarou sua “profunda admiração e gratidão por seu legado inestimável à medicina e à sociedade brasileira”.

Em atividade

Raia era um exemplo de longevidade e as reportagens sobre sua atuação no campo da pesquisa costumavam destacar esse aspecto.

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No ano passado, quando pesquisadores chineses alcançaram o feito de transplantar um fígado geneticamente modificado em um humano, Raia comentou o avanço em entrevista a VEJA. Foi destacado que ele continuava “na ativa” por seu trabalho no projeto XenoBR, em parceria com a geneticista e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP Mayana Zatz, iniciativa focada em xenotransplantes utilizando suínos estéreis, ou seja, livres de patógenos que podem impactar na segurança nos transplantes.

Na semana passada, nasceu o primeiro porco clonado para fornecimento de órgãos para transplante do projeto após quase seis anos de tentativas.

Zatz, que compartilhou a experiência científica com Raia, lamentou a perda. “O professor Silvano era um visionário . Quando ele nos procurou, no Centro do Genoma, há cerca de seis anos propondo o projeto de xenotransplantes, parecia uma ideia futurística. Usar órgãos de suínos geneticamente modificados para transplante em seres humanos. Ele percebeu a importância em associar a cirurgia aos avanços em genética biologia molecular e edição gênica”, relembrou. “Perdemos um grande cientista, um grande líder e um grande ser humano, mas o seu legado continua. Vamos continuar o seu projeto. Um homem é eterno quando sua obra continua.”

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O Ministério da Saúde publicou nota de pesar destacando o legado do cirurgião e o descrevendo como um dos maiores nomes na medicina mundial. “Além de sua atuação cirúrgica, teve papel decisivo na formação de gerações de profissionais e no fortalecimento das políticas públicas de saúde. Junto ao Ministério da Saúde, contribuiu para a estruturação e expansão da rede de transplantes no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), apoiando a qualificação de equipes, a implantação de serviços e a ampliação do acesso da população a procedimentos de alta complexidade em todo o país. Sua trajetória foi fundamental para consolidar o Brasil como referência internacional na área.”

A Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH) também se manifestou elencando as contribuições de Raia e sua dedicação para reduzir o sofrimento das pessoas que esperam na fila por um órgão.

“A medicina brasileira perde um médico, professor e pesquisador que, no auge dos seus 95 anos, continuou inspirando gerações de hepatologistas e cirurgiões. Tive a honra de trabalhar com ele na então unidade de fígado da USP. Um líder nato, um ser além do seu tempo. Ficará vivo nas nossas memórias”, afirmou a presidente da SBH, Leila Beltrão Pereira.

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O cirurgião ocupava a cadeira 30 da Academia Nacional de Medicina (ANM) desde 1991 e foi homenageado pela instituição. “Raia construiu uma trajetória marcada pela excelência, inovação e dedicação inabalável ao ensino e à assistência médica. Sua energia singular, sua visão pioneira e sua capacidade de inspirar gerações de médicos permanecerão como um legado vivo entre nós. Mais do que um grande cirurgião, foi um exemplo de compromisso com a ciência, com os pacientes e com o futuro da medicina brasileira”, declarou Antonio Egidio Nardi, presidente da ANM.

 

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