Nova geração de lentes desenhadas para conter a miopia chega ao Brasil
A missão delas é ampliar o cerco contra um problema que já ganha escala pandêmica
A vida moderna tem seus prós e contras. Um dos efeitos colaterais de ficar a maior parte do tempo em ambientes fechados, sem exposição à luz natural e diante de tantas telas tem avançado a olhos vistos. E desde a tenra infância. Trata-se da miopia, condição marcada pela dificuldade de enxergar à distância, que se tornou uma autêntica pandemia. Estima-se que mais de 2 bilhões de pessoas convivam com ela globalmente, um número que poderá mais que dobrar até 2050, quando metade da população mundial vai encarar o problema. A preocupação é que a visão embaçada é apenas a ponta do iceberg: estudos têm mostrado que a miopia catapulta o risco de doenças oculares sérias com o avançar da idade. Não é por menos que os cientistas têm quebrado a cabeça para encontrar formas de prevenir esses danos. E eles estão obtendo sucesso nisso, como apontam pesquisas com as lentes criadas para desacelerar e bloquear a progressão do distúrbio, que hoje afeta uma em cada três crianças.
Agora, uma nova geração desses dispositivos para óculos desembarca no Brasil a fim de ajudar a evitar um futuro nublado entre os jovens. A empresa francesa EssilorLuxottica lançou as lentes Stellest 2.0, a evolução de sua tecnologia destinada a crianças e adolescentes míopes. Elas são dotadas de microesferas invisíveis que, a partir do contato com os raios de luz, modificam os estímulos que chegam à retina, o tecido no fundo do olho que permite a conversão dos sinais luminosos em imagens. Com esse mecanismo, os globos oculares deixam de ser instigados a se alongar — processo que prejudica a capacidade visual e está na raiz do transtorno e de seus impactos de longo prazo. “A cada grau a mais de miopia, aumenta significativamente o risco de doenças capazes de levar à cegueira à medida que envelhecemos”, diz Arnaud Ribadeau-Dumas, head da divisão de lentes da EssilorLuxottica. “Estamos falando de um problema capaz de impor um custo de 1,4 trilhão de dólares ao mundo até 2050.”
A proposta das novas lentes, portanto, não é só corrigir a vista, mas impedir que a miopia progrida e o alongamento do olho esgarce estruturas sensíveis e fundamentais à visão. “Pessoas míopes estão mais expostas a glaucoma, catarata, degeneração macular e descolamento de retina”, afirma Georges Caputo, chefe de oftalmologia do Hospital Fundação Rothschild, em Paris, e um dos principais estudiosos do tema. Ele se refere às maiores causas de cegueira no globo. É para evitar desfechos tão preocupantes que a medicina tem investido em soluções cada vez mais arrojadas, que vão de lentes de contato e para óculos a novos colírios e terapias com laser. Como a miopia dá as caras na infância, a viabilidade e o engajamento às estratégias são críticos. Eis um ponto a favor das lentes de óculos, que se destacaram em uma revisão da literatura científica como uma das abordagens mais efetivas para reduzir o aumento dos graus.
De fato, há muito estudo por trás desses acessórios terapêuticos — uma operação que envolve de engenheiros a neurocientistas, passando por físicos e oftalmologistas. A primeira geração da Stellest, indicada a partir dos 6 anos de idade, demonstrou desacelerar em 67% a progressão do quadro. A versão 2.0 promete ampliar a eficácia ao duplicar os sinais de contenção à miopia — as crianças e adolescentes devem utilizar os óculos 12 horas por dia para obter os benefícios. A marca francesa não parou por aí. Na China, o país com a maior concentração de míopes no planeta — 80% dos estudantes de ensino médio se enquadram no diagnóstico ali —, lançou óculos inteligentes que, além de melhorar a visão, captam dados da rotina do usuário. “Trabalhamos para que um dia possamos deter ou até mesmo reverter a miopia”, diz Dumas.
Além da EssilorLuxottica, outras empresas experts em lentes também vêm apresentando soluções na área, caso da alemã Zeiss e da japonesa Hoya. Mas, ao lado desses bem-vindos artifícios, a conscientização sobre o problema tem de expandir, de preferência acompanhada de iniciativas como exames oculares em massa nas escolas. E as famílias são convidadas a fazer sua parte, estimulando os mais novos a ficarem ao menos duas horas ao ar livre e controlando o tempo de celular. “Também recomendamos a regra dos 20-20-20: a cada 20 minutos focado em uma tela, direcione o olhar para algo a 20 pés (6 metros) de distância por pelo menos 20 segundos”, diz a oftalmologista Sarah Grünbaum, do Instituto Francês de Miopia. Sim, os vícios e virtudes do mundo moderno pedem um respiro. E é prudente seguir o conselho para enxergar mais longe.
Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003






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